Precisamos florir novas Rosas

texto de Camila Marques

Há exatos 100 anos dois grandes líderes revolucionários eram assassinados: Rosa Luxemburgo e Karl Liebknecht. As dores das suas mortes precisam ser sentidas, por nós, socialistas, como se fosse ontem, tanto pela atualidade e necessidade das suas obras, quanto pelas semelhanças de nosso tempo histórico com o que Rosa e Karl viveram.

Rosa Luxemburgo era judia, alemã e comunista, e junto com o camarada Karl Liebknecht foi brutal e covardemente assassinada no dia 15 de janeiro de 1919. Ela não foi morta pelo nazismo; não foi morta por Hitler, que até então era um menino frustrado com a Alemanha derrotada na Primeira Guerra e que saiu da condição de militar para ingressar na carreira política. Rosa foi morta pelo Partido Social Democrata alemão, o SPD, o maior partido dos trabalhadores construído até então. Foi morta pelos Corpos Francos, um grupo paramilitar montado por Norske, ministro do recém-empossado presidente da Alemanha, Friedrich Ebert, primeiro presidente operário eleito. Foi morta pela socialdemocracia! E isso precisa ser dito e repetido. Rosa Luxemburgo e Karl Liebknecht foram assassinados pelos que optaram pela política de conciliação de classes.

Sim, é a mesma socialdemocracia que o PT reivindica há anos e que nas últimas eleições o candidato Haddad disse ser a natureza do partido. A campanha falou de flor, falou de amor, mas não falou de ROSA! Não é bonito reivindicar a morte de Rosa Luxemburgo, não mobiliza a militância, mas é isso que se faz ao reivindicar a socialdemocracia.

O PT e a CUT escolheram como sua escola de formação o Instituto Friedrich Ebert. O nome do presidente que comandou o assassinato de Rosa e Karl tem um Instituto que o homenageia e dissemina a política socialdemocrata pelo mundo, assim como temos o Instituto Lula. Coincidência?

Rosa militou boa parte de sua vida nesse mesmo partido, o SPD. Foi camarada de Ebert, Norske, Kautsky… com uma diferença: ao contrário de seu partido, a camarada Rosa não abandonou a perspectiva revolucionária e foi por isso que ela foi assassinada, logo após o fracasso de um processo de revolução socialista na Alemanha, processo esse que foi derrotado pela socialdemocracia, que preferiu assumir o governo e chacinar trabalhadores para manter o capital do que levar adiante uma revolução socialista.

Até hoje parte da militância se pergunta: “como a social democracia que tanto fala de amor e contra o banho de sangue foi autora dessas medidas?” “Como os sociaisdemocratas que reivindicam a paz puderam ser diretamente responsáveis pela Primeira Guerra Mundial depois de votar a favor dos créditos de guerra?” E pior, “como pode atacar a classe trabalhadora e destroçar um processo revolucionário sendo que o SPD ainda tinha em seu programa o socialismo?” “Porque matar Rosa e Karl, companheiros valorosos que dedicaram suas vidas ao socialismo e, até serem expulsos, ao próprio SPD?”

Uma primeira e necessária explicação está no último texto da Rosa, “A Ordem Reina em Berlim”, em que a camarada afirma que a paz social-capitalista é a paz dos cemitérios, é a paz da nossa morte. Como diz o grupo O Rappa, “paz sem voz não paz, é medo.”

Essa é a paz da socialdemocracia, uma paz que silencia e mata trabalhadores, não somente por reprimir manifestações, mas por silenciar o massacre cotidiano do capital sobre nossa classe. E em troca de migalhas imediatas, rebaixando as reivindicações operárias, entregam a nossa vida e chamam isso de paz. Continuam se afirmando como socialistas, mas mantem essa palavra nos seus documentos de forma oportunista e vazia, não como um projeto histórico que pensam os passos a andar, mas como um estado de espírito ou como algo distante, utópico e inalcançável.

Homenagear Rosa Luxemburgo e Karl Liebknecht no centenário de suas mortes é dizer que a socialdemocracia, viva e presente no Brasil e no mundo, assassinou Rosa e Karl, é dizer que sociaisdemocratas são cães dóceis para o capital, são capazes de ir presos de “forma injusta” falando que frente ao ódio serão amor, porque a socialdemocracia jura amor eterno e é fiel ao capital e ao seu Estado, mas é covarde, truculenta contra nossa classe quando não consegue apassiva-la.

E não venha dizer que é coisa de alemão, porque quem de fato está ao lado dos trabalhadores não vai esquecer do governador Rui Costa na Bahia falando que a polícia baiana é um artilheiro de frente pro gol, após a chacina do Cabula; ou do Cristovam Buarque, ex-governador do Distrito Federal pelo PT enviando a polícia para a chacina na Estrutural, ainda nos anos 90. Não é pontual aqui, como não foi só em Berlim…

Homenagear Rosa Luxemburgo e Karl Liebknecht é mais do que tratar suas mortes, é retomar o exemplo da luta diária pela construção do socialismo, não para gerações futuras, mas como tarefa necessária para a humanidade desde o século passado!

Homenageá-los é conhecer suas histórias e retomar imediatamente esse projeto! É saber que eles foram contra a guerra, mas não eram pacifistas, pois defenderam e militaram em revoluções armadas! Por saber que a nossa paz é alcançada pela luta, pelo socialismo, pelo qual vale a pena guerrear para construir nossa revolução, mas que é estúpido morrer em uma guerra em nome de uma pátria, matando trabalhadores de outros países para defender os capitalistas de uma nação!

É retomar a Rosa mulher, dirigente, que era sim feminista, mas que sabia ser o voto das mulheres e as pautas descoladas da emancipação da classe absolutamente insuficientes e errôneas. É ser feminista-socialista, e para isso a luta de classes é determinante!

É compreender que pleno emprego, salários mais altos e acesso aos bens de consumo são possíveis somente em momentos de expansão do capital, que duram pouco; e que serão duramente atacados pelo capital no momento seguinte; e, o mais importante, que essas ditas benesses são conquistadas com nossa organização e luta, são frutos do nosso suor. É reconhecer que o capital só cresce nos explorando, nos matando de trabalhar e que esse retorno mínimo e temporário não pode ser nosso objetivo porque também são formas de dominação e exploração capitalista e nosso objetivo é superá-lo!

É retomar a dialética como método! Com conflito, com porrada, com ruptura, com revolução! Com análise e foco em situação revolucionária! É ser implacável com os inimigos de classe, intransigente com pelegos e oportunistas. A crítica deve ser dura e ao mesmo tempo fraterna com os nossos!

É gritar em alto e bom som: socialismo ou barbárie! É temer e combater a barbárie que avança sobre nós na forma de violência, esgotamento de recursos naturais, sobrecarga de trabalho, ataques aos direitos de idosos e crianças, massacres de indígenas, negros e LGBTs. Lutar pela única saída para esse caos social que nos coloca ainda na pré-história da humanidade é lutar pelo socialismo!

Companheira Rosa e companheiro Karl, presentes!

Viva Rosa Luxemburgo!

Viva o socialismo!

Camila Marques é professora Instituto Federal de Goiás e militante da Intersindical- Instrumento de Organização e luta da classe trabalhadora.

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