Palavras de mulheres revolucionárias

 

O artigo a seguir foi escrito pelas mulheres do Comitê de Solidariedade à Resistência Popular Curda de São Paulo e originalmente publicado como um capítulo do livro Şoreşa Rojavayê: Revolução, uma palavra feminina, publicado em 2016. O livro, imprescindível para entender o que se passa hoje em Rojava, é resultado do trabalho do próprio Comitê e da Biblioteca Terra Livre. A publicação desse artigo pelo Entranhas.org foi pensada como parte das atividades que compõem o evento Revolução Curda: Autonomia popular e feminismo revolucionário no Oriente Médio, que será realizado no dia 30/03, em Florianópolis. Agradecemos imensamente o Comitê pelo texto e aconselhamos a sua leitura para todos que irão acompanhar o evento. As xilogravuras que ilustram o texto e o livro são da Revista Comando.

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“Estou surpresa pelo fato de nos terem visto tão tarde, de até agora nunca terem sabido de nós. Pergunto-me como demoraram tanto a escutar as vozes das muitas mulheres corajosas que atravessaram as fronteiras da valentia, da fé, da paciência, da esperança e da beleza. Não quero queixar-me demais. Talvez nossas eras simplesmente não coincidam. Tenho apenas algumas poucas palavras para dizer aos que só agora começam a nos notar: isso é tudo. Hoje, uma parte de nós não está mais aqui. Sem passado nem futuro em seu entorno, você sentiria um som, um emergir que se perde nos buracos negros do universo. A emoção e a beleza de hoje só pode ser medida por aqueles que foram capazes de trazer este dia e suas capacidade de ir mais adiante para o futuro.

No grito de Zilan (Zeynep Kinaci), que dinamitou a si mesma em 1996, no alento de Besê, que se atirou ao precipício no levante de Dersim, na década de 1930, dizendo “Não me prenderão com vida”, e no de Beritan, que não se entregou, nem seu corpo e nem sua alma, ao inimigo quando se atirou da montanha em 1992. É a razão pela qual a combatente do YPJ [Unidades de Proteção Popular, milícia voluntária do Curdistão] Arin Mirkan fez soprar um vento de montanha através de uma cidade do deserto ao detonar a si mesma ao invés de render-se ao ISIS, para cobrir suas camaradas em retirada em Kobanê no último mês de outubro.

Nosso calendário não correu paralelo ao calendário do mundo. O olhar destas mulheres se centrou nas profundidades da distância. Seus passos eram rápidos, com o objetivo de tornar o futuro mais próximo, que estavam impacientes e não deixaram uma só ponte para trás. Estas razões nos mantiveram a margem das realidades do mundo. É por isso que agora o mundo sabe das mulheres nas montanhas. Dezenas, depois centenas e, depois, milhares, durante todo esse tempo. Agora é o momento de coordenar os calendários, de sincronizar os relógios. É a hora de contar as histórias de vida destas mulheres que se dividiam entre o sonho e a realidade, seus momentos felizes que soam como contos de fadas, as formas com que a perda demonstrou ser a professora mais notória na busca da verdade. Agora é o momento perfeito para confiar-lhes o que eu era capaz: trazer o ontem para o hoje. Para unir o calendário do mundo, vou unir nosso passado ao presente. Que meu passado seja seu presente.”

O mundo inteiro fala de nós, as mulheres curdas”, carta da guerrilheira curda Zilan Diyar

Há hoje na internet uma profusão absurda de imagens de mulheres curdas em combate contra os Estados Turco e Islâmico da Síria e do Iraque: um sem-fim de fotografias de garotas fardadas com lindos lenços e tranças, empunhando cheias de graça kalashnikovs contra extremistas do Estado Islâmico. O que essas imagens não revelam (senão ocultam) é que na revolução de Rojava as mulheres não ocupam apenas a linha de frente: elas se encontram nos fundamentos e em toda estrutura da luta por uma sociedade mais justa e democrática.

Essa força feminina que pulsa no coração da resistência curda segue os mesmos princípios libertários das lutas de povos originários contra a repressão do Estado, ou da classe explorada que se insurge contra o sistema que a escraviza: trata-se de um contra-ataque legítimo a estruturas históricas de dominação e controle. Os campos desta batalha, porém, não se reduzem às cenas de guerra (como quer fazer parecer o espetáculo): seus cenários mais profundos são ordinários, encontram-se nos terrenos da vida cotidiana. O verdadeiro processo revolucionário de Rojava acontece no interior dos espaços comuns da vida social: nas cooperativas de trabalho, nas assembleias de bairro, na própria sala de casa, espaços onde as mulheres têm conquistado direitos e ampla participação política.

Antes de seguirmos adiante no texto, uma breve declaração de intenções: este capítulo do livro – escrito pelas mulheres do comitê de São Paulo em intenso intercâmbio de ideias com companheiras de militância na América Latina, na Europa e no Curdistão – tem a importância de tratar do papel da mulher como o nexo fundamental entre os princípios teóricos da revolução de Rojava e a própria prática da resistência popular curda. Buscamos trazer um panorama do modo como o desenvolvimento da Jineologia, uma ciência (ou forma de autoconsciência) que as mulheres curdas têm construído sobre sua própria história, tem organizado a formação do confederalismo democrático no processo revolucionário de Rojava e do Bakur. Nosso esforço, seguindo os princípios da solidariedade internacional, é o de abordar esta realidade invocando a voz das mulheres que vivem esta história em primeira pessoa, pois não somos nós as sujeitas do processo e nem poderíamos avaliar esta experiência de maneira remota. Estamos aqui apenas tecendo o texto, com muito respeito, a partir de intensa pesquisa e tantas conversas – entre nós e com elas.

