O Identitarismo dos homens brancos e héteros

Texto por Karina Yef*, ilustrado por Camila B. Revisão: Leila Saraiva e Camila B.

O critério para a escolha de identitarismo no título deste texto é o mesmo usado hoje na militância: conveniência. Identitarismo hoje é uma palavra utilizada para atacar, desqualificar e que, convenientemente, nada diz. Geralmente vem junto com o combo de acusação de pós-modernidade e multiculturalismo, em que ora os três conceitos são tratados como sinônimos, ora são diferenciados, mas raramente, ao menos na militância, são devidamente definidos. Além de conveniência, utilizam-se também dois critérios tão aleatórios e bossais quanto este: a não existência ou relevância de determinado movimento no século XIX ou a ausência da palavra classe escrita em letras garrafais.

Na ausência de um critério preciso sobre o que é identitarismo, igualam-se grupos e lutas bastante distintos em suas práticas, reduzindo-os unicamente às suas pautas. Esta redução grosseira não costuma ser vista nas análises sobre outros movimentos que não os chamados “identitários”, a saber, notadamente o feminista, o negro e o LGBT. A partir disto, críticas e desqualificações, que seriam pertinentes a um nicho específico dentro destes movimentos – como uma identidade essencializada, ahistórica, liberal, etc -, aparecem como inerente a toda e qualquer luta cujo cerne é a opressão. De Mujeres Libres ao Femen, de liberais às socialistas, de direita à extrema-esquerda, de institucionalistas à autônomos, de reformistas à revolucionários: todos são colocados nessa panaceia chamada identitarismo. Criticar o campo autônomo com exatamente as mesmas críticas feitas ao PT não faz sentido, uma vez que as práticas não são apenas distintas, mas, via de regra, são consideravelmente antagônicas. É interessante a maneira como todos entendem a esquerda como um campo que congrega diversas concepções, com teorias e práticas por vezes opostas e que se enfrentam permanentemente; contudo, essa mesma realidade contraditória é sistematicamente ignorada no campo dos movimentos pautados em opressões. De modo oportuno, tais movimentos aparecem como um campo homogêneo e isento de disputa, favorecendo o isolamento dos setores da extrema-esquerda neste campo e o fortalecimento das perspectivas liberais, uma vez que a esquerda que se diz revolucionária “não-identitária” aparece com práticas e críticas bastante empobrecidas no que tange aos movimentos em luta contra a opressão.

 

A ausência de precisão no conceito faz com que ele não defina um conjunto bem delimitado de práticas, mas diversos movimentos com práticas completamente distintas e por vezes opostas, tornando inútil o conceito de identitarismo. Ao invés de explicar a realidade, o conceito passa a mistificá-la, virando algo completamente instrumental – uma espécie de palavrão – análogo ao que acontece hoje com o fascismo, cujo único valor e sentido na militância é desqualificar opositores políticos.

O que tentam colocar neste conceito guarda-chuva não é a crítica à identidade em si – até porque nenhum grupo sobrevive sem uma identidade, que reconhece um aspecto em comum à um grupo e uma diferença/oposição a outros – mas a crítica a qualquer identidade que não a de classe, mesmo que tal reconhecimento esteja fundamentado na classe, ou implique uma imbricação com ela. Qualquer identidade que não se restrinja a classe é suficiente para definir um grupo como identitário.  Apesar desta perspectiva por vezes não parecer tão explícita – já que dada a relevância das lutas “identitárias” é difícil hoje algum grupo ou intelectual desprezá-las abertamente – vez ou outra ela aparece de forma nítida, como nessa frase do João Bernardo[1]: “….E cosmopolitismo, no caso que nos interessa, significa estar acima de todas as identidades e assumir uma identidade universal única, que é a da classe trabalhadora.”

Há algumas consequências graves ao negar à priori a relevância de qualquer outra identidade que não a de classe. A primeira delas é a recusa em analisar a formação particular concreta do capitalismo em cada país. Por exemplo, a formação social do capitalismo no Brasil é inseparável da questão racial. Em segundo, trata-se de um jeito de continuar garantindo a perpetuação de racismo, machismo e LGBTfobia nas fileiras das organizações revolucionárias – quase como um jeito novo de dizer que sexo e raça fragmentam a classe. O uso descuidado e irresponsável do conceito de identitarismo é basicamente refazer esta velha afirmação, agora com novos floreios, mas tão conservadora como sempre foi.

