Nós também, nous aussi

Por Izadora Xavier

Cheguei na França há seis anos, fim de 2012, para fazer um mestrado que se transformaria em um doutorado. Quando cheguei aqui, já tinha participado da organização da Marcha das Vadias e lido suficientemente Judith Butler para me reinvindicar em alto e bom tom feminista. O fato de que eu tinha uma foto de Simone de Beauvoir colada na minha parada durante boa parte dos anos em que estudei na UnB certamente deve ter influenciado essa minha escolha de destino.

Quando estive no Brasil esse ano, em julho, minha namorada se mostrou particularmente impressionada com o interesse que xs brasileirxs (estamos falando de intelectuais, e de Universidade) tinham por maio de 68. “Se fala mais disso aqui do que na França”, ela repetiu para todas as suas amigas francesas quando voltou.

Qual ligação entre essas duas coisas e o dia 25 de novembro? O dia 25 de novembro, como sabemos, é o Dia Internacional para a Eliminação da Violência contra a Mulher. Desde que cheguei, em 2012, uma particularidade nas manifestações feministas franceses sempre me chamou a atenção e sempre contrastou com essa ideia romântica que eu fazia da França (e que não sou a única brasileira de esquerda que faz isso, como os comentários da minha namorada demonstram). Para o 25 de novembro, como para o 8 de março, desde que estou na França, organizam-se duas manifestações. Uma “oficial” e uma “lado B”. Eu sempre fui mais nas lado B, porque eram as manifestações onde estavam minhas amigas e companheiras: mulheres migrantes, mulheres negras, mulheres de véu, pessoas queer, trabalhadoras do sexo. Depois descobri que as manifestações lado B existiam porque todas essas mulheres não se sentiam bem-vindas na manifestação oficial.

O que se passa na França real, onde vivo, que não é a França que eu idealizava na minha parede com a foto de Simone ou que uma parte da esquerda brasileira idealiza com debates e exposições sobre 68, é algo parecido com o que Angela Davis descreve sobre as sufragistas norte-americanas brancas em “Mulheres, Classe e Raça” (que tem a ver com o papel das mulheres brancas na eleição de Donald Trump). A incorporação das pautas do movimento feminista francês pelo Estado e pelo mercado renovou uma antiga aliança entre feminismo branco e liberal e políticas de Estado racistas, imperialistas e sobretudo oportunistas. Renovando práticas que remontam à longa tradição imperial francesa, oportunidades se abrem para uma parte das mulheres francesas no mercado, no Estado e na sociedade, desde que elas estejam dispostas a colaborar com a reprodução de discursos islamofóbicos sob cobertura de laicismo, com a reprodução de práticas estatais repressoras e racistas, sob cobertura de luta contra a prostituição e com dinâmicas econômicas excludentes de maneira geral, sob cobertura de “inclusão das mulheres no mercado competitivo” ou em “ascensão das mulheres a posições de liderança”.

Esse ano, para o 25 de novembro, a manifestação puxada por essas correntes que critico, profundamente impactadas pelo #metoo dos EUA, foi intitulada “Nous Toutes”, Nós Todas. As bandeiras de avanços institucionais e a defesa de um universalismo cego à raça e anti-religioso se traduz num movimento de mulheres privilegiadas que se recusam a falar de raça, são contra o véu e a organização autonôma das trabalhadoras sexuais.

Há anos, as correntes dissidentes, formada de coletivos de feministas negras, muçulmanas, migrantes, queer, de trabalhadoras do sexo e de classe popular se organiza em manifestações alternativas que se concentram em torno de pautas pos-coloniais e anti-neo-liberais. Esse ano, a manifestação do dia 25 não será dividida em duas. As mulheres Outras vamos reclamar um espaço na frente do cortejo, na frente de Nós Todas. Marcando a diferença. Um manifesto foi escrito, que traduzi para o português, com ajuda de Bruna Costa Moreira.

Em tempos de ascensão de direitas, de homonacionalismo e de feminacionalismo, é preciso reforçar um verdadeiro feminismo internacional e solidário. Desfazer as ideias de que as feministas europeias resolveram o feminismo e que a nossa única opção de emancipação é imitá-las. Provar que ainda somos, como dizia Virginia Woolf no começa do século XX, as Outras de todas as nações. Nossos pertencimentos geográficos estabelecem singularidades e diferenças, mas é essa identidade de Outra sempre presente que nos dá força e nos permete compreender e empatizar com excluídos e excluídas em todos os lugares. E as latinas somos parte muito importante dessa marcha! Desde sempre, visto que o 25 de novembro é a data de homenagem às irmãs Mirabal, militante mortas pela ditadura domincana de Trujillo. Desde sempre, visto também que o MLF, o Movimento de Liberação das Mulheres que alterou o cenário francês pós-1968 (olha ele aí de novo), onde Simone de Beauvoir, Christine Delphy, Monique Wittig e tantos outros nomes franceses militaram, foi também construído pelas exiladas e perseguidas políticas latino-americanas que aqui se refugiaram. Desde sempre, e ainda agora, porque Nem uma a menos é uma grande fonte de inspiração de Nós Também. Porque a centralidade que mulheres negras e trans conquistaram nas lutas brasileiras inspira muito as francesas Outras, e porque o cortejo latino-americano que participa e que diz Nós Também (brasileiras, peruanas, mexicanas, argentinas, até pras espanholas se deu uma colher de chá) vai colocar o Brasil e Marielle Franco no centro da marcha…

Somo Todas as nacionalidades, somos nenhuma delas, somos Também e marchamos aqui e em todos os lugares contra autoritarismos e contra a cooptação de nossas lutas.