Ainda assim (e considerando sempre as diferenças de contexto), precisamos confessar que ao conhecer melhor os laços que enredam as organizações das mulheres no Curdistão, fomos arrebatadas por um sentimento de identificação muito potente. Entendemos que há mesmo algo de universal nas lutas de libertação das mulheres em todo o mundo: a necessidade radical de autodefesa e a pulsão viva do contra-ataque às violências que vivemos. Isso porque a construção do gênero feminino, nas mais diversas maneiras como se deu no mundo todo, carrega a marca comum da opressão, e a identidade das mulheres de modo geral também se cria por esta condição negativa. Assim, ao ouvirmos os relatos de resistência de cada uma, somos capazes de nos ver uma nas outras. Disso nasce uma relação de profundo reconhecimento entre a gente, e realidades tão distantes se aproximam. Então a luta de libertação das mulheres curdas é a luta de libertação das mulheres em todo o mundo. Pela força com que temos cultivado nossa sobrevivência até aqui, aprendemos que somos capazes de derrubar todas as fronteiras que nos aprisionam: nossa condição subsumida na sociedade se transforma em sororidade, e essa passa a ser nossa maior arma de combate contra o sistema patriarcal que nos escraviza. É por isso que em Rojava, “Berxwedan Jîyan e” (“Resistência é vida”) e “Jin Jîyan Azadî” (“Mulher, Vida e Liberdade”) são palavras revolucionárias.

“O que importa para nós é que o combate da mulher se propague pelo mundo. Enquanto as mulheres se organizarem e se solidarizarem, o movimento das mulheres crescerá. A libertação das mulheres, a organização das mulheres irá libertar toda a Humanidade. A alma de cada mulher que perdeu sua vida ao longo deste combate encontrará vida em nossos corpos. A resistência de Kobanê é a resistência feminina. É por isso que significa uma ameaça ao Estado-Nação. Porque ela destruirá ao mesmo tempo o Estado-Nação e a mentalidade de dominação masculina. O que importa é fazer crescer este combate. Seja nas quatro partes do Curdistão, na Europa, na Índia… toda força às mulheres que resistem no mundo inteiro!

Biji YPJ !
Jin, Jiyan, Azadi !
Assinado, Neslihan”

A história do movimento das mulheres curdas não nasceu da guerra da Síria, tampouco se reduz às lutas em Rojava, momento este em que se torna mundialmente conhecida devido à repercussão midiática da defesa de Kobanê. Tal repercussão, aliás, serviu muito bem aos fins fetichistas de espetacularização midiática da luta curda, neutralizando nos meios mainstream o conteúdo radicalmente revolucionário da resistência em Kobanê. “Muito mais preocupadas em sensacionalizar o modo como essas mulheres correspondem às noções preconcebidas das mulheres orientais enquanto vítimas oprimidas, as caricaturas do mainstream apresentam as combatentes curdas como um fenômeno novo. Assim, ao projetar sobre elas suas fantasias orientalistas mais bizarras, estas imagens reduzem toda uma luta legítima a algo banal – e supersimplificam os motivos pelos quais as mulheres curdas se juntam à luta. Nos dias de hoje parece bastante apelativo retratar estas mulheres como simpáticas inimigas do ISIS sem levantar questões sobre sua ideologia e aspirações políticas.”[1]

É importante que a imensa participação feminina na resistência de Kobanê não seja entendida como um fenômeno insólito de uma guerra específica no norte da Síria, mas sim como parte de uma ampla luta de autodefesa das mulheres contra as violências do patriarcado. “Kobanê representa para mim uma grande resistência: a resistência das mulheres contra o sistema patriarcal. Daesh representa a dominação masculina. A resistência das mulheres, representa a resistência do povo”[2]. Se elas estão hoje nos frontes da guerra contra o Estado Islâmico na Síria e no Iraque, bem como contra as forças de repressão do Estado turco ou dos regimes de Ba’ath, esta luta não é apenas contra inimigos externos ao povo curdo, mas de uma guerra pela destruição do sistema patriarcal que domina a ordem mundial capitalista como um todo, e que, particularmente no assim chamado Oriente Médio, faz da submissão da mulher ao homem uma condição estrutural para a formação da sociedade. Ou, como disse Nesrîn Abdullah, comandante e porta-voz das YPJ: “Não me importa saber que eu matei um soldado do Daesh: o que me importa é matar sua ideologia” [3]

Ou seja: quando vão pra linha de frente, estas mulheres se vêem em guerra contra todas as formas de opressão e violência que sofrem na vida – vindas do poder hegemônico do Estado-Nação, que impõe suas instituições e fronteiras de cima abaixo, esmagando a multiplicidade de culturas, modos de vida, línguas e grupos étnicos; do totalitarismo capitalista, que submete ao deus dinheiro a todas e todos sem piedade, para produzir um resíduo de lucro para poucos e miséria generalizada em larga escala; e da dominação do patriarcado, que submete a mulher a uma posição inferior na sociedade, reificada como propriedade privada do homem. Esse domínio masculino sobre a política, a economia e as relações sociais que rege o mundo moderno é resultado de uma construção histórica de pelo menos 5 mil anos: de um processo civilizatório violento que faz pesar sobre as mulheres uma sobreacumulação de formas de servidão. “O capitalismo e o Estado-Nação representam o macho dominante em sua forma mais institucionalizada. A sociedade capitalista é a continuação e a culminação de todas as antigas sociedades exploratórias. É a guerra constante contra a sociedade e a mulher. Em resumo, o capitalismo e o estado-nação são monopólio do macho explorador e tirânico” [4].

Diante da guerra, essas mulheres estão encarando de frente a face militar de dois programas de Estado que hoje encarnam, em corpo humano e maquinaria bélica, exemplos máximos desse macho explorador e tirânico. O que o Estado Islâmico pretende ao se territorializar no Oriente Médio não é outra coisa, afinal, senão tentar institucionalizar, de modo bastante específico e particular, o avanço das formas masculinas de dominação: “O poder da modernidade capitalista, através do Daesh, seu pião no Oriente Médio, está tentando destruir as esperanças, atacar as culturas locais, violar os direitos comunitários e fazer das mulheres seus troféus de guerra”[5].

Também a guerra que o Estado turco, sob comando do AKP, empreende sobre o Bakur não é diferente de uma arrancada violenta de um programa de modernização conservadora, movido com base numa força nacionalista sobre as massas. Não precisa, porém, ser um inimigo absurdamente bárbaro como o ISIS, ou insanamente autoritário como o governo de Erdogan, para se tornar inimigo das mulheres curdas: de novo, a figura do macho dominante sintetiza todo o Poder – a Pátria, o Patrão e o Patriarcado – que estrutura o mundo moderno. Por isso a luta das mulheres curdas é também uma luta diária contra o macho dominante interiorizado em toda ordem da vida social: contra a violência doméstica, a participação política subalterna, a dependência econômica, o controle do corpo feminino, a produção de conhecimento eminentemente masculina – para não falar das manifestações machistas mais atrozes da cultura local, como os crimes de honra, os casamentos forçados na infância, a poligamia masculina, etc. O que está no horizonte das mulheres curdas em luta, portanto, estejam elas no fronte da guerra ou no interior das comunas, é a emancipação total das mulheres, no Curdistão e no mundo, em relação a todos os domínios da servidão moderna.