Outra grave implicação das críticas feitas a esse identitarismo genérico é conceber gênero e raça como apartados da classe. Isola-se assim a divisão sexual e racial do trabalho da divisão social do trabalho, a relação entre esfera produtiva e esfera reprodutiva – na qual inevitavelmente está implicada a apreensão do papel específico da mulher na sociedade capitalista – e ignoram as lutas históricas protagonizadas por mulheres e pessoas negras e seu importante papel dentro da luta de classe. Quando analisam a relação com a luta de classes, se restringem à cooptação e burocratização que estes movimentos vêm sofrendo ao longo das últimas décadas. Como se esta fosse a única relação possível ou predominante. Como se a radicalidade destes setores dentro da classe aparecesse como algo irrelevante e não determinante, uma mera coincidência da realidade, apesar de se repetir sistematicamente. O papel das mulheres na Marcha de Versalhes, ou no início da Revolução de Outubro, ou na 1ª greve geral do Brasil, ou ainda as greves de mulheres vinculando a esfera reprodutiva e produtiva, os grandes atos de mulheres em oposição ao Trump e o fato do movimento feminista ter iniciado as lutas contra a Reforma da Previdência no Brasil: fatos recorrentes nos quais as mulheres radicalizaram a luta de classe aparecem, sempre, como acidentais. Como se fosse possível apartar sua condição enquanto mulher trabalhadora, de modo que nos momentos de radicalização da luta ela deixasse de ser mulher (trabalhadora) – condição per si inseparável – e se tornasse somente mais um trabalhador, tratando como um acidente ou uma aleatoriedade a composição feminina de determinadas ações. Além de ser uma análise de mera conveniência, ela acaba por ofuscar a história das trabalhadoras na história da luta dos(as) trabalhadores(as),  fomentando um imaginário de lutas protagonizadas sempre por homens.

As feministas têm avançando nas análises e debates, buscando verdadeiramente entender quais as relações existentes entre estas três categorias – classe, gênero e raça. A partir desse esforço, alguns conceitos, tais como interseccionalidade e consubstancialidade, passam a se inserir nos debates, debates esses ignorados pelos grupos críticos do identitarismo genérico. Enquanto isso, a maior parte do setor dito revolucionário limita-se a repetir os mesmos chavões de séculos passados, concebendo gênero e raça como um epifenômeno de classe. Isto é, como algo que seria meramente um produto da classe, quase como um acidente, e que, portanto, não interferisse na classe e nem em qualquer outro processo social.

Dado a força dos movimentos feministas, negros e LGBT’s atualmente, tais afirmações tornam-se quase insustentáveis e, consequentemente, a maioria dos críticos do identitarismo genérico passam a assumir que tais categorias atuam em algum nível na determinação social, ainda que na prática neguem isso a todo tempo. Partidos criam setores exclusivos para estes segmentos, mas em sua maioria tais grupos servem somente como forma de cooptação, legitimação e isolamento da ação destes grupos, garantindo que não exerçam papel decisivo no rumo do partido. Da mesma forma, um número considerável de coletivos faz debates sobre tais assuntos e tentam uma ou outra aproximação com tais movimentos, mas no final é só para dizer que se trata puramente de uma questão de classe. O tragicômico é que, com isso, tais setores “classistas” se isolam cada vez mais e contribuem para o isolamento dos setores classistas dentro dos movimentos contra a opressão, fortalecendo sistematicamente os setores liberais que dizem combater.

