Uma outra chance sobre a terra

Texto de Raíssa Menezes | Revisado por Camila Betoni 

As imagens que acompanham esse texto são bordados produzidos por mulheres através da técnica conhecida como arpillera, popularizada pela oposição ao regime militar chileno e resgatado no Brasil pelo Movimento de atingidos por barragens. Para ver outras obras e conhecer a história dessa técnica, acesse o site do MAB.

No último Natal que passei em família, meu avô, à época com 90 anos, comentou que no ano que chegava seria celebrado o centenário da aparição de Nossa Senhora de Fátima em Portugal. Comentei com minha mãe como era curioso que o ano de 2017 marcasse também o centenário da Revolução Russa. Ela comentou, então, descobrindo uma memória adormecida, que havia uma relação entre as duas coisas: um dos pedidos da santa às criancinhas pastoras era que elas rezassem contra os comunistas. Em uma breve busca no Google a leitora facilmente encontrará o terceiro segredo de Fátima, que fala sobre uma guerra espiritual pela qual o mundo passava. Nela, os inimigos eram os “russos ateus”. Essa história me fez entender melhor meu avô enquanto sujeito de seu tempo, um homem conservador que fugiu da ditadura de Salazar e que odeia comunistas.

Meus avós maternos vieram de Portugal em 1945 com o fim da Segunda Guerra. Portugal não entrou oficialmente no conflito mundial, mas os homens foram convocados para alguns serviços no exército, como o de telégrafo, onde meu avô trabalhou cujo soldo recebido foi utilizado para pagar a vinda ao Brasil. Dessa história familiar sei várias coisas: que apesar do clima da Guerra, esse nunca foi o desejo de minha avó, que ela terminou um namoro anterior porque o rapaz, que também servia nos telégrafos, tinha lhe proposto casamento com planos de vir para Brasil. Mas que com meu avô ela veio. Na verdade, todos vieram juntos, meu avô e minha avó, o ex-namorado casado com outra mulher, no mesmo navio atravessando o oceano Atlântico. Sei que minha avó nunca mais viu sua mãe, e que só voltou a Portugal mais 20 anos depois. Seus irmãos disseram que a mãe não suportou a distância da filha e morreu alcoólatra. Aqui também não foi uma vida fácil, dois filhos morreram ainda na primeira infância por doenças como tétano. Meu avô comprou um pedaço de terra, adquiriu uma máquina de limpar arroz, abriu um mercadinho e entrou para a maçonaria. Eu não me lembro do mercado que ele teve, já o conheci aposentado e há uns dez anos ouço ele dizer que só está esperando Deus o levar, que é um homem realizado por ter conseguido dar uma casa para cada uma das quatro filhas e poder assar picanha aos finais de semana para reunir a família.

Depois de conseguir entender melhor meu avô, procurei perceber também meus pais a partir de seu contexto político. Essas histórias me fizeram iniciar uma indagação: se as experiências anticomunista, colonizadora e liberal conseguiram construir tantas subjetividades e instituições facilmente identificáveis, quais seriam então, as marcas e dispositivos que as experiências libertárias têm deixado em nós, sujeitos coletivos que somos? Minha mãe, filha dos portugueses, foi a única pessoa de esquerda da sua família nessas gerações recentes. Se em 1917, a ameaça comunista gerava medo entre os europeus, nos anos de juventude de minha mãe era ainda sinal de esperança. Ela chegou a se inscrever para ir à Nicaragua sandinista e não foi porque não tinha mais vaga (!). Meu pai – que deveria ser padre de acordo com o desejo de sua mãe e só não foi porque o bispo o expulsou do seminário pelo fato dele se envolver muito com “política” – se tornou um pensador da esquerda na região e viajava dando cursos sobre Marx em uma organização financiada por grupos internacionais. Meus pais tiveram um casamento em que minha mãe não usou vestido e não entrou na igreja com meu avô, mas sim com meu pai, de mãos dadas. Eu, por minha vez, nascida em 87, ganhei esse nome por conta da última primeira-dama da União Soviética, Raissa Gorbacheva, conselheira política do marido durante a Perestroika, uma iniciativa que levou à fragmentação do domínio soviético e à queda do Muro de Berlim em 1989. Ela também se empenhou bastante em mostrar outra visão da Rússia ao ocidente, desmentindo as fake news da época sobre o regime socialista. Mais sorte teve Havana, filha de um casal próximo de meus pais e que ganhou esse nome porque os pais passaram a lua de mel foi em Cuba.