“Ao lutar contra a mentalidade patriarcal por nossa emancipação e liberdade, nos confrontamos com uma autoridade, uma hegemonia e uma hierarquia de relações. O sistema patriarcal está realmente institucionalizado, e sua mais importante instituição é, evidentemente, o capitalismo e o sistema estatal no qual vivemos (…) Nós mulheres nos demos conta de que se cortássemos uma única forma específica de relação de dominação, não teríamos conseguido alcançar nosso objetivo. Se não lutarmos contra estas diferentes formas, não poderemos superar o patriarcado. Apenas ao colocar em questão todas as formas hegemônicas – o Estado, o capitalismo, o colonialismo, e também os regimes islamistas autoritários – que poderemos conseguir” (Gültan Kışanak)[6].

Neste ponto já está suficientemente claro que, se em Rojava são as mulheres que estão à frente do processo revolucionário, não se deve apenas à maestria feminina nas táticas de guerra (as curdas estão em guerrilhas nas montanhas há pelo menos quatro décadas, e têm uma escola forte de combate[7]), mas sobretudo por uma razão estratégica que mira o estabelecimento do confederalismo democrático: são só elas que podem conduzir a construção de uma sociedade que vá realmente contra a masculinidade hegemônica. Não é à toa que “Erkeği öldürmek” (“matar o macho”) seja um dos lemas da revolução. Se este processo, por sua vez, parece muito bem resolvido na concepção teórica do movimento curdo (a libertação da mulher é hoje a principal bandeira ideológica do PKK, tal como formulada pelo pensamento de Öcalan), na prática é algo muito duro e complexo, pois passa por destruir uma forma de consciência que está arraigada nas práticas de sociabilidade.

“O sistema patriarcal encarna no homem, e é levado por ele. É por isso que se precisa resolver o problema pela raiz. As mulheres curdas têm como preocupação e como projeto a transformação do homem. Em outras palavras, elas começaram um trabalho que visa afastar o homem de seu pensamento atual, que é dominador e patriarcal. Este trabalho se dá para que o homem adote uma perspectiva feminina e mate sua masculinidade. Deixar os homens por eles mesmos não basta para que mudem, é preciso que as mulheres intervenham”[8].

“O homem converteu-se em um Estado e, depois, na cultura dominante. As opressões de classe e sexuais desenvolveram-se juntas. A masculinidade gerou um gênero governante, uma classe governante e um Estado governante. Quando se analisa ao homem neste contexto, fica claro que se deve aniquilar a masculinidade. Assim, deve-se matar ao macho dominante como principio fundamental do socialismo. Isto significa que devemos matar o poder: matar a dominação unilateral, a desigualdade e a intolerância. Ademais, matar o fascismo, a ditadura e o despotismo. Deveríamos ampliar este conceito para incluir todos estes aspectos. É impossível liberar a vida sem uma revolução radical da mulher que seja capaz de mudar a mentalidade do homem e a sua vida”[9]

Dada a dimensão universal da dominação patriarcal, que em cada lugar do mundo assume suas particularidades, a luta das mulheres curdas é uma luta internacional e pela emancipação de toda a humanidade. Ao combater a nível local a violência do patriarcado, combate-se ali toda uma lógica perversa que organiza a sociedade moderna de modo geral. Ao entender que em cada realidade particular as opressões assumem características específicas, o movimento das mulheres curdas defende que é preciso respeitar a autodeterminação da luta das mulheres em cada lugar do mundo, se solidarizando internacionalmente e cultivando a solidariedade como arma de fortalecimento. Nesse sentido, porém, se faz necessário apontar um discernimento crítico a respeito do movimento das mulheres curdas em relação àquilo comumente entendido como feminismo no ocidente. Ainda que o movimento das mulheres curdas tenha sido muito enriquecido por escritos e pelas lutas feministas da Europa, o movimento feminista, majoritário e institucionalizado, vem da centralidade do capitalismo, e coloca problemas como o liberalismo e o Estado nacional. Na luta das mulheres em Rojava, estes diferentes aspectos da dominação patriarcal não vem cindidos:

“O sistema de Rojava é um sistema de democracia horizontal, no qual a mulher é a líder, cuja base é o povo. Aqui, o argumento principal é o fato de que este sistema rejeita completamente o Estado-Nação. O Estado-Nação tem desde o início atacado as mulheres, por exemplo, pela proibição da nossa língua, a negação da nossa cultura, as violências a que nos submeteram, essas todas são causas de uma luta étnica e nacional. (…) Mas quando movimentos feministas conduzem um combate pela democracia, às vezes não se dão conta que o Estado-Nação seria um túmulo para os povos e para as mulheres. Por causa da semi-democratização do Estado, as mulheres engoliram o bombom envenenado do liberalismo. E infelizmente, a violência contra a mulher, a opressão sexual, a negação da identidade feminina e os obstáculos ao direito à expressão das mulheres não desapareceram no seio desta sociedade.”[10].

A noção de que “um povo não pode ser livre se as mulheres não forem livres” tem sido recorrentemente reelaborada nos escritos de prisão de Abdullah Öcalan, que mesmo antes de ser preso em 1999 já tematizava discussões de gênero em seus discursos, como aparece nos três volumes de “Nasıl yaşamalı?” (“Como viver?”) e em um livro de entrevistas que se chama justamente “Erkeği öldürmek” (“Matando o macho dominante”). Em “Libertando a vida – Revolução das mulheres”[11], um compilado de escritos de Öcalan, aparecem diversas formulações teóricas sobre o modo como a dominação sobre as mulheres é a mais fundamental forma de dominação que determina a desigualdade, servidão, despotismo, fascismo e militarismo. Assim, para elaborar um significado para os termos igualdade (respeitando a diversidade), liberdade, democracia e socialismo dentro do programa revolucionário do PKK, Öcalan vai estudar a formação da trama de relações que tece o lugar social da mulher desde a Antiguidade até o século XXI, que ele defende como a Era da Revolução das Mulheres:

“O século XXI deve ser a era do despertar, da libertação e emancipação das mulheres. Isso é mais importante do que as lutas de classe ou de libertação nacional. As mulheres em geral, e mais especificamente as do Oriente Médio, são a força mais enérgica e ativa para o estabelecimento de uma sociedade democrática, pois sua posição – em oposição ao Estado-Nação, ao sistema de classes e à dominação masculina – é a antítese necessária para a superação desta sociedade. (…) Ao se libertarem elas irão não apenas vingar a história, mas formar a nova síntese revolucionária. (…) O que precisamos é da teoria, do programa, da organização e dos mecanismos necessários para a implementação desta libertação.”