Ao apartarem gênero, sexualidade e raça da classe, tomam um referencial universal de trabalhador como idêntico a homem branco e hétero. Ao tomarem o homem branco hétero como referencial universal, assédio sexual, racismo, licença maternidade, violência doméstica, direito ao aborto, sexualidade, tripla jornada de trabalho, extermínio da juventude negra, LGBTfobia, injúria racial aparecem como apartados da luta de classes, interesse de identidades particulares ou, se muito, como algo pouco relevante de modo que tais grupos “não-identitários” optam por não contribuir com tais lutas. Greve de mulheres, como o “Dia de folga” na Islândia e o “Ni una menos” na Argentina,  não interessam a estes grupos “não-identitários”, ainda que estas tendam a ter um caráter extremamente massificado e radical ao conseguirem relacionar questões da esfera reprodutiva e produtiva pertencentes à sua condição de mulher trabalhadora. Essas lutas são vistas como apartadas da luta de classe, algo particular que pouco entusiasma e interessa a esses grupos e intelectuais “não-identitários”, seguindo com pouca ou nenhuma solidariedade real destes. Tal fragmentação – ué, não é a gente que fragmenta? – só é possível a partir de uma universalização da classe trabalhadora enquanto o trabalhador homem branco hétero. É interessante como esse reducionismo grotesco remonta a própria origem do movimento proletário, conforme podemos ver em alguns exemplos históricos.

***

            “Em 1866, a reunião em Genebra da Association Internationale des Travailleurs condenou o trabalho das mulheres como uma degeneração da raça, afirmando que o lugar da mulher é em casa, como mãe e zeladora do lar para os homens, e que só desse modo os homens podiam ter ordem e moralidade em suas vidas. Em 1877 o Congresso Sindical na Inglaterra aprovou uma resolução de que o lugar da mulher era no lar e que o trabalho do homem devia sustentá-lo. […] Assim como os homens de classe média, exigiam garantias de que os lares não se rompessem e que houvesse continuidade da vida familiar. As reivindicações femininas de prevenção da gravidez ou pelo divórcio eram também consideradas ameaçadoras. Na Conferência Anarquista Internacional, em Paris, em 1900, Emma Goldman foi impedida de ler seus discursos sobre sexualidade sob pretexto de uma possível má repercussão […].  Em 1875, no Congresso de Gotha, no qual o Partido Socialista Alemão aceitou uma orientação marxista, a proposta de Bebel de que as mulheres deviam ter direitos iguais foi rejeitada com base na argumentação de que as mulheres não estavam prontas. Mesmo quando em 1891 o partido alemão, empurrado por Bebel, finalmente aceitou os direitos das mulheres, eles eram limitados e estritamente legais. Foi permitido às mulheres filiar-se ao partido, mas em fins de 1900 ainda não podiam comparecer a encontros “mistos” e ainda lutavam pelo direito de falar.” (Andre Nye – Teorias feministas e as Filosofias do Homem)

A Revolução Socialista, tal como a Revolução Burguesa, aparecia não só como a revolução de uma classe, mas como a revolução dos homens. Buscava-se romper com a exploração do trabalho sem romper com a família nuclear e o domínio masculino sobre a mulher. Expressão dessa dubiedade existente no seio da classe trabalhadora são os posicionamentos conflituosos em relação à família que o movimento dos(as)  trabalhadores(as) tomou ao longo da história.

Alguns exemplos mais recentes deste conservadorismo dentro da classe podem ser resgatados na oposição do Partido Comunista Brasileiro (PCB). A proposta de lei antidiscriminatória, em 1946, formulada pelo movimento negro, deparou-se com as seguintes alegações do partidão: “as reivindicações específicas dos negros eram um equívoco, pois dividiam a luta dos trabalhadores e, por conseguinte, represavam a marcha da revolução socialista no país”. A velha afirmação que raça divide a classe.

Ainda no Brasil, quase 100 anos depois da reunião de Genebra, as coisas pareciam não avançar muito. A homofobia e misoginia era gritante. João Silvério Trevisan, um dos fundadores do jornal Lampião da Esquina [2], que circulava durante a ditadura militar no Brasil, disse em uma entrevista recente:

“Na visão da esquerda tradicional, os movimentos sociais novos eram diversionistas, dividiam o movimento operário. Por essa visão, éramos minorias e deveríamos nos submeter à prioridade política, que era o movimento proletário. A realidade é que eles mal nos suportavam. Isso chegou às vias de fato durante um congresso do MR-8, quando algumas feministas apanharam. A nossa grande experiência da ditadura pode ser resumida assim: os generais eram horríveis e a esquerda, autofágica”[…] Veja você: na época das grandes manifestações operárias no ABC, os homossexuais foram ao Estádio da Vila Euclides, em São Bernardo, desfilar na comemoração do 1.º de Maio. Quando fizemos a nossa passeata, no entanto, para protestar contra o Richetti[3], não apareceu um único membro de sindicato, de partido político.”[…] “ Nossos aliados estavam ao nosso lado enquanto interessava a eles, não quando interessava a nós.” (Disponível aqui ).