Acesse a página facebook de “Nós Também”.

O manifesto:

Por um 24 de novembro político: marchemos, Nós Também, contra as violências sexistas e sexuais.

Por ocasião do Dia Internacional para a Eliminação da Violência Contra as Mulheres, o movimento Nous Toutes (Todas Nós) organiza uma marcha no dia 24 de novembro a fim de erradicar as violências sexuais e sexistas. Nós convocamos todas para que se juntem a essa marcha e para que nos organizemos ativamente em prol do seu sucesso. No entanto, as condições para esse sucesso não serão reunidas se, sob pretexto de luta contra “todas as violências sexistas e sexuais”, aquelas que estão na primeira linha dessas violências não forem colocadas no centro da marcha. Nós sabemos muito bem a que ponto nosso apagamento das lutas feministas perpetua nosso isolamento e essas violências. Com “todas nós”, nós queremos poder dizer “nós também”.

Ao dizer “nós também”, nós queremos que se escutem as vozes daquelas para quem as violências sexistas e sexuais são uma experiência inseparável do racismo, do capacitismo e da precariedade que definem nossos cotidianos: as violências sexuais que sofremos são frequentemente, para nós, o resultado último da dominação material, econômica e social em todos os aspectos da nossa vida, no trabalho, na universidade, na rua, em casa, ou frente à polícia.

Ao dizer “nós também”, nós afirmamos que o contexto atual é marcado pela expressão cotidiana do racismo, especialmente da islamofobia e da negrofobia. A eliminação da violência contra as mulheres não pode se fazer sem uma passagem obrigatória pela luta radical contra o assédio político e midiático e contra as discriminações legais que visam particularmente as mulheres muçulmanas e justificam as violências sofridas por elas. Nós denunciamos os discursos de políticos e da mídia, que insistem ferozmente em atribuir o monopólio das violências sexistas aos “Outros” e, particularmente, aos homens imigrantes, muçulmanos ou de classe popular. A França e suas instituições não ficam atrás de ninguém nesses quesitos.

Ao dizer “nós também”, nós nos posicionamos firmemente contra as políticas repressivas e racistas que visam primeiramente as mulheres migrantes, indocumentadas, estrangeiras.

Ao dizer “nós também”, nós nos asseguramos de que as lutas das trabalhadoras do sexo sejam parte integrante das lutas feministas e denunciamos, junto com essas trabalhadoras, o assédio policial do qual elas são objeto; assédio que favorece as violências cotidianas que elas têm de enfrentar.

Ao dizer “nós também”, nós queremos ainda lutar contra todas as violências que sofrem as pessoas trans e intersexo, incluindo as violências das instituições médicas e judiciárias, que continuam a exercer o controle sobre a existência dessas pessoas e as destinam à precariedade. Nós queremos ainda lutar contra as violências que sofrem as lésbicas, cis ou trans, cuja simples existência é vista como uma ameaça ao esquema “um pai-uma mãe”*, garantido e mantido pelo sistema heterossexista.

Ao dizer “nós também”, nós queremos dizer que lutaremos contra as violências sexistas e sexuais que sofrem as mulheres gordas, constantemente desumanizadas, particularmente pelas instituições médicas.

Ao dizer “nós também”, nós nos opomos às políticas liberais, aplicadas por sucessivos governos e que nos privam gradualmente de serviços e de recursos necessários para sustentar nossa vida cotidiana. Essas políticas de austeridade pesam sobremaneira na vida das mulheres precárias, sem-teto, portadoras de necessidades especiais, ou das mulheres que precisam escapar de um lar abusivo e que se encontram, por essa razão, ainda mais vulneráveis às violências.

Ao dizer “nós também”, nós queremos exprimir nossa solidariedade com todas as mulheres encarceradas, o que inclui as mulheres presas por terem se defendido contra essas violências. Para nós, é indispensável lembrar que a instituição carcerária constitui uma ameaça para boa parte de nós, por causa das nossas formas de sobrevivência, da nossa classe, nossa raça, e que nós nos recusamos a glorificar a prisão como resposta única às violências sexuais e sexistas.

Nós afirmamos também que essas violências não serão erradicadas com simples ações de pedagogia baseadas na boa vontade individual. Lutar contras as violências sexistas e sexuais significa construir uma verdadeira relação de força frente às instituições que fazem de nós alvos para os assediadores, agressores, estupradores e assassinos, sejam estes desconhecidos ou “próximos”, patrões ou parceiros.

Por um 24 de novembro político contra as violências sexuais e sexistas, Nós Também nos organizamos e marchamos!

*referência ao slogan da Manif pour Tous, mobilização da sociedade civil, apoiada pela Igreja Católica, que se opôs ao casamento para pessoas de mesmo sexo na França.

 

 

Izadora Xavier é doutoranda em Sociologia em Paris 8 e ativista feminista.

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