Nas entranhas do golpe: relato da conversa com Eva Maria Cella | Brasília, 09 de Janeiro de 2016

Conversa realizada por Camila B., Elisa Rosas e Luara D | Texto de Camila B., Elisa Rosas, Luara D e Leila Saraiva | Transcrição e revisão: Cecília Rosas, Camila B. e Elisa Rosas.

Em poucos meses completaremos um ano desde que a presidenta eleita, Dilma Rousseff, foi afastada do cargo. Das ruas aos trâmites institucionais, o desenrolar do golpe foi dramático, marcado pela velocidade com que novos episódios surgiam e desapareciam na mídia. Entre esses acontecimentos, a nomeação de Lula para a chefia da Casa Civil, em março de 2016 – e seu imediato impedimento – causaram reações inflamadas por todos os lados. Com o benefício do distanciamento temporal dos fatos, parte do coletivo Entranhas esteve na casa de Eva Maria, a mulher que assumiu, poucas semanas antes do afastamento de Dilma, o cargo inicialmente destinado a Lula.

Em sua casa, em Brasília, Eva nos recebeu séria, carregando consigo uma pasta cheia de documentos. De lá, puxou a carta que escreveu para a presidenta no dia em que deixava a Casa Civil. Depois de frisar a necessidade de preservação da carta como registro histórico, Eva começou a ler, emocionada, as palavras escritas em meio ao turbilhão do golpe. Esse início deu certo tom particular a toda a conversa: o de que os grandes fatos históricos podem ser reconstruídos, e talvez melhor compreendidos, a partir das pequenas lembranças individuais. A trajetória de Eva se identifica com a de muitas outras pessoas, parte de uma geração de militantes que começou a atuar nos movimentos sociais, foi incorporada pelo PT, e, por fim, deslocada da base para o governo. Visitar essa narrativa, marcada pela escolha da via eleitoral, é essencial para pensar os caminhos adotados por parte da esquerda brasileira, expandindo a possibilidade de elaborar sua crítica.

Escutar Eva falar é caminhar por um lado da política pelo qual nós, entrevistadoras, raramente passeamos. Sua fala é distinta da nossa, não só pelas divergências de posicionamento, mas também porque carrega em si outra experiência geracional. Conversamos sobre os primeiros sinais do golpe, abordamos o projeto do PT dentro e fora do Estado e os meandros da execução de políticas públicas. Refletimos sobre as dinâmicas de conciliação que marcaram o governo PT, sobre a ausência de investimento em formação política e também sobre o machismo enfrentado por nossa anfitriã no exercício de suas funções.  Optamos por fazer da conversa um relato analítico, que pudesse ir além da  transcrição do que foi dito, servindo como uma oportunidade de avaliar os processos que desembocaram no golpe que agora enfrentamos. A narrativa que se segue parte daquilo que nos foi dito por Eva e da nossa própria elaboração crítica. Ela foi construída a partir da ideia de que é possível aproveitar aberturas de diálogo para compreender os diversos prismas da esquerda. Compreender não significa concordar, mas justamente ter mais instrumentos para pensá-los para além de seus limites.

 

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É interessante escutar a trajetória pessoal de Eva Maria, entre tantos motivos, por conta dos seus evidentes paralelos com a trajetória do próprio Partido dos Trabalhadores. Tal qual o PT, Eva começou sua história política junto aos movimentos de base. Nasceu em Chapecó (SC), formou-se enfermeira sanitarista e trabalhou em uma cooperativa rural, coordenando as equipes de saúde que atendiam aos/as trabalhadores/as. Sua primeira greve, por melhores condições de trabalho, fez com que perdesse o emprego. No começo dos anos 80, Eva se envolveu com a Pastoral da Juventude no oeste de SC, onde gostava de fazer formação política e apostar nas metodologias de educação popular. Foi nesta época que apareceu em sua vida aquele que ela chama de seu “pai espiritual”: Dom José Gomes, bispo católico da diocese de Chapecó e figura marcante na resistência à ditadura militar. Em pleno momento de articulação dos movimentos pela Reforma Sanitária — que culminaram mais tarde na criação do Sistema Único de Saúde — o bispo a convidou para a coordenação da Pastoral da Saúde.

Progressivamente, Eva acompanhou uma onda de ascensão à institucionalidade que marca uma estratégia fundamental do PT: o deslocamento das organizações de base para os cargos eletivos. O percurso feito por ela também foi o de vários dos quadros que emergiram das diversas lutas travadas no contexto de redemocratização do país — a dos trabalhadores e trabalhadoras rurais, das comunidades eclesiais de base e do movimento sanitarista, por exemplo. Tratava-se de uma aposta em articular várias ferramentas de luta simultaneamente, afirma.