Na França, não era muito diferente. Em 1972, a Liga Comunista Revolucionária (LCR) já estava na vanguarda da luta homofóbica contra o lacre (tudo bem ser gay, mas sem close, por favor) por meio de seu periódico Rouge. “Não temos nenhuma hostilidade por princípio contra a luta que os homossexuais dirigem contra o ostracismo de que os cerca a sociedade burguesa, achamos simplesmente lamentáveis as grotescas exibições da FHAR[4] em suas últimas manifestações. […] Ao se comportar como ‘grandes loucas’, os homossexuais da FHAR revelam até que ponto são vítimas da opressão sexual burguesa” ( Aqui ).

Episódios históricos não faltam. Anarquistas, leninistas, stalinistas, autonomistas são muito parecidos quando o assunto é a luta contra opressão de minorias políticas. Pedem unidade, mas na prática esta ‘unidade’ implica a negação das pautas contrárias às opressões e não pressupõe a solidariedade mútua. (algo discutido um pouco aqui). Vale lembrar também que apesar disto o momento de maior avanço do direito das mulheres se deu em meio aos processos revolucionários, como a Comuna de Paris, o início da Revolução Russa e a Revolução Espanhola. A história mostra que tais conquistas só se deram com muitos conflitos intraclasse, no qual sempre tiveram as mulheres à frente de sua própria emancipação e enfrentando a reação dos camaradas(?), que se opunham ao combate de seu domínio sobre as mulheres. Assim, movidos por interesses particulares e imediatos, estes movimentos dominados politicamente por homens brancos héteros negaram-se e negam-se sistematicamente a qualquer apreensão da realidade que reconheça as determinações sociais de gênero e raça, consequentemente se recusando a fazer transformações neste sentido.

Ao invés de fazerem um debate sério sobre as relações sociais determinantes e determinadas no processo de opressão escolhem convenientemente fazer espantalho com argumentos baseados em uma identidade essencialista e a-histórica, como aqueles pautados no local de fala como único critério de verdade. Isso é tão ridículo como pegar um texto do PCO e a partir dele dizer que toda esquerda se resume àqueles argumentos, e assim construir uma suposta crítica a todo nosso setor. Assumir o papel de outras identidades além da de classe na multideterminação da realidade é tão só afirmar que haverá relações sociais desenvolvidas a partir delas e que estas atuarão na constituição da subjetividade e interesses objetivos. A forma como se dá esta relação com a classe, contudo, depende de cada teoria específica. Entretanto, a mera afirmação que a identidade de homens brancos hétero atua na determinação de interesses e decisões, ainda que pautada na realidade história e imediata, já é suficiente para me taxarem como identitária e a partir disto se negarem a qualquer debate sério, já que acusar de identitarismo/pós-moderno/multiculturalista já é o suficiente.

***

A negação da existência de qualquer identidade que não a de classe implica uma defesa de neutralidade nos posicionamentos referente a opressões. Algo parecido com o que fazem os liberais, para os quais a explicitação dos processos sociais aparece como engajamento (doutrinação) e a simples descrição e ocultação destes processos aparece como neutralidade. De modo análogo atua a ideologia da não-identidade, isto é, está implícito nas afirmações dos “anti-identitaristas” que os únicos que possuem identidade são os grupos e indivíduos que reivindicam-na explicitamente – e só a partir de tal reivindicação tais identidades passam a atuar na determinação da realidade. Considera-se que os demais não possuem identidade que não a de classe, conseguindo a partir de sua vontade transcender as determinações sociais e apartar-se da sua realidade enquanto homem branco numa sociedade racista e patriarcal. De tal modo, um grupo composto só por pessoas negras e que restringe abertamente a participação de pessoas brancas é taxado como identitário e excludente; e um grupo composto só por brancos, – mas que não tem nada dizendo que é proibido a presença de negros – que desprezam as pautas sobre negritude e possuem relações internas completamente racistas, não é identitário, pois não reivindica explicitamente sua identidade enquanto branco. Defender a relevância de ler intelectuais mulheres, pessoas negras e LGBT é identitário, mas ter como referenciais intelectuais somente homens héteros brancos – no máximo tem a cota Zetkin, Kollotai e Luxemburgo –  não é identitário, é natural e em nada interfere na formação intelectual. Exaltar a necessidade de chamar mulheres, pessoas negras e LGBT para falar em debates é identitário, mas chamar somente homens, brancos e héteros não é identitário, é normal, é “escolha que não perpassa por isso”, é “só coincidência”. Assim, para os homens brancos e héteros a identidade só existe quando é explicitada e assumida e, coincidentemente, quem reivindica são as minorias sociais. Juram que branquitude, heteronormatividade e masculinidade em nada tem a ver com eles.

