Um breve relato sobre o ano novo com o Lula

Texto e imagens de Ana Lívia R. S.

Parti de Brasília, onde vivo, rumo a Curitiba para passar a virada do ano na vigília em apoio ao movimento “Lula Livre” e participar do “Lulabraço” no dia 1º de janeiro. Essa data foi considerada importante para várixs militantes de esquerda, já que provavelmente o ex-presidente teria ganhado a eleição caso sua candidatura não tivesse sido impedida. Alguns veículos de informação e até mesmo algumas pessoas presentes no evento acreditaram que haveria uma posse simbólica de Lula, fato que foi desmentido posteriormente pela direção do PT. Ainda assim, o sentimento de muitas pessoas que lá estiveram foi o de que deveria ser o dia da posse de Lula e de que estávamos ali para celebrar a força da luta que ele ainda representa para muitxs.

A viagem de ônibus, que contou com uma maioria de militantes de partidos de esquerda (PT e PCO) e algumas pessoas de esquerdas independentes, como eu, durou pouco mais de um dia. Nela, já dava pra sentir o clima otimista de que viraríamos o jogo nesse tenebroso momento político em que nos encontramos no Brasil. Ouvi no ônibus alguns comentários de que “soltaríamos o companheiro” e de que “ele teria que sair da cadeia de qualquer jeito, mesmo que tivessem que invadir a PF”. Mesmo me parecendo impossível que isso fosse acontecer, achei curiosa a animação geral. Foi revigorante respirar esse ar menos carregado e poder estar com outras pessoas que também buscavam essa experiência para essa passagem de ano.

Ao chegar em frente à Polícia Federal, logo após a saudação de “Boa noite, presidente Lula”, conheci as duas instalações dxs apoiadorxs da causa: o acampamento Marisa Letícia e a Casa Marielle Vive. Esses espaços possuem estrutura para alimentação à base de mantimentos doados e trabalho voluntário do MST, PT e apoiadorxs independentes, material da campanha “Lula Livre” e homenagens por meio de murais a algumas personalidades socialistas, tais como Karl Marx, Rosa Luxemburgo, Fidel Castro, Hugo Chávez, entre outrxs. Também foram decorados com bandeiras do MST, da Marcha Mundial de Mulheres, CUT, etc. Havia muitas faixas pedindo a liberdade de Lula. No mesmo dia em que foi preso, em 7 de abril de 2018, foi montada uma vigília para reunir xs apoiadorxs da causa, que passaram a acampar nas calçadas do bairro de Santa Cândida, o mais perto que podiam ficar da Superintendência da Polícia Federal. Contudo, a PF proibiu que o movimento se aproximasse muito das imediações do prédio, bloqueando suas vias de acesso para a militância. Além disso, a Prefeitura de Curitiba restringiu a circulação de manifestantes e estipulou uma multa de R$ 500 mil reais por dia caso o interdito fosse descumprido. Após ganho de causa, a militância conseguiu  beirar o prédio da PF, erguendo as tendas do Marisa Letícia em espaço alugado e em uma casa na redondeza para o espaço Marielle Vive, além de contar com  a Casa da Democracia, dois quarteirões abaixo da Superintendência. Algumas pessoas dormem nesses espaços e se organizam para realizar diversas atividades cotidianamente, como preparar a alimentação na cozinha comunitária, realizar rodas de conversa sobre diversos temas políticos, receber as caravanas do estados, representantes de governos nacionais e internacionais, integrantes de movimentos sociais, artistas, jornalistas e apoiadorxs de Lula de forma geral.