As forças das mulheres curdas

A essas necessidades que Öcalan chama atenção – de uma teoria, um programa e uma organização para a luta de libertação das mulheres – pode-se identificar as diferentes forças que mobilizam as mulheres curdas. Trataremos de cada uma delas com maior acuidade daqui em diante, mas não sem antes apresentar um esquema geral. Primeiro há uma força de base, que é histórica: o movimento de mulheres curdas tem no mínimo quatro décadas de engajamento na luta popular do Curdistão, na construção cotidiana da igualdade de gênero e participação ativa das mulheres na política e nas guerrilhas. Outra força é organizativa: partindo do princípio de auto-proteção, as mulheres de Rojava e do Bakur organizam-se com autonomia em diversos espaços sociais, culturais, políticos e econômicos próprios; existem esferas de decisão exclusivamente femininas para cada aspecto da vida em comunidade, e participam com paridade em todos os níveis do confederalismo democrático – estruturado de tal modo para garantir que elas conduzam a construção da sociedade. Por fim, há ainda outra força, muito potente, que podemos chamar de ideológica: trata-se do estabelecimento da Jinealogia (Jineoljî). Jin em kurmanjî quer dizer mulher, e Jinealogia seria então ciência da mulher, uma ciência contra-positivista, na medida em que nega a história humana escrita pelo macho dominante (as instituições do saber, como todas as formas modernas de poder, são masculinas), e propõe a produção do conhecimento pela perspectiva da mulher, afim de destruir toda forma de pensamento patriarcal.

“Nossa determinação vem do fogo da revolução das mulheres.
Esta realidade não nasceu da noite pro dia: é fruto de uma história de luta ”[12]

A mobilização massiva de mulheres na defesa de Kobanê , assim como em toda revolução de Rojava, é herdeira de quase quatro décadas de resistência de mulheres curdas enquanto cidadãs, ativistas políticas, combatentes, prisioneiras, dirigentes de levantes populares e manifestantes incansáveis de seus direitos. A construção da história de luta das mulheres curdas remonta a figuras de séculos passados, como às “Kara Fatmas”, que ao contrário do que se pensa não foi uma, mas foram três combatentes líderes militares em períodos diferentes; e a outras mulheres combativas que antecederam às organizações políticas exclusivamente femininas, como é o caso de Leyla Qasim, jovem curda militante do movimento estudantil curdo de Bagdá (Yekiti Qotabi yen Kurdistane) na luta pela independência do Curdistão sob o regime de Ba’ath iraquiano. Em 1974 Leyla foi presa sob acusação de um suposto plano de sequestro de avião, torturada, e condenada à morte em um julgamento claramente farsesco – seu enforcamento foi transmitido ao vivo pela televisão para todo o país, como clara mensagem do Estado para que mulheres não se organizassem politicamente, além de campanha oficial contra o crescimento de movimentos populares curdos. No dia de sua execução, em 13 de maio de 1974 disse: “matem-me, mas também devem saber que depois de minha morte milhares de curdos despertarão. Me sinto orgulhosa por sacrificar minha vida pela liberdade do Curdistão”. No dia seguinte a sua morte houveram grandes revoltas em Bagdá e em várias partes do Curdistão.

Há ainda quem diga, com base em certas leituras antropológicas (como é o caso de alguns relatos de viagens do século XIX ou início do XX) que nas sociedades curdas as mulheres sempre mantiveram uma posição de relativa independência em relação aos homens, considerando a condição geral da exploração de mulheres no Oriente Médio. É certo que estas leituras estão carregadas pela perspectiva masculina, imperialista, branca e modernizadora das ciências humanas, e julga a condição da mulher curda a partir de análises externas e preconceitos orientalistas, mas ainda assim é possível levar em consideração este quadro quando são elas próprias quem reconhecem esta condição:

“É evidente que se esse discurso [de libertação das mulheres] não correspondesse à realidade sociológica, teria permanecido como belas palavras. As mulheres curdas já eram muito inclinadas a este discurso e a este chamado. Apenas se entreabriu uma porta às mulheres curdas, mas foram elas que a abriram e saíram chutando”[13].

É possível marcar uma passagem histórica no Curdistão em direção a um programa revolucionário estruturado pela luta de libertação da mulher (ou o momento em que “as mulheres chutaram a porta”, como diria Selma Irmak), mas esta não se localiza na fundação do PKK em 1978, como muito se leva a crer. É preciso considerar que dos 22 membros fundadores do partido, apenas duas eram mulheres – Sakine Cansız (figura reverenciada no Curdistão, assim como Abdullah Öcalan: engajada na luta curda desde a adolescência e co fundadora do PKK, quando tinha apenas 20 anos. Presa em 1982 sob pena de 12 anos. Foi brutalmente assassinada no Centro de Informação do Curdistão em Paris em 9 de janeiro de 2013 junto a outras duas companheiras curdas: Rojbin Fidan Doğan e Leyla Söylemez, as investigações para saber a causa das mortes ainda não foram concluídas) , porém não havia nada em seu programa inaugural que prescrevesse o lugar da participação política feminina ou pautasse questões específicas de mulheres (ainda que reivindicasse “igualdade entre homens e mulheres”, o que não passava de um lugar comum para uma carta de princípios de um partido socialista). A presença de mulheres só ganhou mesmo alguma relevância nas campanhas do partido a partir de 1984, quando o PKK tornou-se de fato um grupo paramilitar declarando guerra ao Estado turco e muitas mulheres ingressaram aos quadros da guerrilha.

