Nós parimos, nós decidimos

Por Celeste Mac Dougall*

De Barcelona, Espanha

Este texto foi publicado originalmente aqui pelo Tiempo Argentino, um jornal da Cooperativa “Por Más Tiempo”.

Traduzido por Elisa Rosas

Neste 8 de março, vamos parar pelo direito ao aborto legal, seguro e gratuito. O direito a decidir sobre nossos corpos não está plenamente reconhecido em muitos países, e encontra impedimentos e tentativas de restrição nos lugares onde é legalizado há décadas.

Em 2014, o ministro espanhol de Justiça Alberto Luis Gallardón, do Partido Popular, apresentou um projeto de lei que pretendia modificar a lei de aborto vigente desde 2010. Tentou voltar ao modelo de 1985, no qual a mulher que solicitava um aborto devia “refletir” mais sete dias e ter justificativa de pelo menos dois médicos que confirmassem a necessidade de intervenção. Excluídas sobre a decisão sobre seus corpos e, inclusive, consideradas incapazes de tomar decisões muito pessoais, as mulheres espanholas, catalãs e bascas saíram às ruas madrilenhas. Chegaram de diferentes cidades, no que ficou conhecido como o “Trem da Liberdade”. Foi a maior mobilização feminista da história espanhola. Gallardón renunciou ao seu cargo¹. Ganhamos a briga.

No final de 2016, a tentativa de restringir na Polônia o direito ao aborto gerou a reação de milhares de mulheres. Vestidas de preto, tomaram o centro de Varsóvia. Mais uma vez, a luta feminista triunfou. Na Itália, há poucos dias, foi realizada a Asamblea Nazionale Non una di Menos. Mais de 2000 mulheres discutiram a necessidade imperiosa de eliminar a objeção de consciência: principal trava para a efetiva garantia do aborto legal. As italianas gritavam “Separação entre a Igreja e o Estado! Estado laico!”. Enquanto uma moça jovem, com voz firme e clara, lia as conclusões da comissão de direitos sexuais e reprodutivos, três mulheres mais velhas se emocionavam e derramavam lágrimas, se abraçavam. A luta contra o patriarcado não começou agora, somos filhas do feminismo dos ’70.

Na Suécia, país que conta com uma lei de aborto consolidada há anos e sem resistências no sistema de saúde, no qual a objeção de consciência não existe nas práticas abortivas e a mulher é livre para decidir sem a imposição de condições, o direito ao aborto também está ameaçado. Com o apoio de uma organização de lobby misógino, a ADF² dos Estados Unidos (ferozes “pró-vida” que fornecem muito dinheiro), uma parteira se negou a realizar abortos, alegando sua fé cristã. No último 26 de janeiro, as mulheres e feministas suecas saíram às ruas cantando “Defenda o direito ao aborto!”.

#NiUnaMenos é um grito de luta. Porque não só mata o macho violento (várias companheiras estão fazendo uma greve de fome contra a violência machista na Puerta del Sol). Mata o Estado ao não garantir as práticas abortivas, restringi-las, recortá-las, limitá-las forçando-as à clandestinidade.

Porque #VivasNosQueremos e livres para decidir sobre nossos corpos e nossa vida. Este 8M, eu paro porque o aborto ilegal é violência estatal. Eu paro porque conquistar um direito não é uma garantia de perpetuidade. Porque é necessário defendê-los nas ruas. Porque o direito ao aborto é de todas, é internacional, este 8 de março gritaremos “nossos corpos, nossas vidas, nós parimos, nós decidimos”.

*Ativista feminista e professora

 

1. Gallardón se demite e deixa a política após a retirada da lei do aborto

2. “Alliance Defending Freedom”, organização cristã americana.

 

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