Vieram as “aberturas democráticas”, fomos crescendo, passamos pela década de 90 e início do novo milênio. Meu único trabalho registrado de acordo com a Consolidação das Leis do Trabalho (CLT) foi em uma organização não-governamental, que executava uma política nacional de direitos humanos. Isso já durante o primeiro governo da Dilma, mas não durei muito lá dentro. Não conseguia ver minha história familiar de engajamento na luta social se burocratizar e se tornar insensível aos princípios que eu aprendi quando criança. Entrei para os movimentos sociais enquanto observava o avanço da direita e a fragilidade das conquistas sociais nos governos federais do Partido dos Trabalhadores (PT). Mais do que isso, me dei conta, nos demos conta, da falta de um projeto político de esquerda frente a era do capitalismo financeiro globalizante.

Essas questões sobre as coisas que herdamos das disputas políticas de nossos tempos, já tinham se passado pela minha cabeça no início de 2016, durante uma análise de conjuntura feita em um encontro de um dos movimentos dos quais eu participo. Listamos alguns eventos do ano anterior e identificamos o que neles considerávamos como forças conjunturais e o que era estrutural. Estávamos nos baseando no livro do Betinho, chamado “Análise de conjuntura”. Lá um dos passos é relacionar os acontecimentos ao plano de fundo ou articular conjuntura e estrutura. Ele dá dois exemplos:

“uma greve geral que marca uma conjuntura é um acontecimento novo que pode provocar mudanças mais profundas, mas ela não cai do céu, ela é o resultado de um processo mais longo e está situada numa determinada estrutura industrial que define suas características básicas, seu alcance e limites. Um quadro de seca no Nordeste pode marcar uma conjuntura social grave, mas ela deve ser relacionada à estrutura fundiária que, de alguma maneira, interfere na forma como a seca atinge as populações, a quem atinge e como.” (Souza, 1984, p.13)

Foi interessante observar que as lutas sociais (como as ocupações das escolas), foram classificadas como forças conjunturais, enquanto o desastre no Rio Doce, o avanço do conservadorismo, o aumento da criminalização da luta social, foram associadas a forças estruturais. Fiz uma observação pensando o quanto nós precisamos ter uma força de organização muito maior para incidir na estrutura e conseguir alguma transformação. Foi quando um companheiro discordou, dizendo que já incidimos na estrutura através lutas de nossos antepassados, por exemplo, lembrando o quanto somos frutos de processos de resistências históricas. Comecei a refletir sobre as limitações das categorias conjuntura e estrutura, que dentro de uma análise política por vezes ofuscam as histórias das lutas locais populares e diminuem a importância daqueles que se organizam sem o intuito de disputar o poder no Estado.

A partir de então, passei a ter um olhar mais atento sobre as histórias das lutas populares. Isso ficou marcado quando em uma atividade entre vários movimentos sociais, lemos o livro “Colonização, Quilombos: modos e significações”, de Antônio Bispo dos Santos, que conta sobre as guerras do Estado contra as experiências de comunidades livres de Canudos, Caldeirões, Pau de Colher, Palmares e das comunidades tradicionais contemporâneas. Ele também constrói algumas categorias de análise, como a biointeração, um princípio que guia um modelo de sociedade baseada na convivência entre os povos, entre humanos e natureza e na auto-sustentablidade, em contraponto aos modelos desenvolvimentistas (Bispo, 2015 ).

Depois tivemos a visita de dois pesquisadores sobre movimentos sociais na América Latina: Rita Segatto e Raul Zibechi. Na visão deles o capitalismo não venceu aqui – pelo menos até agora. Para eles, é como se aqui existe um hibridismo, um capitalismo que não se enraizou complemente por conta de processos de resistência, principalmente os comunitários. Todas essas histórias não são simples de se costurar para quem tem a tendência de pensar a história como um todo coerente. A começar pelas lacunas formadas pelas histórias apagadas, memórias que nunca são esquecidas ou lembradas à toa. A história de meus avós paternos, por exemplo, ninguém sabe contar. Sei que minha avó teve 10 filhos, todos com nome de santos católicos. A mais velha, Maria Aparecida, casou-se com um rapaz chamado Jesus (!). Por essa caminhada de 2016, entre a busca das memórias das lutas de esquerda, me encontrei por acaso com o livro “O Levante Comunista de 1949” do historiador Wagner José Moreira (2012), no qual ele relata histórias da luta pela terra no noroeste paulista e do levante ocorrido em uma cidade a menos de 200 quilômetros de onde eu nasci. Então passei a imaginar que era por ali que meus avós circulavam e percebo os fragmentos da memória familiar que se encaixam com o que conta o autor: os trabalhadores do campo sendo expulsos das terras, indo para a cidade e se tornando operários nos frigoríficos, como foi meu avô e hoje ainda são dois primos. Só que eu nunca tinha ouvido falar do tal levante do qual o autor fala no livro. Segundo sua pesquisa, a ação planejada consistia em tomar dois órgãos públicos da pequena cidade, a prefeitura e a delegacia (único local com equipamento de rádio na época). Um dos trabalhadores responsáveis por articular o levante era do Partido Comunista e foi ele que, vendo que grande parte grupo de pessoas previsto não apareceu, decidiu adiar a ação. Porém, cerca de 20 homens que estavam lá resolveram levar a ideia a cabo mesmo assim, armados e em meio a muitos improvisos. Não tiveram, porém, apoio da população que estava em meio aos festejos juninos.

