Políticas de morte e a morte da política: o Feliz Natal de Temer

 

Já quase se findava 2016 quando foi transmitido pela televisão um comunicado do “presidente” Temer. Era, para sermos exatas, dia 24 de Dezembro, noite de natal. O vídeo, anuncia-se como um pronunciamento, muito embora tenha muito mais cara de peça publicitária. Temos que reconhecer, aliás, o trabalho da equipe de marketing de Temer: conseguiu transformar o Drácula num coach de empresas, em um treinador motivacional. Por trás do discurso de esperança e renovação, no entanto, o conteúdo do comunicado é nada menos que tenebroso, e nos pode servir como um bom gancho de análise sobre esses pouco mais de 100 dias pós-golpe e do que vamos enfrentar daqui pra frente.

DA NECESSIDADE QUE TUDO MUDE, PARA QUE TUDO SE MANTENHA [1]

Os quase 4 minutos de discurso de Temer são permeados por um clima, digamos, de ano novo: aquela esperança, por vezes vã, de que a passagem de ano nos dará novas oportunidades de começar tudo de novo, de deixar para trás tudo aquilo com o que não nos satisfazemos no ano anterior. Um clima, enfim, de mudança. Temer parece nos fazer querer acreditar que contamos, por fim, com um presidente com coragem para fazer aquilo que precisa ser feito – o que não deixa de ser irônico, quando estamos diante de alguém que simplesmente foge de tudo que é aparição pública.

Esperança” e “coragem da ação” para provocar as “mudanças de estrutura” que o Brasil precisa enfrentar: o uso constante dessas expressões ao longo do comunicado nos revela a tentativa de Temer de se afiliar a um discurso generalizado de insatisfação popular, que tem tomado alcances diversos ao menos desde 2013.  Discurso que parece vago, mas que é, de fato, cheio de conteúdo.

Resisto aqui à tentação de me aprofundar nos debates sobre aquilo que passou a ser conhecido como Jornadas de Junho, não sem antes afirmar que este é um desafio do qual o Estranhas não se furtará. Para os limites desse texto, o importante é comentar como este processo, depois de diluído seu caráter inicial de esquerda, deixou no ar um desejo vago e difuso de mudança, do qual uma nova direita de rua que ali se consolidou soube muito bem se apropriar. A elasticidade das reivindicações que ganharam força posteriormente, tal qual “o fim da corrupção” que pode ser entendido como quase qualquer coisa, aprofunda e exemplifica a sensação de desconfiança generalizada com tudo que se relacione à política e essa vontade de que tudo mude, mesmo que não se saiba muito bem para que.

Claro está que o sentimento de plena desconfiança com o sistema representativo e com a figura do político profissional tem muita razão de ser, e não deriva das “Jornadas”, mas de experiências muito concretas e cotidianas de quem não se vê conectado com o que costumamos chamar de os de cima. Por outro lado, é nesse desejo indefinido de transformação que o governo Temer tenta surfar em seu comunicado. A tentativa de se acoplar com essa insatisfação popular é tão evidente que Temer chega a se comparar com D. Paulo Evaristo Arns, cuja vida foi de fato dedicada às transformações sociais.Trata-se de uma apropriação descarada, que é capaz de provocar náuseas: D. Evaristo, enquanto uma importante figura da esquerda brasileira,trilhou caminho no mínimo oposto ao do golpista.

Temer, assim, se propagandeia como a mudança que o Brasil precisava – “mudamos a Constituição para mudar o Brasil”, chega a afirmar. Sem nenhuma surpresa, esse apelo à mudança desemboca numa frase, constantemente repetida nos telejornais: “os brasileiros pagam muitos impostos e pouco recebem em troca”. Se a natureza falaciosa dessa narrativa pode parecer explícita para boa parte da esquerda, não podemos, por isso, ignorar seu potencial de aderência. Mais uma vez, o binômio desconfiança com os políticos/desejo de mudança é acionado a partir de um viés neoliberal, revertendo uma insatisfação popular mais que legítima em uma política de cerceamento de direitos e maior investimento em quem já paga pouco imposto, mas recebe muito do governo – banqueiros, investidores, empresários.