A primeira organização de mulheres curdas foi fundada em 1987, com o apoio do PKK, por mulheres exiladas em Hanover na Alemanha, em um contexto de enorme perseguição aos movimentos sociais curdos na Turquia. Assim como os braços femininos de diversos outros partidos marxistas-leninistas à época, a YJWK (Yêkitîya Jinên Welatparêzên Kurdistanê – União de Mulheres Patrióticas do Curdistão) era uma estratégia de mobilização de mulheres para o partido: criava um espaço específico para suas pautas, introduzindo o pensamento feminista europeu. Como em qualquer outra discussão dentro do PKK, quem serviu de guia ideológico para a formulação do programa de mulheres dentro do partido foi Öcalan. Na década de 1980, as análises de Apo criticavam cada vez mais as estruturas familiares tradicionais, o papel secundário das mulheres dentro da família e os papéis de gênero que associavam as mulheres ao namus (ou honra, virtude, conceito da cultura islâmica para os valores morais de cada gênero, que recai sobre as mulheres pelos códigos de controle de seus corpos) e designava aos homens o dever de protegê-las. É da passagem deste tipo de discurso, que instrumentaliza a participação das mulheres na revolução, para outro tipo de discurso, que coloca as mulheres como protagonistas de sua própria libertação, onde se encontra o salto qualitativo do movimento de mulheres que redefinirá todo o paradigma ideológico da revolução no Curdistão.

Não foi exatamente no campo civil que as mulheres abriram caminho e avançaram em direção às conquistas radicais na luta popular curda. Pode-se dizer que esta campanha se deu mesmo no terreno militar e daí se estendeu para outros espaços. A partir dos anos 1990, as guerrilhas curdas se intensificaram e houve um aumento substancial da presença feminina. Em 1992, por exemplo, as mulheres ocuparam lugar importante nos frontes da “Guerra do Sul”, conflito em que forças armadas da Turquia, apoiadas por peshmergas[14], atacaram as guerrilhas do PKK nas montanhas do Curdistão iraquiano. A impressionante resistência das mulheres nesta ocasião as tornou mais respeitadas entre os militares, e mudou a ideia da maioria daqueles que achavam que mulheres não deveriam ter lugar no exército[15]. Os primeiros anos desta década também foram marcados por grandes levantes das populações curdas nas cidades (serhildan, ou “intifada curda”), e a defesa popular foi feita pelas unidades guerrilheiras que até então só estavam baseadas nas montanhas. Neste contexto foram especialmente as mulheres que enfrentaram as forças de segurança turcas nas ruas, e ganharam o reconhecimento da população curda em geral pelos confrontos durante as celebrações de Newroz de 1990, 1991 e 1992. Mesmo tendo sido reprimidos, estes protestos foram importantes para popularizar a luta armada em meio às massas, sobretudo entre as mulheres, e o PKK pareceu instrumentalizar as revoltas como estratégia de mobilização do partido:

“Quando as mulheres, que são metade da sociedade, tomam as ruas, é impossível controlá-las […]. Quanto a isso, e especialmente em relação ao aumento do movimento urbano, precisamos agir no próximo nível. […] Obviamente, todas as mulheres estão furiosas. Todas estão famintas e empobrecidas. É possível torná-las rebeldes usando todos os tipos de métodos.”[16]

Que a campanha para o engajamento de mulheres sob condições de vida revoltantes tenha tido êxito na luta armada curda, isso fica claro no livro ‘Palavras de mulheres curdas revoltadas’ (2005), em que Evin Çiçek, que viveu nas guerrilhas por dez anos entre 1984 e 1994, relata a realidade das meninas que decidiram ir à guerra: muitas tinham histórias de vida difíceis, crescido em famílias conservadoras e tirânicas em meio a uma sociedade que não as autorizava a nada, não tinham ido à escola e haviam se casado à força. Para elas, a guerrilha oferecia proteção, educação e um ideal social comum pelo qual lutar, apesar dos perigos do fronte. Estas determinações cruéis que pesavam sobre as mulheres pareciam ser tão comuns no Curdistão que os quadros femininos aumentaram a ponto de corresponder a um terço das milícias na época, num processo que ficou conhecido entre xs curdxs como “ordulaşma” (ou: “militarização das mulheres”)[17]. É em decorrência deste cenário que em 1993 foram criadas as primeiras unidades femininas independentes de guerrilha, com o intuito de livrar estas mulheres das práticas machistas de seus companheiros homens, além de propor romper com o valor tradicional de obediência atribuído ao gênero feminino para que elas mesmas assumissem o papel de serem suas próprias dirigentes.

Eis aí, enfim, o turning point: em que a participação das mulheres na luta ganha real importância política no movimento de defesa e libertação do Curdistão. Este é o momento em que a plataforma ideológica do partido passa a entender a participação igualitária das mulheres e seu direito à autodeterminação como princípios de um programa revolucionário. Nessa época, entre 1993 e 1996, ocorreram diversas conferências do partido sobre o tema, e desses intensos debates nasceram conceitos fundamentais para a condução do movimento revolucionário, tais como “contrato social das mulheres” e “luta de libertação das mulheres”. Este impacto do poder feminino sobre a resistência curda não ficou, porém, limitado ao discurso do programa político, deu corpo a uma nova estrutura organizativa social, em que as mulheres passaram a formar unidades políticas independentes.