Nessa esteira, o caminho de Eva Maria começa no parlamento e passa para o Executivo, espaço com o qual nos conta ter  se identificado mais. Rindo, ela nos diz que é governista — mas não de qualquer governo! — porque gosta mais de ver coisas concretas sendo realizadas do que postas em palavras. No Executivo, ela ocupou diversas posições: passando pela prefeitura de Chapecó, pelo Ministério do Trabalho e pelo chamado Conselhão (Conselho de Desenvolvimento Econômico e Social da Presidência da República) — onde conta ter conhecido a miséria nordestina e percebido a arrogância do sul brasileiro, que se julga a grande força de trabalho do país. Do Conselhão, Eva foi para a chefia da Casa Civil do governo de Jacques Wagner na Bahia. De lá, seguiu para a Secretaria Executiva do Ministério do Planejamento, já de volta à Brasília. Depois foi para o Ministério da Defesa, até voltar a trabalhar com Wagner, dessa vez como secretária executiva da Casa Civil da Presidência. Uma reviravolta fez, por fim, com que Eva acabasse ocupando, no lugar de Lula, o posto de Chefe da Casa Civil, já no momento em que o golpe se consolidava.

Eva é testemunha e exemplo da história do Partido dos Trabalhadores: das formações de base para um dos mais altos postos da república. Nessa caminhada, e já afetada principalmente pelas posições que ocupou no Executivo, uma das questões que ela insiste em nos contar é a diferença entre a política do PT enquanto partido e o PT enquanto gestor do Estado. Para nossa anfitriã, as fronteiras dessa diferença parecem ter se confundido em demasiado: o governo se confundiu com o partido, o partido se confundiu com o governo. E sua visão não é a do partido, frisa, é a do governo.

A fala de Eva é enfática ao dizer que, se é bem verdade que quem está no governo possui algumas responsabilidades — e aí seu discurso caminha na direção de uma real politik[1] — é também verdade que o PT não deveria por isso se acanhar em protestar, se mobilizar contra o seu próprio governo. Pelo contrário, ela afirma: “o necessário teria sido, justamente, se posicionar em relação às medidas tomadas, sem que as críticas do partido ao governo se transformassem em uma hecatombe”. Em poucas palavras, Eva parece dizer: a militância do partido deveria ter deixado as questões da institucionalidade para alguns quadros, e seguir agindo como militância com outros. Ainda que isso não significasse se desprender de todas as amarras, assim o governo poderia  ter feito mais.

Para nós, é interessante pensar como esse dilema do projeto político de um partido que se depara com as necessidades acachapantes — e pérfidas — do funcionamento do Estado também pode nos dar indícios sobre a viabilidade um investimento central de boa parte da esquerda nas últimas décadas: a chegada aos altos postos dos governos, por meio das eleições. A conversa que tivemos com Eva, assim, é para nós ainda mais interessante se, em vez de fazer apenas uma análise crítica da atuação do PT, também nos aventurarmos a pensar o que essa experiência pode revelar sobre a aposta na chegada ao poder como principal campo de atuação de quem acredita em algum tipo de transformação social.

Ao contrário dos outros partidos que ocuparam anteriormente a presidência da república, o modelo partidário do PT foi gestado em consonância com a esquerda: não só por pautar-se na ideia de transformação social, mas por operar com e por meio da militância, pelas discussões ideológicas que se desdobram em correntes diversas, por uma aliança durante muito tempo fundamental com movimentos sociais e organizações comunitárias. Assim, ainda que se discorde dos caminhos trilhados pelo partido, não se pode por isso negar que o chamado Projeto Democrático e Popular foi um exemplo concreto da ideia de aliar uma política de organização popular à busca por posições institucionais. Em um dado momento, uma dimensão suplantou a outra, é o que nos afirma Eva: deixou-se de lado a organização de base, o próprio partido se institucionalizou.

Quando um projeto ideológico de partido e a situação de um governo e de uma gestão se encontram, as complicações são muitas, ela afirma. Como conciliar as discussões e decisões feitas dentro do partido e as disputas e regras próprias do jogo da política estatal? Os processos do governo não funcionam a toque de caixa, ela diz, e prossegue: não se assume já governando, há meandros, alianças, convencimentos a serem feitos, práticas já estabelecidas, gente que não quer deixar seus postos. Há, assim, a tal da governabilidade, como muito escutamos falar. Eva faz questão de frisar isso, relembrando uma frase de Lula: governa melhor quem não governa sozinho.