NA VELOCIDADE DO CHOQUE: “DEMOCRACIA DA EFICIÊNCIA”

Temer não apenas quer encarnar a mudança – outra ironia, em pertencendo ao que há de mais velho na política nacional – mas pretende também convencer que ela deve ser feita o mais rápido possível. As mudanças de estrutura urgem e as reformas não podem esperar: é preciso colocar imediata “ordem nos gastos públicos”, desastrosamente conduzidos nos governos anteriores, que deixaram o país à beira da bancarrota. Mais uma vez, um discurso corrente em tudo que é noticiário televisivo.

A pressa não é um elemento menos importante – “O Brasil tem pressa, e eu também”. Ela é constituinte do que Naomi Klein chamou de “doutrina do choque” (2008), enquanto estratégia de aprofundamento do neoliberalismo. Em livro resultado de 10 anos de pesquisa, a autora desenvolve uma analogia dos tratamentos psiquiátricos com eletrochoque e a implementação de políticas neoliberais radicais em diversos países, a partir dos anos 70. Tanto nessa corrente psiquiátrica como nesta vertente de economia política, pretende-se criar uma suposta “tábula rasa”, a partir da qual tudo poderia ser reformulado segundo alguns preceitos ideias pré-estabelecidos: os pacientes tornados nada poderiam ser refeitos segundo referenciais “saudáveis” pelos psiquiatras; os países, depois de desmontados, poderiam ser “sanados” de vícios estatais pelos economistas.

Se na psiquiatria o choque é literal, em economia política, nem sempre. O choque aqui funciona primeiro com o estímulo intenso a uma sensação de que absolutamente tudo está fora do lugar.Não à toa, a doutrina do choque é especialmente eficaz em momentos extremos, como guerras, ataques terroristas, desastres naturais: quando tudo está mesmo explicitamente fora da ordem. Não há aí, porém, causalidade necessária: campanhas midiáticas, aumento de preços, ações articuladas de empresários e especialistas que anunciam que o fim está próximo caso certas medidas não forem urgentemente tomadas também são capazes de construir o mesmo ambiente. Outra coisa com impacto semelhante, vejam, é um clima generalizado de instabilidade política.

A essa altura a conexão entre o choque e a situação que vivemos no Brasil já parece vir à superfície.  Os elementos de instabilidade que vivemos são evidentes: vão desde os discursos de falência econômica e gastos descontrolados, até as ações cotidianas da operação Lava Jato, passando em seu ápice (até agora) por um impeachment absolutamente injustificável jurídica e politicamente (ou seja, um golpe de Estado). O clima disseminado é de que tudo está podre, e que é preciso agir rápido ou talvez não sobre pedra sobre pedra.

Não há porque discordar que tudo está mesmo podre. E tampouco há que se discordar que a mudança urge. O caminho que se apresenta, no entanto, e que ganha cada vez mais força, vai em sentido oposto ao nosso e, pior, se expõe e hegemoniza como alternativa exclusiva, como única possibilidade existente. Nesse sentido, como é de costume do economiquês neoliberal, Temer apresenta suas ações não apenas como salutares, mas como inescapáveis: é o que precisa ser feito. Mais uma vez, declara-se aí a morte da política: associa-se qualquer governo que aposte num mínimo investimento em direitos sociaiscom a irresponsabilidade fiscal (e se multiplicam os discursos de fraudes nos programas sociais); transforma-se toda e qualquer decisão em técnica e ciência, assunto de especialista, sobre o qual não se deve opinar sem um P.h.D na Escola de Chicago. Temer está apenas recebendo ordens, como costumam repetir os burocratas de todos os níveis – outra ironia para quem diz querer desburocratizar o estado.