Nunca é demais explicar. Não se trata de afirmar uma identidade absoluta entre enunciante e enunciado, não é uma mera relação de causa e efeito e nem tampouco, algo estático. Trata-se, tão somente, de não ignorar que o discurso não é autônomo a quem fala e quem fala é sempre sujeito de sua época. Época racista e patriarcal, na qual há vantagens relações cotidianas intra-classe e domínio de homens sobre mulheres, pessoas brancas sobre pessoas negras e héteros/cisgênero sobre pessoas LGBT’s. Ainda que avancem(os) em alguns aspectos, continuam(os) pessoas de seu (nosso) tempo. Os conflitos históricos intra-classe envolvendo as mulheres, pessoas negras e LGBT dizem isso por si só. Além de olhar a história, basta olhar ao lado. Ver quem tá discutindo o quê na mesa de bar, quais as discussões sobre feminismo que mais afetam os homens, quem tá compartilhando o quê no facebook, quem tá preocupado com relacionamento abusivo, quem tá escrevendo sobre o quê, quem tá combatendo o quê. Inclusive, há dois fenômenos bastante curiosos: se você for numa mesa sobre sexualidade, racismo ou gênero a quantidade de héteros, brancos e homens, respectivamente, será ínfima, mas a chance de um destes levantar para falar após o debate, ignorando tudo o que foi debatido, só para dizer “mas e a classe?” é de 99%! Apesar desse interesse mínimo nos debates sobre gênero, sexualidade e raça de homens héteros brancos, se você falar de espaço exclusivo magicamente eles ficarão putos e brotará um súbito interesse em participar dessas atividades.

É explícito também como pesam a mão de um modo diferente para pautas “identitárias”. Toda e qualquer luta tem contradições. Quando elas não se generalizam e se radicalizam se tornando processos revolucionários, elas são inevitavelmente assimiladas. É justamente esta renovação permanente do capitalismo que cria dificuldades tão grandes de vencê-lo. A luta por aumento de salário pressupõe a continuidade da existência do trabalho assalariado, a luta por tarifa zero dinamiza a circulação de mercadorias dentro da cidade e não necessariamente implica algum ônus ao empresário do transporte, a luta contra o fechamento de escolas pressupõe a continuação das escolas controladas pelo Estado enquanto formação de mão-de-obra disciplinada. E por aí vai. Após esgotadas, estas lutas são assimiladas e dinamizam as instituições sociais, inclusive a repressão. Mas isso não é motivo para que deixemos de comemorar conquistas – ainda que entendendo sua contradição e limite – e jamais para que deixemos de lutar. Mas pela acidez, constância e isolamento das críticas à assimilação das lutas contra a opressão, parece que a esquerda adepta da ideologia da não-identidade acha que somente estas lutas possuem contradições, enquanto as demais são anti-capitalistas e em nada reforçam as estruturas capitalistas. Ignorância, ingenuidade ou conveniência identitária?