Com o passar dos meses, houve uma considerável redução no número de participantes da vigília, após inúmeros cercos policiais e conflitos com a justiça local. Constam processos judiciais contra o movimento e houve detenção de três manifestantes, dentre elxs a própria coordenadora do acampamento e então candidata a deputada estadual, Edna Dantas. Houve conflitos com ameaças de vizinhxs e até mesmo atentados a tiros, um deles chegando a ferir duas pessoas (Jeferson Lima de Menezes foi  atingido gravemente no pescoço), além de tentativas de atropelamento de acampantes e arremesso de bomba contra o acampamento. Soube mais detalhes a respeito desses atos truculentos contra o movimento em minhas pesquisas na internet, quando estive lá o clima estava mais voltado para o encontro festivo. Muitas camisetas com o rosto de Lula estavam sendo vendidas e vestidas, com a frase “Lula Livre” e outros objetos, como canecas, bottons, livros e imãs. A cor predominante era o vermelho, mas havia um colorido que aparecia nas roupas e bandeiras.

Como moradora da capital do país, onde os prédios oficiais estão dispostos em diferentes setores de forma isolada, estranhei que a sede da Polícia Federal estivesse localizada no meio de um bairro residencial de classe média. Vivenciei cenas de conflitos entre moradorxs do bairro e xs apoiadorxs de Lula: desde xingamentos até ameaças para que “seus gramados” na via pública não fossem “invadidos” (o que ocorreu quando as pessoas simplesmente se sentavam ou caminhavam nas áreas em frente às grades residenciais), passando por mangueiradas de água cujos alvos foram aqueles considerados vagabundos e apoiadores do “bandido-chefe” (um dos alvos dos jatos de água foi uma criança que dormia no colo da mãe de madrugada). Também ouvi relatos de que um morador ameaçou manifestantes que sentavam no gramado em frente à sua casa com uma arma de fogo. De certo, nossa exi(resi)stência e o vermelho que tomou as imediações da prisão incomodou muita gente por ali. No mais, percebi um silêncio e indiferença que me chamaram a atenção. Os policiais, nessa noite específica, não atuaram diretamente contra os atos que realizamos, ficaram parados observando as movimentações e guardando o órgão federal, como bons soldados.  

O prédio da Polícia Federal, um grande bloco cinza de concreto e vidro fumê, com alguns poucos policiais parados em sua entrada, parecia um túmulo, como ressaltou minha mãe, com seu silêncio opressor que nos assombrava. O que buscavam enterrar nele? Lula, claro. E com ele, parte significativa da história, do presente e do futuro da esquerda no país. Apesar do momento fúnebre e do forte sentimento de angústia, vi ali expressões de alegria e esperança. Muitos gritos e demonstrações de afeto, risos e choros, direcionados ao Lula, ou ao “Presidente Lula”, como ali nos referíamos. “Luuulaaa”, “Luuuula, eu te amo!” e “Soltem o Luulaa” eram berrados inúmeras vezes. Mesmo com a tristeza que nos assola pela onda direitista-fascista no país e a ameaça às minorias e a todos os grupos e movimentos de esquerda, havia ali esperança. “A gente luta com alegria. O ódio não faz parte da nossa resistência”, disse Gleisi Hoffmann em seu discurso.

O objetivo da militância na vigília é resistir politicamente à prisão de Lula e não permitir que ele fique sozinho nem por um dia sequer, bem como lhe oferecer um pouco de calor humano, ainda mais no período de final de ano, quando presos são impedidos de receber visitas. Nos dias 24 e 25 de dezembro, cerca de 500 pessoas celebraram o Natal na Vigília com Lula. O movimento quer fazer jus ao que o ex-presidente representa para muitas pessoas: um operário sindicalista que chegou ao poder através do maior partido de esquerda das Américas. É claro que muitos erros e concessões foram feitos em seus governos e que frustraram grande parte da sua base de apoio e dos movimentos sociais. Ainda assim, Lula permanece um símbolo de um país mais justo e menos desigual, e de um momento histórico do Brasil pós-ditadura, período em que houve a ascensão da esquerda organizada institucionalmente no regime que se intitulou democrático. Além de símbolo, os governos de Lula também foram períodos de conquistas sociais efetivas para diferentes parcelas da população. Motoristas de aplicativo de transporte que utilizei em Curitiba e com quem conversei demonstraram apoio ao Lula e um deles me disse que passou a ceia de Natal com sua família na Vigília. Uma outra me relatou como sua vida mudou após os governos de Lula, período em que pôde quitar suas dívidas e comprar casa e carro próprios, além de se formar em cursos profissionalizantes e ter sua filha formada em Direito. Tudo isso por meio de programas federais.    