Em 1995 ocorreu então o 1º Congresso de Libertação das Mulheres do Curdistão, assim como a fundação da União das Mulheres Livres do Curdistão, a YAJK (Yekîtiya Azadiya Jinên Kurdistanê), que naquele mesmo ano participou da IV Conferência Mundial das Mulheres, organizada pelas Nações Unidas em Pequim, posicionando o movimento regional das mulheres curdas na construção de uma agenda política internacional para o empoderamento[18] feminino em todo o mundo. No dia 8 de março de 1999, dia internacional da mulher, a YAJK funda o Partido das Mulheres Trabalhadoras do Curdistão, PJKK, tomando as estruturas partidárias em mãos para que elas próprias passassem a dar forma aos conteúdos políticos do modelo de sociedade que se pretendia estabelecer no Curdistão. No ano seguinte, em seu terceiro Congresso, seguindo mais uma vez os princípios internacionalistas da luta curda, o PJKK muda de nome para Partido de Libertação das Mulheres (PJA), abrindo-se para maior participação de mulheres de outras nacionalidades; em 2002, o PJA amplia sua articulação internacional e une ao debate de uma Constituição Mundial das Mulheres, onde declara seu Contrato Social das Mulheres; e em 2004 é fundado, finalmente, o Partido de Libertação das Mulheres do Curdistão (PAJK), que corresponde até hoje à maior organização partidária das mulheres curdas. Ainda assim, o movimento de libertação das mulheres vem sendo continuamente reestruturado para responder às necessidades das organizações de mulheres em uma estrutura confederalista democrática. Deste modo foi fundado em 2005 o Conselho Superior das Mulheres (Koma Jinên Bilind, KJB), conselho superior à forma partidária do PAJK, como nível de coordenação maior (guarda-chuva) das diversas organizações independentes de mulheres curdas: as unidades de autodefesa, as assembleias exclusivas, as associações, etc, além do próprio partido, até que em setembro de 2014, tendo o movimento já estabelecida a autonomia de Rojava, o KJB converte-se em KJK (Komalên Jinên Kurdistan).

A auto-organização das mulheres

As palavras “Komalên” e “Koma” vêm do termo “Kom”, que em kurmanjî quer dizer grupo, ou comuna, união. O KJK indica que essa escolha semântica remonta à organização comunal da era Neolítica, momento em que a vida social na Mesopotâmia estava organizada em torno da figura feminina. Isso significa dizer que o paradigma da auto-organização das mulheres curdas se baseia no mito fundador neolítico tanto no que diz respeito ao papel central do gênero feminino em determinada formação social, quanto nos princípios organizativos de comunas. Esta razão ontológica é a chave para entender a forma de consciência dessas mulheres em luta e o modo como se vêem posicionadas em todas as frentes da revolução curda: para elas, o (re)estabelecimento de um sistema social comunal no Curdistão deve necessariamente corresponder ao empoderamento político das mulheres como negação aos modelos institucionais modernos, patriarcais por excelência. Em outras palavras, isso significa que a própria ideia de confederalismo democrático está estruturada sobre a existência necessária de esferas políticas exclusivas para mulheres.

Para além dos conceitos, os efeitos da auto-organização das mulheres curdas têm tido impacto gigantesco nos terrenos da vida cotidiana, campo onde a revolução deve realmente fazer sentido.
Gültan Kışanak – primeira mulher curda na co-presidência de Diyabakir, cidade de maioria curda no Sudoeste da Turquia –  explica que a força do movimento das mulheres no Curdistão vem de sua luta história no seio do movimento curdo:

“[As mulheres] sempre estiveram engajadas na luta em todos os níveis, nas serhildan (insurreições curdas), estavam nas organizações, eram ativistas. Depois de verem isso, os homens tiveram que aceitar. Porque eles viram os esforços das mulheres e tudo que elas conseguiram. Agora estamos em uma fase em que dizemos aos nossos amigos que se alguma decisão for tomada sem considerar a palavra das mulheres, ou sem sua participação, se nós mulheres não formos consultadas, então esta decisão não poderá ser aplicada. É uma medida radical para nós, mas é isso o que dizemos, e agora é aceito pela quase-totalidade de nossas organizações”.
G. Kışanak insiste sobre o poder que lhes deu a existência de uma esfera exclusiva feminina em cada nível da vida social:

“Há uma outra coisa que nos deu poder: nós dissemos que deveríamos estabelecer organizações exclusivamente de mulheres em toda parte, à cada nível de organização social. Temos assembléias de mulheres nos bairros, assembléia de mulheres no seio do partido, assembléia de mulheres nas municipalidades. Por toda parte encorajamos as mulheres à ruptura. Quer dizer, nos encorajamos por uma organização própria e autônoma. Devemos estar presentes em toda parte, mas ao mesmo tempo precisamos ter nossas próprias organizações. Nos sindicatos, nas ONGs, nas instituições de direitos humanos, em todo lugar do mundo, nós deveríamos nos organizar em grupos exclusivos. Porque nos sindicatos ou mesmo nas ONGs, as mulheres estão sempre em segundo plano. Então dissemos: mesmo se vocês forem duas, reúnam-se e organizem-se para dizer que vocês estão ali. Isso lhes dará muito poder”.

Jinealogia: a ciência da mulher pela superação do domínio patriarcal

Importantes tarefas nos esperam no século 21: o quadro filosófico-teórico e científico da libertação das mulheres, (…) diálogos complementares mútuos dentro dos movimentos feministas, ecológicos e democráticos, a renovação da descrição de todas as instituições sociais (como a família, por exemplo) de acordo com os princípios da libertação, as estruturas básicas da livre união, a construção de um entendimento alternativo da ciência social com base na libertação das mulheres. O campo de uma nova ciência social para todos aqueles círculos que não fazem parte do poder e do Estado devem ser construídas. Esta é a tarefa de todos os anti-colonianistas, anti-capitalistas, movimentos anti-poder, individuais, mulheres. Referimo-nos a estas ciências sociais alternativas como a sociologia da liberdade.” Segundo o discurso sobre Jinealogia – na Conferência de março de 2014 em Colônia, Alemanha – da jornalista e representante do Movimento das Mulheres Curdas, Gönül Kaya, que tem colocado esse trabalho em discussão desde 2011.

As ciências sociais, assim como outros campos da sociologia, estão impregnadas de conteúdos que seguem a reboque do sistema patriarcal na formulação do pensamento contemporâneo. Os resultados de suas interpretações vão da normatização de conceitos ao aprofundamento do sexismo e do nacionalismo nos dispositivos de controle social. Uma alternativa de superação é a construção da Jinealogia na área científica.

O significado de jinealogia é “ciência da mulher”. “Jin” é curdo e significa “mulher”. Logy deriva da palavra grega logos relacionada ao conhecimento. “Jin” deriva da palavra curda “Jiyan” que significa “vida”. No grupo linguístico indo-europeu e no Oriente Médio das palavras Jin, Zin ou Zen, todas as quais significam mulher, são frequentemente sinônimos de vida e vitalidade.

