Seguiremos porque somos de luta

Nota do Entranhas sobre o processo eleitoral e os tempos por vir

Estamos todas tensas. Nas últimas semanas não foram poucos os relatos de pessoas próximas a nós – em termos afetivos ou políticos – que sofreram atos de violência feitos em nome do candidato à presidência Jair Bolsonaro. Domingo teremos o resultado final das eleições. A essa altura, o cenário parece ser o pior possível, sinalizando a vitória de Bolsonaro. Entretanto, claro está que, mesmo que Haddad ganhe nas urnas, enfrentaremos anos difíceis pela frente. Na última década, e em resposta aos ainda pequenos avanços que tivemos, a direita tem se organizado em uma tarefa sistemática de combate às ideias progressistas e aos projetos de base popular. Esse movimento abarca tanto seus setores mais liberais – há anos muito bem articulados em thinktanks, por exemplo – quanto os mais autoritários – belicistas que, sem nenhum constrangimento, abrem mão de qualquer verniz democrático [1].

No Brasil, com o suporte da grande mídia e boa parte do judiciário, esse pensamento tomou corpo em uma campanha de construção do antipetismo, cuja candidatura de Bolsonaro representa o seu melhor fruto. Enganam-se aquelas entre nós que ainda pensam que esse antipetismo atinge apenas o Partido dos Trabalhadores. Esse ataque se dirige à própria ideia de esquerda e, portanto, à todas nós: a esquerda, aos movimentos sociais, às minorias e até  mesmo às vozes mais acanhadas de defesa dos direitos humanos. Se isso já vinha ficando claro desde que a direita passou a disputar as ruas ainda em 2013, agora, na campanha eleitoral, torna-se mais explícito do que nunca. Independentemente do resultado eleitoral, a tarefa que se coloca à nossa frente é a de enfrentar uma direita organizada e violenta – que será fortalecida caso Bolsonaro seja eleito, mas não se calará frente a uma vitória de Haddad. Ainda mais do que isso: precisaremos combater no campo ideológico essa receita macabra que é a defesa do neoliberalismo econômico somada ao conservadorismo moral e a violência aniquilatória.  

Jair Bolsonaro defende a tortura contra presos políticos e já afirmou que o erro da ditadura foi torturar ao invés de matar os militantes de esquerda. Uma semana antes das eleições, ao se referir às manifestações do #EleNão, disse que com ele na presidência os “marginais vermelhos” serão “banidos de nossa pátria”. Após a apuração das urnas no primeiro turno ele se comprometeu em “acabar com todo o ativismo no Brasil”.

 O fato desse tipo de discurso ser amplamente aceito no país reflete a fragilidade de nossa democracia institucional, que continuou matando e torturando a juventude negra como se fosse esse o estado natural das coisas. Reflete ainda e a ausência de uma memória viva sobre o período da ditadura. Não acertamos as contas. Apostamos na falácia do “todo mundo errou”, anistiando ao mesmo tempo militares torturadores e pessoas que se organizaram para resistir ao autoritarismo, como se fossem dois lados da mesma moeda.Essa é mais uma solução tipicamente brasileira, que insiste em negar os massacres que constituem o país, tal como nega-se que a escravidão foi política de Estado, atribuindo a grandes violências um caráter cordial.

Mas se é fraca a memória que o país tem de sua história, viva é a memória que temos de nossas lutas. Não é de hoje que enfrentamos conjunturas duras sem se entregar. Dos quilombos organizados à resistência diárias das pessoas LGBTT+, dos indígenas aos sem terras, dos guerrilheiros que enfrentaram os militares aos setores progressistas do cristianismo: não somos um país feito só de Bolsonaros. Somos o país dos Paulo Freires e Dandaras, das Marielles e Mestre Moas, dos Marighelas, Zumbis, Pagus, Mahins, Lamarcas. Nessa hora de tensão é importante fortalecer os laços com aqueles que vieram antes de nós. Precisamos defender a esperança, defender a possibilidade da alegria, abandonar o recuo. Essa é a tarefa que nos cabe como esquerda. Não é esse Jair Bolsonaro que vai acabar com o ativismo. Somos nós, ativistas e militantes, que vamos acabar com ele.