Pra explicitar as afirmações acima trarei alguns dados, sendo tudo algo que pode ser conferido no cotidiano e na história. Tais dados foram recolhidos no dia 13 de agosto de 2017, podendo ter mudado após sua coleta. Vejamos alguns textos do site Passa Palavra, que cumpre um importante papel nos debates sobre as análises e lutas social, principalmente no campo autônomo, mas que claramente possui limites quando o assunto é “identitarismo”. Vejamos este texto. Uma tentativa de duas mulheres de apontar possibilidades de união entre classe e (outras) identidades a partir de uma experiência concreta de união entre mineiros e um grupo de gays e lésbicas no Reino Unido. Há 48 comentários (número muito acima da média de comentários do site), dos quais 2 de mulheres, 6 fakes e 40 comentários de homens. Em sua absurda maioria eles defendem a impossibilidade de tal unidade. De certo, o tema identidade é algo que interessa os leitores do mesmo site. O mesmo site possui uma série de 7 textos sobre a relação entre sociedade de classes e a violência sexual, nestes 7 textos só há um comentário e que é de uma mulher. Neste texto ,que se debruça sobre o machismo na esquerda, a relevância das pautas feministas e ao mesmo tempo crítica tais pautas, há 23 comentários dos quais 3 são de mulheres. Uma destas mulheres critica alguns pontos do texto, mas faz algumas questões, os outros dois são da própria autora. Uns tantos de comentários são debates com um comentarista que acusa o texto de racista, uns tantos criticando o texto e esforçando-se para negar qualquer relevância do gênero e uns poucos reconhecendo os desafios que ele coloca para a esquerda. Estes textos foram só alguns exemplos de uma tendência notória no site, que é de predominância de leitores e debatedores homens que hegemonicamente expressam uma perspectiva que esgota tudo na classe. Os debates sobre uma possível unidade entre identidade e classe tende a ter um tom mais exaltado e atiça maior interesse dos leitores do que textos que só tratam das opressões vividas por mulheres.

Não dá pra tirar nenhuma conclusão certeira de tão poucos dados, mas colocam-se umas tantas questões. A esquerda autônoma tem hoje uma composição bastante igualitária no tocante a gênero, por vezes nós mulheres somos maioria, por que então em um dos únicos sites –quiçá o único– do campo autônomo que se propõe a debater abertamente as lutas autônomas tem uma adesão tão baixa de mulheres? Como a composição, os posicionamentos e os debates do site estimula ou desestimula a participação das mulheres? Como estes debates são influenciados por essa composição hegemonicamente masculina? Qual a influência dos autores do site serem também em sua absurda maioria homens (dos 28 últimos textos – tirando os 7 de violência sexual – somente um texto é assinado por mulher e em conjunto com um homem. Assim como os 8 primeiros textos do site só tem homens como autores)? Por que será ainda que dos poucos textos escritos por mulheres muitos são sobre feminismo, por que isso é tão importante pra gente? E por que há uma adesão tão alta dos comentadores a estes textos que defendem uma possível unidade entre gênero e classe e pouca adesão aos textos que discutem as questões das mulheres? Não tem nada no site falando de exclusividade de escrita de homens e nem da proibição das mulheres como autoras e comentadoras, mas curiosamente há uma baixíssima adesão de mulheres como comentadoras e autoras e isso não parece ser uma questão para o site. Teria isso alguma relação com um identitarismo dos homens?

Prosseguimos. Agora com o chargista LGBTfóbico número 1: Vitor Teixeira. Vejamos essa tirinha que aproveita e prossegue com a tradição homofóbica antilacre da LCR e faz uma crítica bastante pobre ao local de fala. Há 53 comentários, dos quais somente 9 são de mulheres e, em sua maioria, os comentários são de enaltecimento à tirinha. A imagem tem 189 compartilhamentos, mas dada as condições de privacidade a maioria não aparece, aparecendo em torno de 60 compartilhamentos, dos quais 8 são mulheres (a contagem não está precisa porque depois de um tempo começa a repetir as pessoas). Em uma de suas tirinhas mais polêmicas e lamentáveis – que dado ao número absurdo de curtidas, comentários e compartilhamentos eu não cheguei a contar – a diferença de sexo nos compartilhamentos é visível. Há 253 comentários, a maioria de homens afirmando a genialidade da tira e berrando o quanto quem critica a tira é pós-moderno, o que já demonstra quão preciso é esse conceito no meio militante também. A maioria das mulheres comentadoras estão criticando o post, alguns homens também, e umas poucas mulheres criticando as mulheres que criticaram o post. Uma olhada visual no compartilhamento dessa charge também deixa visível a diferença do sexo das pessoas que compartilharam .  Arriscaria afirmar que são em sua absurda maioria héteros, mas os dados não me permitem inferir isto.

Será que mulher não gosta de cartunista?