O apreço pela governabilidade — em especial se vista de fora e em retrospecto — chega a ganhar tons de ingenuidade: como, afinal de contas, Dilma confiou no Temer, no PMDB? Difícil não fazer esse questionamento e,  de fato, perguntamos isso a Eva. Sua resposta, outra vez, passa pelos meandros desta política que recusamos: ela diz que em primeiro lugar, a aliança com PMDB não era nova para o PT, ainda que tampouco tenha se mostrado exatamente confiável nos governos anteriores. Além disso, afirma que era preciso superar os diversos problemas no Congresso, as dificuldades de relação que muitas vezes eram atribuídas à própria figura da Dilma. Segundo ela, justamente quando Michel Temer assumiu a função de articulação junto ao congresso que o golpe começou a ganhar contornos mais nítidos: notícias foram plantadas na imprensa, reformas econômicas foram sabotadas, e a responsabilidade, midiaticamente atribuída a um PT já acanhado e cambaleante.

Foi então que, nos conta, optou-se por transferir uma das principais funções do governo, de notável poder, para o vice. Eva nos comenta como Temer não se fez de rogado: ao invés de aproximações, investiu na divisão da base aliada. Elegeu Cunha, trazendo para o topo da política nacional uma figura com um projeto próprio de poder. As ações de Temer e Cunha, no entanto, não são suas principais preocupações: a questão para ela é outra, a de pensar o que poderia ter sido feito, de dentro do governo Dilma, para evitar o desfecho que agora conhecemos. O erro do PT, segundo ela, foi ter caído na disputa, não ter percebido que o que estava em jogo era a escolha entre um projeto de governo e um projeto de partido. Ao contrário do que muitos de nós diríamos, Eva parece considerar que o maior equívoco do partido foi não ter se aberto ainda mais à alianças e negociações com as figuras que ascenderam nos últimos anos, não ter proposto alguma espécie de conciliação de forma a, pelo menos, finalizar o último mandato. Uma possibilidade, segundo ela, teria sido um acordo em relação à presidência da Câmara, que ficaria por dois anos com o PT e os outros dois com a base aliada. O PT, por sua vez, ainda que traga em seus princípios o nome  “socialismo”, é um partido de reformas bastante simplórias (se comparadas com projetos revolucionários). Sabemos disso, mas é bom ouvir de alguém que está no front dessas reformas e enfrenta processos complexos para implementá-las. A conciliação e as alianças controversas fazem parte essencial da estratégia escolhida pelo PT.

A fala de Eva provoca incômodo, não há dúvidas. Uma das principais críticas ao governo PT, feita à esquerda, passa justamente por um questionamento das excessivas alianças, da abertura extrema aos jogos da política e dos políticos estabelecidos. Por outro lado, vinda de outro lugar — do lugar de quem se preocupa com a manutenção de uma gestão e dos projetos sociais —  sua fala parece nos apontar para um limite do próprio projeto: de fato, quando a governabilidade pareceu se esfacelar, o governo não se manteve. A incomensurabilidade parece maior do que os erros de estratégia, parece ser intrínseca às escolhas feitas: há que se decidir, ou se governa com eles — e qualquer pretensão de esquerda vai se desmontando, mais cedo ou mais tarde — ou não se governa. Por outro lado, frente ao apelo retrospectivo que ela faz à mobilização do partido, contraditória em boa parte com uma hegemonia discursiva petista que afirma que qualquer crítica ao governo é “fazer o jogo da direita”, fica também a dúvida se algum partido chega de fato ao poder, dentro dos limites desse sistema, sem deixar para trás o que o constitui enquanto uma força transformadora, não institucional, capaz de balançar a ordem vigente.

 

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Sobre os últimos dias na Casa Civil, Eva conta que nos próprios ministérios vários cruzaram os braços, fazendo uma “greve branca”. Havia uma postura de quem já não se importava e ela nos relata um clima de espera da queda de Dilma que travou muitos processos. Ainda assim, conta que houve um esforço oficial para aprovar várias questões que já estavam engatilhadas, a exemplo da demarcação de algumas terras indígenas. Sobre essa e outras questões, Eva nos descreveu o que chama de grande esforço necessário para que uma política pública seja concretizada. Os meandros das negociações dentro de um país federalista imenso, em um governo que diz ela, rindo, parece mais de colisão que de coalizão. Nossa conversa rende várias anedotas sobre os espaços vividos por Eva no Executivo. Em uma delas, conta como teve de montar uma reunião para fechar um acordo ao mesmo tempo em que ia ao casamento da sobrinha. A possibilidade de chegar a um acordo dentro do governo não poderia esperar os compromissos pessoais.