A pressa de Temer, assim, tem ao menos duas dimensões: por um lado, quer acelerar o trabalho sujo e garantir a “tábula rasa”. Por outro, quer agir antes de que tenhamos tempo de apresentar de fato uma alternativa política à esquerda para a crise instaurada. Para isso, pensam eles, é preciso agir rápido e, ainda melhor, fazer tudo de uma vez só: enquanto nos recuperamos do golpe de Estado que levamos, tantos direitos vão sendo tirados e tão rápido que nem sabemos bem para onde ir – todo dia é um 7 a 1 diferente. É uma estratégia de nos deixar como baratas tontas, indo apagar fogo de um lado ao mesmo tempo em que nos damos conta de que um novo incêndio se cria no canto oposto. Essa estratégia, aliás, é curiosamente parecida com a utilizada pela Policia Militar do Distrito Federal na manifestação contra a PEC55 no dia 13 de Dezembro: ao mesmo tempo em que cercavam o ato, bombas de gás eram atiradas de todas as direções, deixando a impressão que não havia o que fazer além de correr de um lado a outro [leia aqui um detalhado relato da manifestação].

É aí que a “eficiência” do discurso de Temer ganha significado, como se o principal problema a ser enfrentado fosse uma questão de velocidade da gestão, e não o fato de lidarmos com desigualdades estruturais e um sistema político que não nos permitem decidir sobre as nossas vidas. Eliminar os “desperdícios” do Estado (ou seja, tudo que torne menos insuportável a existência nesse sistema, como políticas sociais, direitos trabalhistas, etc.), agindo de forma rápida e certeira, produzindo o melhor resultado possível e com o menor desgaste. Essa palavra, tão cara a empresários e patrões em busca de maior lucro em menos tempo, não poderia ter sido melhor escolhida. Já democracia, bem, este é um temo que anda aí só de enfeite.

QUESTÕES PARA NÃO MORRER ESSE ANO

“Ano passado eu morri,
mas esse ano eu não morro”

(Belchior – “Sujeito de Sorte”)

Ainda no começo de seu comunicado, Temer afirma: “assumi definitivamente a presidência da república há pouco mais de 100 dias”. A ênfase no definitivamente demonstra que ele sabe que não está lá de forma tão definitiva assim, como uma tentativa de se afirmar diante das diversas pressões que recebe desde que surrupiou a presidência. Há chances reais de que ele caia em breve, mas é bom que saibamos que isso não necessariamente pende para onde gostaríamos – nesse momento, nós talvez sejamos o lado mais fraco entre aqueles que o atacam.

Não podemos, assim, nos acalentar com as notícias das denúncias de corrupção contra o Temer, ou ainda com uma possível cassação da chapa Dilma-Temer – e não apenas porque a partir de agora a anulação da chapa implica uma eleição indireta (algo de fato desesperador). A atual instabilidade política tem sido muito bem instrumentalizada pelo neoliberalismo, fazendo com que qualquer governo tenha que andar bastante na linha para garantir que continuará governo. Nesse sentido, pode ser que Temer caia por já ter feito seu papel, mas podemos também esperar que as ameaças de queda serão levadas até o último momento possível, de forma que o governo se mantenha vulnerável, nunca totalmente estabelecido. A lógica é a da corda no pescoço.

Por outro lado, não há porque acreditar que estamos diante do inescapável: esse, recordemos, é o discurso deles.  Aqui vale evocarmos de novo o ocorrido no dia 13 de dezembro: se é verdade que a polícia nos atacou de todos os lados, é também verdade que, depois de coagida, a manifestação tomou ruas diversas de Brasília, refazendo a cidade, ressignificando ônibus, vitrines de banco, avenidas. Para isso, no entanto, foi necessário saber olhar além do cordão da polícia.