O livro conta também como era a situação dos lavradores naquela época, que chegavam nas fazendas com a promessa de que havia terra à vontade, mas que tinham de se submeter a um suposto dono do local e tudo o que plantavam ia para ele, tornavam-se arrendatários dependentes do comércio cujo dono era o próprio patrão e cuja venda de açúcar era limitada por pessoa. Nesse contexto foram várias as rebeliões e algumas muito bem sucedidas, como quando uma família de fazendeiros teve que fugir para o Rio de Janeiro, após a revolta de mais de 600 trabalhadores e trabalhadoras em frente sua casa. A luta pela redistribuição de terras era latente, pois o sentimento de ter direito a um pedaço de terra era forte (Moreira, 2012).

Em 2011, Antônio Cândido declarou sua visão de que o socialismo foi um movimento vitorioso como doutrina e que os avanços sociais no capitalismo só existiram por causa das ideias e da luta da esquerda. Pois bem, mas ainda que resgatemos essas histórias e essas análises que mostram toda a contribuição que construímos para que o mundo não estivesse muito pior, ainda assim, o diagnóstico generalizado hoje é de que vivemos um momento em que o capitalismo estaria se reatualizando para se aprofundar, agora ele estaria se mostrando em sua essência, seja através de jogadas inconstitucionais, das reformas neoliberais, da perseguição a militantes de esquerda, tudo isso muito bem documentado, sem falar nas estatísticas que mostram o aumento dos homicídios de negros, indígenas, campesinos, entre tantos.

De um lado, alguns intelectuais de esquerda explicam que com o fim da Guerra Fria e a vitória do capitalismo, a esquerda mundial estaria passando até hoje por um luto paralisante. Não conseguimos pensar em um projeto alternativo, nos contentamos com projetos reformistas e, como consequência disso, o capitalismo foi tomando espaço para se mostrar em sua forma mais pura. É difícil negar que um espectro apocalíptico ronda o mundo, um sentimento de que o mundo na mão da burguesia não vai suportar muito mais tempo. Um sentimento de urgência que nos impede de conseguir pensar a longo prazo. Ao mesmo tempo nos defrontamos com a apatia, a insensiblização, um adoecimento social generalizado diante das barbáries.

No livro citado, Bispo  cita um diálogo que teve com um Yanomami:

—Você acredita que o mundo vai acabar?

—Acredito que tudo que começou um dia se acaba, inclusive o mundo. Porém, o mundo não vai acabar nem quando, nem do jeito que você está me perguntando.

—Como e quando então o mundo vai se acabar?

—O mundo vai acabando aos poucos, por espécie, então o mundo acaba sempre. E quem vai acabar com as espécies são os brancos, vão acabar inclusive com os Yanomami, até ficarem só eles, os brancos. E aí então eles vão se autodestruir. O mundo até pode continuar, mas acabou-se para as espécies do tempo dos brancos (Bispo, 2015).

Certamente essa leitura não é apenas fruto das categorias de análise da esquerda, pois as classes ricas americanas têm se preparado para o fim do mundo, comprado armas, terras, estoques de alimentos e construídos abrigos subterrâneos para se protegerem do caos social, político, ambiental, nuclear, etc. Essas pessoas já não acreditam na possibilidade de resolver tais questões e preferem viver no subterrâneo enquanto esperam o fim inexorável. O sentimento é de que ultrapassamos a linha de emergência e agora não tem mais volta, independente do que fizermos, podemos apenas adiar o fim, mas não evitá-lo.

Do outro lado, há o otimismo das possibilidades conjunturais. Entre eles estão aqueles que se organizam para disputar as eleições, para melhorarem as coisas para dona Maria e seu João. Desse lado há uma análise de que a direita no poder é o maior problema e que a experiência do PT no governo foi falha, mas que haveria como fazer de outra forma se os nossos entrassem para a estrutura política do estado. Haveria então uma nova aposta nas possibilidades dentro da política institucional e uma avaliação de que estar lá dentro compensa, apesar da domesticação da luta popular que tem sido a consequência disso. Ao mesmo tempo, não se apresentam propostas de transformações estruturais.