A palavra Jinealogî foi usada pela primeira vez, de forma concreta, por Abdullah Öcalan em 2003, quando lança um de seus escritos denominado “Sociologia da Liberdade” (terceiro volume das cinco Defesas de Öcalan), onde expressava sua ideia de que as mulheres por não se configurarem como portadoras (ou agentes) do poder e do Estado precisam desenvolver suas próprias ciências que poderiam chamar-se Sociologia da Liberdade.

A jinealogia é feita a partir de valores e experiências de mulheres em luta no Curdistão e pensada como uma ferramenta para reencontrar a “identidade natural” das mulheres “que vivem em terra livre”: quer dizer, uma identidade autônoma dos homens e do Estado.

O reforço é focado no conhecimento das próprias mulheres, então são reagrupados e difundidos materiais sobre a história do feminismo, a história das mulheres e sobre o sexismo em si. Nesta mesma lógica, elas fundaram uma agência de imprensa feminina chamada JINHA  (Jin Haber Ajansi – Agência de notícias da mulher) em 2012, uma vez que a imprensa continua reforçando a dominação masculina na consciência pública. É possível fazer assinatura para receber as notícias via internet em curdo, inglês ou turco.

A luta das mulheres curdas tem o forte componente da busca por meios que garantam a não instrumentalização e submissão contínua ao velho lugar social assim ocupado há tantos séculos. Os Estados nos quais vivem o povo curdo excluem totalmente a mulher da vida política, econômica e de organização social. Para quebrar essa dinâmica a luta contra a dominação distórica das mulheres precisa ser vencida no campo ideológico, como diz Öclan:

“Em primeiro lugar. é preciso saber como vencer no campo ideológico e como gerar uma mentalidade libertária e natural contra a mentalidade dominante e ávida do poder do homem. Não devemos esquecer que a submissão feminina tradicional não é física mas, sim, social. Deve-se a uma escravidão arraigada; Por conseguinte, a necessidade mais urgente é a de superar os pensamentos e as emoções da submissão no campo ideológico.”

Formação militar da mulher curda
“O sexismo é um instrumento de poder e uma arma ao mesmo tempo, utilizado no curso da história de maneira permanente em todos os sistemas da civilização. De fato, nenhum outro grupo social foi tão explorado física e sociologicamente como a mulher. A variedade com que a mulher é explorada é evidente. A mulher gera descendência. Serve como força de trabalho gratuita. É objeto permanente de avidez sexual. É utilizada para fins publicitários. Constrói a base sobre a qual o homem produz e reproduz seu poder como instrumento de violência contínua. É por isso que os cinco mil anos de história da civilização podem ser descritos como cultura da violação.” Abdullah Öcalan em “La Revolución es feminina” – coluna em Gara y “il manifesto”

Em Bakur, no ano de 1993 é criado o primeiro exército de mulheres cujo nome era YPJ Star (o nome permanece somente até 2005), com organização autônoma por parte de suas guerrilheiras que levam essas formações das montanhas de Zagros para organizações civis como sindicatos, partidos políticos, cooperativas, e criam a YJA, União de Mulheres Livres. A YJA ficou conhecida por organizar sindicatos de base, por ter um modelo organizativo horizontal e flexível com assembleias, conselhos e comunas, por aderir à economia solidária e saúde coletiva, pela luta contra o feminicídio no Oriente Médio, pela luta pela cultura, língua e tradições curdas contra os processos de assimilação de identidade.

As Unidades de Defesa das Mulheres (YPJ – Yekineyen Parastina Jine) formadas em 2012 no momento da declaração de autonomia de Rojava em paralelo às unidades de defesa do povo (YPG) -contam com 35% das forças efetivas militares que vão de 7 a 10 mil voluntárias com idade de 18 a 40 anos. As unidades são compostas por mulheres da: YJA Star, Peshmergas de Bashur, milícias do PKK e organizações internacionais com representação individual autorizada para combate nos fronts de guerra. A brigada internacionalista é a menos exposta por questões políticas de proteção individual das combatentes de maneira a preservar o anonimato e a segurança de cada uma nos países onde residem.

A autodefesa, quando se trata do campo de atuação das mulheres, tem uma relação com o fato da guerrilha oferecer proteção, educação e um ideal social comum pelo qual lutar. Nessa entrevista concedida à Ruken Isik, atualmente tralhando em um PhD ppor Meruem Kobani e Roza Haseke, comandantes do YPPJ , elas falam sobre a importância do apoio internacional com a luta empreendida pelas mulheres e suas dificuldades:

” A existência de movimentos de paz me dá força, é muito importante pra nós. Eles lutam para parar a guerra. Porém, eu vejo que seus esforços não são suficientes. Por exemplo, existem guerras por aí, e como eles respondem a isso? Eu penso que seus esforços não são o suficiente. Mulheres que lutaram no Afeganistão, Líbia, Egito não são diferentes das mulheres de Rojava, nossa dor é a mesma, nossa luta pela paz também é a mesma. Por esta razão os esforços de paz devem ser iguais a todas as pessoas. Quando estávamos lutando em Kobanî, milhões de pessoas em todo o mundo saíram às ruas por nós, isso significa que estávamos certos, nós lutando pela paz e essas pessoas protestando por nós, nos apoiaram. Porém os esforços de paz não são suficientes contra essa horrenda guerra.”

E continua:

“Uma parte de mim é uma mulher no Afeganistão, a outra paquistanesa, alemã, persa, árabe, turca. Eu lhe disse que todas as mulheres do mundo estão comigo quando luto contra esses homens brutais. Em resumo, eu nunca senti que eu, Meryem Kobanî lutei sozinha nessa guerra. Não importa o quão distante nós mulheres estamos umas das outras no mundo porque podemos sentir umas às outras. Como indivíduo eu cheguei a conclusão que nós mulheres sofremos nas mãos da opressão masculina, espacialmente em um sistema capitalista que também oprime mulheres, as mulheres que lutaram próximas a mim lutaram por essas mulheres e morreram por elas também.”

Sem o processo revolucionário e a democracia direta em voga nos cantões de Rojava e na luta das mulheres curdas, o protagonismo da mulher não seria possível. O aprendizado com essa experiência é que ela pode nos apresentar soluções mais interessantes a partir dessas mulheres que seguem enfrentando simultaneamente o patriarcado, o fundamentalismo religioso, o imperialismo e o chauvinismo das ideologias nacionais dominantes.

