Seguimos perguntando: Quem matou Marielle?

Já estava quase indo dormir quando soube da notícia, imediatamente lembrei de Marighella. Nenhuma coincidência, foi só o inconsciente aproximando dois períodos históricos, dois fatos, duas injustiças, dois carros alvejados, dois pretos mortos.

Na noite seguinte, passamos uma meia hora paradas na Avenida Paulista, na altura de um daqueles muitos prédios que nunca sabemos se são bancos ou órgãos de justiça – até porque, tanto faz – por mais de meia hora vendo gente passar. Chegamos no MASP perto das 19hrs, já tinha engarrafamento, já estava difícil passar entre as pessoas. Ficamos lá durante um tempo até seguir a marcha, eu não conseguia ver o começo da marcha e ainda sim, parei e vi meia hora de gente passar.

Meia hora de todo tipo de gente que se solidarizou com uma execução sumária. Meia hora de gente que precisava se reunir pra compartilhar a dor, pra se sentir forte de novo. Meia hora de gente que se soma pra odiar a polícia e o capital. Meia hora de gente que grita fundo como quem sente na carne todos os dias a injustiça.

Durante todo dia foi inevitável não pensar sobre a execução. As notícias e as fotos de Marielle chegavam entre uma reunião e outra, não paravam. Todas elas chegavam com fotos dela com aquele sorriso que quando você olha dá vontade de sorrir também, até você lembrar o motivo daquela foto ter chegado até você: sim, essa morte dialética que nos causa tanta dor e ao mesmo tempo tanta força para não ficar inerte diante do fato consumado.

Durante todo o dia foi inevitável não pensar nos nossos privilégios, nos tantos privilégios, foi impossível não ler o que Elza publicou e lembrar do que ela imortalizou cantando, essa ainda é a carne mais barata do mercado, a mulher negra. Fiquei pensando que Freixo é do mesmo partido, Freixo também já foi vereador, Freixo também denunciava as mesmas coisas, Freixo sofreu ameaças, e Freixo continua vivo. Depois, chegando do ato fui ver o Jornal Nacional no youtube, descubro que ela trabalhou muitos anos com ele. Me espantei em ver a cobertura. É clima de comoção nacional mesmo, até pra eles. Mas sempre desconfiemos deles.

O que eles querem com isso? Justificativa para aprofundar ainda mais o golpe? Justificativa para prolongar essa Intervenção Militar? Justificativa pra expandir essa Intervenção Militar? Como bem falou a compa que assistia o jornal comigo, será mais um 2013, onde eles conseguiram reverter o processo que as ruas ditavam? Eles são muito bons em fazer isso, manipular o discurso, jogar sempre ao seu próprio favor. Afinal, o que seria do golpe sem a Globo? Será que a gente consegue resistir nas ruas? Aposto que Marielle estaria lá! Ela está. Marielle, presente, presente, presente!

Faz escuro, mas eu canto por que amanhã vai chegar. Vem ver comigo companheiro, vai ser lindo, a cor do mundo mudar. Vale a pena não dormir para esperar, porque amanhã vai chegar.
Já é madrugada vem o sol quero alegria. Que é para esquecer o que eu sofria.
Quem sofre fica acordado defendendo o coração. vem comigo multidão, trabalhar pela alegria.
Que amanhã é outro dia, que amanhã é outro dia.
(Thiago de Mello)
São Paulo, 15 de março de 2018.

Ilustração: Camila B. – mundoemquedalivre.tumblr.com

Amanhã completa um mês da execução de Marielle, um mês que tantas coisas aconteceram, mas a pergunta que fica é uma só, “quem matou Marielle?”. Durante esse um mês, uma testemunha que colaborava foi morta, durante esse um mês Lula foi preso e a pauta de Marielle se somou a pauta #LulaLivre. Ou seria Lula que deveria se somar a pauta de Marielle? Talvez, nesses momentos que precisamos construir unidades – sim, no plural -, muitos – sim, no masculino – dirão que não é hora para debater isso, que as duas pautas são importantes. Se o são, está mais do que na hora de parte da esquerda entender que as pautas que envolvem representatividade não só são importantes, inclusive porque hoje dialoga muito mais com parte da população -, mas porque precisamos URGENTEMENTE – sim, em letras garrafas – compreender como uma pauta está intimamente ligada à outra. O capital não avança se não continuar matando o povo preto, o capital não avança se as mulheres tiverem emancipadas e livres, o capital não avança se não tiver uma máquina de guerra para gerar lucro, não à toa enquanto escrevo, Trump tá na TV querendo justificar porque oficialmente está declarando guerra e atacando a Síria. Neste exato momento. E possivelmente enquanto você estiver lendo esse texto, guerras não são rápidas. Talvez nesse exato momento também o Exército e a PM tão matando gente por aí. Guerra é coisa séria. Soldados e policiais também trabalham na sexta a noite.O capital não dorme em serviço. A execução de Marielle tem um motivo, queriam calar justamente quem fazia o enfrentamento direto. Ela ousou enfrentar o Estado de frente, a milícia de frente e seja na sua face institucionalizada, de terno e gravata, seja na face que tem cara mais humilde, mas não menos cruel. Ambos, representam o interesse do capital. E por isso Marielle transformou-se em símbolo tão forte de resistência: mulher negra, periférica e socialista. Não há como separar nenhum desses adjetivos.

Amanhã completa exato um mês de sua execução, ocorrerão atos e vigílias por diversas cidades. Seguimos cotidianamente nos fazendo a mesma pergunta, “quem matou Marielle?”. Não ando assistindo muita TV para saber se a globo também se pergunta isso. Mas sei que eles ainda não venceram essa guerra e a luta dela não foi captulada. Seguimos despertas, seguimos resistindo!

São Paulo, 14/04/2018.

 

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Luara D

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