Desta forma, algumas questões emergem de forma pungente para quem quer que sonhe com um projeto de transformação radical, dessa vez à esquerda. A primeira delas, justamente é trazermos de volta a ideia de mudança para seu lugar de origem, ou seja, do nosso lado da barricada. O discurso da permanência nunca foi o nosso, mas acabou ganhando tons gritantes e até dogmáticos nos governos do PT em uma parte considerável da esquerda. De repente, era preciso se conservar tudo, não se podia fazer críticas, demandas, reivindicações sem que se fosse automaticamente acusado de “fazer o jogo da direita”, mesmo que essas reivindicações fossem explicitamente progressistas. Essa linha argumentativa nos ajudou a chegar a um ponto vergonhoso: um ponto no qual a direita se sente autorizada a se dizer mensageira da mudança, e nós ficamos conectadas à continuidade.  Um ponto no qual estamos diante de uma grande insatisfação popular, mas é o discurso anti-povo que ganha aceitação e poder.

Também precisamos retomar a ideia de política, vista como a arte de fazer o impensável, não como a habilidade de se mover segundo as regras do jogo. Política como, justamente, a possibilidade de fazer emergir o novo vendo além da barreira policial. Se a morte da política parece evidente no governo Temer, pois que este transforma as decisões em inevitabilidades técnicas, o esgotamento do conceito-prática foi também se construindo nos governos petistas. O que hoje é chamado de técnico e eficiente por Temer, ontem foi chamado também de técnico, mas recebeu principalmente outro nome: o da governabilidade. Na era PT, a inevitabilidade dos conchavos e articulações para que fosse possível governar tornou-se a principal barreira para as transformações mais estruturais. De novo, a política do inescapável.

Precisamos, em sentido contrário, reaprender a política do impossível: foi a partir dela que ideias inimagináveis tornaram-se vivências concretas – da jornada de 8 horas de trabalho à Revolução Russa.Isso, é bom dizer, não significa simplesmente levantar bandeiras alucinadas, recusando qualquer análise de conjuntura (como, por exemplo, o que me pareceu fazer o PSTU diante do golpe): o desafio consiste justamente em articular os dois níveis – o das demandas diretas e sentidas na pele e o dos projetos outros de existência. Assim, a resistência pós-golpe precisa encontrar uma brecha para escapar do cordão neoliberal, permitindo-se o exercício da criação e não da repetição, sob o risco de não conseguirmos romper com o essencial: a hegemonia absoluta da austeridade como única forma de sobrevivência.

Por fim, cabe-nos de novo entender que há muito mais em campo do que as forças acachapantes da direita e do golpe: há muita gente para quem os jogos da política de cima nunca fez sentido e, assim, embora tenham aderência, as narrativas neoliberais não são cabais. Nos conectar com essas pessoas, que estão fora do ciclo por vezes viciado da militância, é a principal condição para que possamos, de fato, não morrer esse ano de novo.

[1] Como dizia o escritor italiano, Giuseppe Lampedusa.

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Leila Saraiva

Leila Saraiva é antropóloga, militante do Movimento Passe Livre-DF, alucinada por Belchior. Autora do livro "Não leve Flores: Crônicas etnográficas junto ao Movimento Passe Livre-DF", acredita que a teoria de nada adianta se ela mesma não puder ser transformada em barricada.

4 thoughts on “Políticas de morte e a morte da política: o Feliz Natal de Temer

  1. Oi Leila; texto muuuuito bom!
    Parabéns!
    Agora escreve um com o “inescapável” do lado da esquerda. Ideias inimagináveis para sacudir essa esquerda colada ao que está instituído.

  2. ÓTIMO!
    Estarei por aqui, acompanhando…
    Gostaria de saber se já se tem alguma frequência definida para novas publicações?
    … minha ansiedade…

    1. Oi Raffael, tudo bem? A princípio gostaríamos de manter um publicação por semana, mas ainda estamos nos organizando internamente pra isso.

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