Como diz a frase de companheiros do movimento curdo na Jornada de Solidaritat amb el Poble Kurd, que aconteceu em 13 de fevereiro de 2016 em Can Batló, espaço autogestionado na Espanha: “A melhor solidariedade é lugar pela revolução onde ela se segue”.


Bibliografia:
BEDR-KHAN, Sureya. La femme Kurde et son rôle social. XVIº Congrès International d’Anthropologie. Bruxelles: 1935.

CANSIZ, Sakine. The foundation of the PKK in the words of Sakine Cansiz. Publicado em: The Kurdish Question Info. Disponível em: http://kurdishquestion.com/oldsite/index.php/kurdistan/north-kurdistan/the-foundation-of-the-pkk-in-the-words-of-sakine-cansiz/493-the-foundation-of-the-pkk-in-the-words-of-sakine-cansiz.html

CAMPBELL, Beatrix. Who are they, these revolutionary Rojava women? Publicado em: OpenDemocracy, 12/07/2016. Disponível em: www.opendemocracy.net /5050/beatrix-campbell/who-are-they-these-revolutionary-Rojava-women
Collectif Solidarité Feministe Kobanê. MESSAGES DE FEMMES À LA FRONTIÈRE DU ROJAVA: RESISTENCE ET SOLIDARITÉ. Paris: março 2015. Disponível em: http://solidaritefemmeskobane.org/fr/node/8
Comitê de mulheres “Resistência é Vida”. Mulher, Vida, Liberdade! Tradução: Florencia Guarch. Editora Deriva, 2015.

DIRIK, Dilar. Western fascination with ‘badass’ Kurdish women – The media frenzy over the women fighting ISIL is bizarre, myopic, orientalist and cheapens an import. Publicado em: Opinion, Al Jazeera, 29 de outubro de 2014. Disponível em: http://www.aljazeera.com/indepth/opinion/2014/10/western-fascination-with-badas-2014102112410527736.html

GUPTA, Rahila. Witnessing the Revolution in Rojava. Publicado em: OpenDemocracy, abril a junho 2016. Disponível em: https://opendemocracy.net/5050/revolution-in-rojava

HANSEN, Henny Harald. The Kurdish Women’s Life. In: NATIONALMUSEETS SKRIFTER Etnografisk Rcekke, VII. København: 1961.

International Free Women’s Foundation. Psychological Consequences of Trauma Experiences on the Development of Kurdish Migrant Women in the European Union – Final Results and Background of a Survey in Five European Countries and Turkey. Rotterdam: Utrecht University, 2007.

ÖCALAN, Abdulah. Liberating Life : Woman’s Revolution. International Initiative Edition in cooperation with Mesopotamian Publishers, Neuss, 2013. Disponível em: http://www.freeocalan.org/wp-content/uploads/2014/06/liberating-Lifefinal.pdf

ÇAĞLAYAN, Handan From Kawa the Blacksmith to Ishtar the Goddess: Gender Constructions in Ideological-Political Discourses of the Kurdish Movement in post-1980 Turkey, European Journal of Turkish Studies [Online], 14 | 2012, Online since 18 January 2013, Connection on 28 June 2016. URL : http://ejts.revues.org/4657

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[1] DIRIK, Dilar. Western fascination with ‘badass’ Kurdish women – The media frenzy over the women fighting ISIL is bizarre, myopic, orientalist and cheapens an import. Publicado em: Opinion, Al Jazeera, 29 de outubro de 2014.
[2] MESSAGES DE FEMMES À LA FRONTIÈRE DE ROJAVA
[3] GUPTA, Rahila. Rojava Revolutiton: reshaping masculinity. 9 de maio de 2016. Disponível em: https://www.opendemocracy.net/5050/rahila-gupta/rojava-revolution-reshaping-masculinity
[4] ÖCALAN
[5] Para ler a declaração completa: « Kurdistan Communities of women announced », Rojwomen (Firat News), 3 setembro de 2014.

[6] MESSAGES DE FEMMES À LA FRONTIÈRE DE ROJAVA
[7] Há o fato bizarro de que no combate atual contra jihadistas, elas fazem de seu próprio gênero uma armadilha: como eles temem serem mortos por mulheres, pois acreditam que desonrados não ganhariam o céu, se são elas que avançam sobre o terreno eles, com medo, batem em retirada
[8] MESSAGES DE FEMMES À LA FRONTIÈRE DE ROJAVA
[9] ÖCALLAN, Abdulah. Liberating Life.
[10] MESSAGES DE FEMMES À LA FRONTIÈRE DE ROJAVA
[11] ÖCALAN, Abdullah. Liberating life: women’s revolution. International Initiative “Freedom for Öcalan – Peace for Kurdistan” Edition, 2013.
[12] DÖKH, Academia das Mulheres de Amed. MESSAGES DE FEMMES À LA FRONTIÈRE DU ROJAVA: RESISTENCE ET SOLIDARITÉ. Panfleto publicado pelo Collectif Solidarité Feministe Kobanê, Paris, março 2015.
[13] MENSAGEM DE MULHERES
[14] Grupos armados comandados por Barzani e Talabani
[15]Uma combatente conhecida como Bêrîtan tornou-se especialmente influente nesta ocasião, quando preferiu cometer suicídio atirando-se de um precipício ao invés de entregar-se aos inimigos do exército turco. Anos depois, em 1996, uma militante curda chamada Zilan explodiu-se em meio a soldados turcos que participavam de uma cerimônia militar em uma praça em Dersim (Bakur). Esta, aliás, acabou se tornando uma tática de guerra das YPJ, que sempre carregam consigo uma granada para explodirem-se caso sejam pegas pelo Daesh. Além de ser um último golpe possível contra o oponente, esta seria também uma maneira honrada de morrer em combate. Arin Mirkan é uma das mártires do YPJ que se dinamitou em 2014 quando ficou sem munição e cercada pelos mercenários extremistas enquanto suas companheiras precisaram recuar no front.

[16] Öcalan, Abdullah (1992a), Kadın ve Aile Sorunu (ed. S. Erdem). Istanbul: Melsa Yayınları. Apud: Çağlayan, Handan (2012)
[17] Çağlayan
[18] Este é o termo usado na Declaração final do congresso

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