É verdade que resistir a essa nova ascensão do autoritarismo requer cuidados com os quais talvez tenhamos nos desacostumado. É urgente elaborar protocolos de segurança, cuidar dos nossos, nos fortalecer – físico, emocional e politicamente -, criar cada vez mais redes de apoio. Nossa solidariedade e afeto precisam começar com quem já está na linha de frente: povos negros, indígenas e quilombolas, população LGBT+, lutadores/as do campo, movimentos já bastante estigmatizados como MST e MTST e também os/as compas que enfrentam a criminalização por lutarem, como os 23 do Rio de Janeiro, condenados com base em um processo absurdo que tende a ser cada vez mais a tônica da nossa justiça.

Como esquerda precisamos, ainda, voltar a ser povo. A lógica do “eu avisei” precisa ser abandonada: não adianta de nada ter razão se estamos sozinhos, isolados e com medo. Para isso, temos que nos livrar do modo Facebook de debater e investir no que sabemos fazer melhor: olho no olho, conversa, construção coletiva e comunitária. Como nos disse Mano Brown, essa sempre será a nossa melhor aposta e é por isso que os tempos da esquerda de gabinete precisam acabar.

Entendemos que agora é estratégico apoiar a candidatura de Haddad e Manuela em defesa de uma democracia mínima, mas sabemos que se eles ganharem teremos também um governo cheio de concessões ao capital privado. Frente a um cenário dito de polarização – em que o pólo claramente tende muito mais a direita que a esquerda – muitos militantes têm optado por adestrar seus discursos, deixando de lado pautas históricas para defender o mínimo, reivindicar de forma recuada apenas aquilo que cabe dentro de consenso ultra-liberal e individualista. Contra o retrocesso e o ataque aos nossos direitos, nos próximos anos precisaremos colocar de forma clara, firme e acessível as nossas pautas. Precisamos confiar nelas, defender os direitos coletivos e os bens comuns como nossas saídas. É preciso defender os trabalhadores contra as ofensivas do capital. O sistema financeiro bate recordes seguidos de lucro em meio às crises que assolam os mais pobres. Eles são o problema, não nós. No Brasil, 1% das propriedades rurais concentram 45% das terras produtivas. O MST não é o problema do país – ele é parte da solução, junto com a demarcação de terras indígenas e quilombolas. Nas cidades, temos mais casas sem gente do que gente sem casa. As famílias do MTST não são um problema, elas são nossa solução.

Educação e cultura críticas, acessíveis e populares são chaves fundamentais para um futuro com mais liberdade. Um povo que não reflete criticamente sobre seu passado e seu presente é um povo que se deixa enganar por notícias falsas e propostas vazias. Somos o quinto país que mais mata mulheres, um país com altos índices de estupro em que a maioria das vítimas são crianças e adolescentes. Falar de gênero e sexualidade nas escolas é um passo importantíssimo para superar esse cenário e isso precisa ser arduamente defendido. Somos também o país que mais mata pessoas LGBTT+. O ativismo desse povo é parte da solução, não do problema. Por fim, o Brasil promove uma guerra diária aos mais pobres, que tem como resultado o extermínio sistemático da juventude negra. Precisamos colocar um fim a guerra às drogas, defender as ações afirmativas e combater o racismo institucional e a violência de Estado. Para isso, é fundamental que o povo negro organizado seja apoiado e fortalecido por toda a militância.

Para conquistar o mínimo e fazer nascer outras possibilidades de existência a nossa organização sempre foi parte essencial da solução: das pequenas conquistas às grandes revoluções, foi sempre por meio de nossa força coletiva que avançamos para que o mundo não seja só (o) deles. Em tempos de tormenta, cultivar os afetos, as conversas, a escrita, a ação, a solidariedade, e as coletividades – cultivar, pois, a luta – é mais urgente do que nunca. Seguiremos!

[1] A história nos mostra que a fronteira entre a direita liberal e autoritária pode inexistir, a depender dos interesses em questão. Um exemplo emblemático é o Chile, golpeado por uma articulação entre forças armadas e economistas neoliberais da Escola de Chicago, em 1973, processo que resultou na mais sangrenta e liberalizante ditadura da América Latina.

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Entranhas

Análise Política feita por mulheres de esquerda

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