Parece que elas gostaram muito desse post, de enaltecimento a mulher negra. Nesta tirinha sobre o extermínio da juventude negra e da dor da mãe ao ter seu filho assassinado é visível também o número expressivo de mulheres compartilhando, visivelmente maior que os homens e também nesse post que é um chamado a unidade para luta.  Ah, e só pra constar a maioria de usuários do facebook são mulheres, tá?

Novamente, não dá pra fazer nenhuma afirmação conclusiva de tão imprecisos e poucos dados numa pesquisa tão pouco rigorosa e deve-se levar em conta também o limite das análises por terem analisado somente o sexo – dado a facilidade de identificação do mesmo – mas dada a experiência histórica e a sensível, podemos generalizar os dados enquanto tendência e pensar algumas coisas a partir disso. Em primeiro lugar, a esquerda tem que estudar e aprender o que é pós-modernidade, pois obviamente ela não faz ideia do que seja. Em segundo, uma vez que toda teoria e pensamento não é fruto de metafísica, mas da realidade concreta, toda teoria e afirmação possui uma base na realidade, o que quer dizer que há um núcleo racional nela que nos cabe apreender. A sistemática acusação de que determinados enunciados são em sua absurda maioria defendidos por homens e/ou brancos e/ou héteros não é fruto dos céus, possui uma base amparada na realidade concreta por meio de experiência imediatas e históricas. São homens, pessoas brancas e heterossexuais que vem sistematicamente se opondo às pautas dos grupos políticos minoritários. Mas, os setores adeptos da ideologia da não-identidade, diante da sua convicção da irrelevância de qualquer outra identidade que não a de classe, recusam-se a ver isto que está sob o seu nariz, criam cegueiras frente à realidade. Contudo, a afirmação de que homens brancos héteros são a absurda maioria das pessoas que se opõe a luta contra a opressão é uma descrição da realidade, não uma explicação, não dá pra fazer uma simples análise de causa e efeito e nem análises de identidades essencializadas a partir daí.

Assumindo que não se tratam de infinitas coincidências que se repetem na história, nem tampouco de um gene pós-moderno irracionalista histérico (existente em mulheres, pessoas negras e LGBT) e nem de um outro gene que contém o suprassumo da razão e revolução que acomete homens brancos héteros, só é então possível assumir que se trata se um processo sócio-histórico que produz interesses conflitantes. Processo este que forja não só uma identidade – e interesses – enquanto mulher, LGBT e pessoas negras, mas também de homens, pessoas brancas e heterossexuais. “Ah, mas e a classe?” Pois é, o complexo disto – e que uns tantos insistem em dar respostas fáceis – é que tais conflitos não se esgotam na classe, ocorrem não só extra-classe, mas intraclasse e acometem trabalhadoras(es) e capitalistas, ainda que de forma distinta. O nó da questão está aí. Ainda não faço ideia de como lidar com esta tensão, porém acredito que a saída fácil que reduz tais conflitos à classe não é um caminho. Ignorar a realidade histórica que evidencia os conflitos de interesses intraclasse a partir destas identidades não pode ser um caminho, nem também isolar as opressões de gênero, raça e sexualidade do modo de produção capitalista.

É engraçado como hoje (e sempre) insistem em dizer que pessoas negras, mulheres e LGBT’s fragmentam a classe, mas é só olhar a história e ver o quanto fomos nós que sempre defendemos e agimos na unidade, mesmo quando contávamos com pouco apoio e enfrentávamos fragmentações que reduziam a classe a trabalhadores homens brancos e héterosÉ verdade também que, por vezes, essa defesa da unidade nos custou nossas próprias pautas e vidas. Fomos e continuamos sendo aquelas que, mesmo sem receber grande apoio, insistimos em uma unidade unilateral; continuamos sozinhas, travando lutas para garantir a nossa existência, direitos e emancipação real. Ao mesmo tempo, continuamos dentro dos grupos e lutas que possuem em letras garrafais pautas classistas, tendo que combater machismo, racismo e LGBTfobia nestes espaços e igualmente combater a resistência destes espaços/grupos em pautar tais temas internamente e em se engajar-se neles.