Particularmente, nada disso me assossega porque vejo que o medo e o conservadorismo também atingem a esquerda e suas práticas. Lembro de colegas de trabalho que na eleição passada anunciavam de forma provocativa seu voto em Dilma frente às forças da direita, mas ao descobrir que fazer propaganda no local de trabalho poderia ser criminalizado, retiraram os adesivos de suas mesas. Ou colegas do trabalho que falavam sobre a importância da união dos trabalhadores, mas quando falamos em paralisação, recuaram, dizendo que por não sermos CLT não temos direito à greve. Colegas citando um suposto centralismo democrático querendo dizer que não deveríamos questionar ordens superiores. Enfim, apontar as contradições também não nos leva a lugar nenhum se não tratadas de forma coletiva. A questão aqui é que vivemos uma época em que a falta de imaginação para um novo projeto político implica na falta de espírito rebelde para radicalidade. O que mais une todas as memórias de luta aqui narradas é a certeza que se tinha de que as coisas podiam ser diferentes – talvez a única certeza que valha a pena ter. Alguns chamariam de fé, mas fé na organização coletiva e nos movimentos sociais, é uma heresia, como a própria santa de Portugal veio dizer.

Mas então, como nos situar nesse campo de macroanálises e histórias coletivas? Como elaborar outras categorias de entendimento do mundo que deem o devido espaço à força das lutas populares (com suas memórias fragmentadas e absurdas)? Gabriel Garcia Marquez (1982), quando foi receber o prêmio Nobel, nos disse que é um atrevimento se propor a pensar essa realidade descomunal da América Latina, pois o tamanho de nossas dificuldades não cabe nos métodos europeus de interpretação. E esse seria o tamanho da nossa solidão. Ler que “as estirpes condenadas a cem anos de solidão não teriam uma segunda chance sobre a terra” (1967, p. 219), nesse momento, me faz pensar se não somos nós a estirpe que não aceitou tal condenação e que reivindica outra a chance sobre a terra. Uma linhagem, não de sangue necessariamente, daqueles que contrariaram a solidão e que se organizaram. Quando nos pensamos como linhagens, somos tão fortes quanto as forças conjunturais e estruturais. Estado e capital são construções históricas passageiras frente a nós. Quando nos pensamos como linhagens, nossa memória pode ser retomada e recriada, talvez também nosso futuro.

[1] E pensar que ainda hoje utilizam essa tática de nos taxar como um dos grandes males do mundo, inclusive nos discursos de presidenciáveis, mesmo sem oferecermos mais risco algum de revolução, sem disputar projetos de sociedade em metade do mundo.

 

BISPO, Antônio. Colonização, Quilombos: modos e significações. Brasília, 2015.

MARQUEZ, Gabriel Garcia. A solidão da América Latina. Tradução de Eric Napomuceno. Discurso no Prêmio Nobel de Literatura, 1982.

MARQUEZ, Gabriel Garcia. Cem anos de solidão. Rio de Janeiro: Record, 1967.

MOREIRA, Vagner José. O levante comunista de 1949: memórias e hisórias da luta pela terra e da criminalização dos movimentos sociais de trabalhadores no Noroeste paulista. Cascavel: EDUNIOESTE, 2012.

SOUZA, Hebert José. Análise de conjuntura. Editora Vozes, 1984.

TAVARES, Joana. O socialismo é uma doutrina triunfante”. Brasil de Fato, 2011.

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é militante, educadora, feminista e capturadora de histórias rebeldes

One thought on “Uma outra chance sobre a terra

  1. Raissa, muito obrigada por esse texto que eu gostei muito de ler. Concordo muito contigo de que precisamos retomar a fé na ação coletiva, acreditar não só nos movimentos sociais, como na própria criatividade da classe em encontrar novos caminhos. Esse sentimento de que é mais fácil o mundo acabar do que virar completamente outra coisa é algo que precisa ser atacado por nós, tanto dentro da esquerda quando pra fora dela. É um sentimento imobilizador demais. Evocar a memória, lembrar de que as coisas mudam e que se não estamos ainda piores é por nossos antepassados não sanguíneos, é um jeito de fazer isso.

    Agora, eu até concordo com a sua ideia de que a falta de imaginação implica na falta de espírito radical, rebelde. Mas vejo um problemão aí, uma questão mais urgente a ser enfrentada. A esquerda precisa ser popular, precisa retomar seu caráter de base. Radicalismo isolado é vanguarda, é martirização. Acho que uma das coisas que precisamos retomar das gerações de militantes contemporâneas a nossos pais e avós é justo essa disposição para o trabalho de base.

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