Durante o dia 31 de dezembro de 2018, antes da virada, fomos embaladxs por música ao vivo e clássicos da resistência, como Mercedes Sosa, Chico Buarque e outros. Estendemos uma faixa gigante de 60 metros em frente ao prédio da Superintendência para pedir a liberdade de Lula. Ainda antes da Virada, houve um ato ecumênico religioso que contou com representantes cristãos e do Candomblé, apresentação ao vivo com músicas diversas, incluindo algumas preferidas de Lula (versão de bandolim da música “Ave Maria”). Uma ceia comunitária com alimentação arrecadada foi oferecida a todxs que participavam do evento. Muita gente entoando “Lula, guerreiro do povo brasileiro”, “Feliz ano novo, Presidente Lula Livre” por 13 vezes consecutivas e “Olê, olê, olê, olê, Lulaaaa Livreeee”. Minutos antes da virada, foram distribuídas flores coloridas de papel crepom confeccionadas por um coletivo de mulheres e distribuídas para que nós, mulheres, as segurássemos. Enquanto isso, Gleisi Hoffmann lia a carta que Lula escreveu afirmando que “2019 será um ano de muita resistência e muita luta, para impedir que o nosso povo seja ainda mais castigado do que já foi. (…) Nós sempre tivemos coragem de lutar e temos coragem de recomeçar. (…) Como diz a canção do grande Chico Buarque: ´Amanhã vai ser outro dia´”.

Em meio a alguns fogos de artifício, solo de saxofone seguido de batuque com um bloco de percussão e muitos gritos calorosos direcionadas ao companheiro, pedindo sua liberdade, passamos a virada. Foi um momento emocionante e que me deu a sensação de viagem ao tempo, lembrando de momentos parecidos vivenciados por mim quando criança, antes de o PT chegar à presidência da república. O evento contou com cerca de duas mil pessoas e com vinte caravanas vindas de vários cantos do país. Vi gente majoritariamente mais velha do que eu, possivelmente na faixa de 40 e 50 anos, mas também vi algumas crianças e jovens. Me pareceu que havia ali uma galera que acompanha a trajetória política de Lula há muito tempo, gente ligada aos movimentos sociais (MST, Marcha Mundial das Mulheres, etc.), mas principalmente ao PT (O PCO foi o único outro partido que convocou sua militância para participar do evento). No dia 1º de janeiro, aconteceu um ato para abraçar Lula com um cordão humano em frente à Polícia Federal enquanto soltávamos balões vermelhos e arremessávamos flores brancas, também de papel crepom, para dentro da cerca da prisão.  

Assim que cheguei na Vigília, no dia 31 de dezembro, senti falta de mais apoio popular, pois esperava que haveria um público muito maior do que o que esteva presente. Ouvi de pessoas no local que o PT poderia ter lotado o evento, mas que escolheu não chamar a sua base. Não sei se esse fato procede ou não. Essa crítica se relaciona com a visão de que o partido em questão ainda insiste em buscar lidar com o golpe por vias legais e não por um enfrentamento popular. Ainda assim, as pessoas que estiveram presentes fizeram valer o encontro através das inúmeras místicas e do sentimento de solidariedade coletivo.  O golpe quis transformar Lula na antítese do povo, simplesmente num bandido corrupto. Ou ainda, forjar seu esquecimento para que apodreça na prisão e se torne motivo de vergonha e ódio nacional. A festa do lado de fora da Polícia Federal demonstrou a fonte da força da própria esquerda: a mobilização de base, o encontro, a organização coletiva, a alegria, a esperança e também a tristeza partilhada. Que possamos construir muitos momentos como esse e outros tantos para que resistamos aos ataques que sofreremos cada vez mais. Que nossas imaginações nos levem a realidades menos cruéis para então transformar nossos sonhos em muita mobilização coletiva.

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