Dentro das lutas/grupos contra opressões tensionamos com perspectivas que negam a divisão da sociedade em classes sociais , uma vez que tal perspectiva ao invés de propor a destruição do capitalismo como uma necessidade para emancipação, propõe o fortalecimento do mesmo por meio da renovação identitária de seus quadros e instâncias de poder. Na prática é uma perspectiva que se volta contra nós mesmas. Nas lutas notoriamente anti-capitalistas também tensionamos com aqueles que negam a diferença existente em meio a unidade, recusando-se a combater a dominação masculina e branca, fortalecendo um identitarismo masculino, branco e hétero. Entendemos prática e teoricamente que a emancipação humana não se realiza somente com a tomada dos meios de produção – apesar desta ser condição sine qua non – mas nas transformações das relações cotidianas, na criação de relações radicalmente novas, incluindo aí a transformação da família, dos relacionamentos amorosos etc, o que devem acontecer desde já. Para isso, é necessário romper com os lugares-comuns destes movimentos por meio de árduos conflitos em defesa da indissociabilidade e urgência do combate conjunto e paralelo de opressão-exploração como condição para emancipação humana. Tal defesa pela síntese prática entre opressão-exploração é, sempre foi e continuará sendo, bastante conflituosa e intensa, conflitos que continuaremos a ter não só com o inimigo, mas entre os nossos. Apesar de árduo e desgastante, o engajamento em tal conflito é condição desde já de nossa existência e emancipação.  

[1] Teórico marxista português, viveu muitos anos no Brasil e escreveu diversas obras sobre economia, política, filosofia e história. São livros de sua autoria Labirintos do Fascismo, Economia dos Conflitos Sociais e Democracia Totalitária. É colunista do portal Passa Palavra.

[2] Jornal feito por homossexuais, circulou por todo o Brasil entre os anos de 1978 e 1981. No total foram 38 edições e cada uma delas teve uma tiragem de 10 a 15 mil exemplares. Considerado o primeiro veículo de mídia feito e voltado para o público LGBTT, o Lampião da Esquina foi, em 2016, retratado em um documentário com o mesmo nome do jornal. Assista o trailer aqui. 

[3] O Coronel José Wilson Richetti assumiu a delegacia do centro de São Paulo em abril de 1980 prometendo ações policiais contra as travestis, prostitutas e homossexuais que circulavam pelo centro da cidade. As ações de Richetti foram respaldadas não só pelos comandos policiais da época, mas também pela imprensa paulista.

[4] A Frente Homossexual para Ação Revolucionária foi um movimento parisiense fundado e extinto na década de 1970. A FHAR foi resultado de uma aproximação política entre feministas lésbicas e ativistas homossexuais após os eventos de maio de 1968.

*Karina Yef é militante do campo autônomo e feminista.

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Entranhas

Análise Política feita por mulheres de esquerda

2 thoughts on “O Identitarismo dos homens brancos e héteros

  1. Eu não tenho nem palavras para agradecer a precisão, contundência, genialidade e pertinência desse texto, Karina. Muitíssimo obrigada. Queria do fundo do coração que alcançasse bastante gente, pq é de foder o quanto isso realmente virou espantalho pra nos desqualificar. Como anarquista, mulher, feminista e bi, me é mt caro sim saber q nossas demandas, especificidades e opressões sejam reconhecidas e combatidas, e não nos silenciarem novamente com a qualificação vazia de “pós moderno”. Como diz uma amiga minha, dizer atualmente q algo é “pós moderno” é tipo dizer q é “ideologia de gênero” rs
    p.s.: o feminismo radical tbm se instrumentaliza da crítica de “identitarismo” pra destilar transfobia com frequência tbm.

  2. Os dois links do indymedia/CMI não estão funcionando. Para mim, a análise feita aqui é precisa e importantíssima. Fico decepcionada ao ler “Pedem unidade, mas na prática esta ‘unidade’ implica a negação das pautas contrárias às opressões e não pressupõe a solidariedade mútua. (algo discutido um pouco aqui).” não conseguir acessar o “aqui” e nem saber do que se trata. Algo que seria resolvido com uma nota de rodapé citando o nome e autoria da referência. Algo simples como “texto chamado assim, escrito por fulana de tal” já permitiria que eu mesma procurasse no google. Fora isso, o conteúdo do portal é maravilhoso. Parabéns!

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