Conversando sobre as contradições imbricadas no processo do golpe, a questão econômica e de classe é levantada. Perguntamos sobre as relações entre a política de conciliação e os subsídios ao empresariado. Eva nos responde lembrando a quantidade imensa de dinheiro que, na última década e meia, foi injetado na indústria nacional, em ciência e tecnologia e no agronegócio. Esse volume de recursos é maior do que qualquer governo anterior já deu a empresários, faz questão de ressaltar. A esse respeito, comenta que Kátia Abreu, ao contrário de muitos de seus pares empresários e de partidários, é muito coerente. A afirmação, ainda que nos cause certo frio na espinha, é uma evidência acerca do projeto de país que Dilma levava a cabo. Eva acredita no ódio de classe como elemento fundamental para o golpe. Mas, se os setores empresariais nunca receberam tanto dinheiro, quais seriam então os motivos para o esgotamento da parceria?

Eva defende ferrenhamente que um Estado forte, que insere os pobres no acesso aos recursos básicos, incomoda a elite. Para ela há uma divergência essencial entre o projeto do governo que fez parte e o projeto defendido por uma elite arcaica, encastelada inclusive dentro do poder parlamentar. Essa divergência, que poderia ser teorizada nos debates entre neoliberais e desenvolvimentistas, se coloca sobretudo no que deve ser o papel do Estado. Sobre a noção de desenvolvimento, Eva recupera Celso Furtado para dizer que o desenvolvimento ou serve para incluir os pobres ou então não deve ser chamado assim. Nesse sentido, a fala de Eva é de fato um espelho do governo Dilma: os efeitos desse desenvolvimento à indígenas e quilombolas, inclusive os de mega-projetos como o de Belo Monte, não são problematizados, apesar das consequências massacrantes àquelas populações. Belo Monte é vista como mais uma tarefa árdua pela qual se teve que trabalhar e que felizmente saiu; a ínfima quantidade de terras demarcadas é relativizada enquanto uma dificuldade de procedimento, ou a partir da delicadeza de conflitos mais complicados do que parecem, envolvendo também “gente lascada”, como os garimpeiros. O exclusivo recorte de classe do desenvolvimentismo, mesmo de esquerda, mais uma vez condena à morte modos de vidas outros.  

Segundo Eva, no entanto, o avanço do modelo a partir da ascensão do PT ao Executivo federal incomodou parte da elite, que não se conforma com o fato do pobre não ser mais dependente, que possa ter acesso ao ensino superior, questionar, andar de avião. Ela cita os avanços nos direitos das empregadas domésticas — uma das maiores categorias do Brasil — e, obviamente, o Bolsa Família, programa que, concordamos, é um dos alvos centrais dos discursos de ódio no país. Todo esse processo, no entanto, sempre foi acompanhado por uma política de conciliação de classes. Porque então o golpe só veio agora?

A entrevistada menciona que em 2006, à época do mensalão, o PSDB tentou dar um golpe em Lula. No entanto, a conjuntura marcada por um consenso em torno da figura do presidente — somado a certa estabilidade econômica — impediu que tais planos se consolidassem. Já em 2016, esse movimento se viu possível e fortalecido pelo desgaste de Dilma. Para Eva, auxiliado por um trabalho incansável da mídia hegemônica, tal desgaste se deu sobretudo devido às políticas econômicas.  Entre as medidas que Eva considera equivocada — e nós concordamos — está a desoneração fiscal. A prática de reduzir os impostos para os setores produtivos, ou seja, para a classe patronal, é vista pelos defensores da austeridade como medida essencial de estímulo à economia, desembocando naturalmente na criação de mais empregos. Essa medida seria uma espécie de acordo entre o governo e o empresariado: um deixa de arrecadar e o outro se compromete a criar mais empregos. A contrapartida, no entanto, parece não ter sido efetivada pelo empresariado. O governo, por sua vez, deixou de arrecadar centenas de bilhões de reais que poderiam ser convertidos em programas sociais, por exemplo. Há um elemento central aqui, pelo qual passamos brevemente na entrevista, mas que merece aprofundamento: a importância do crescimento do setor financeiro no país, estimulado também pelas políticas da era Lula/Dilma no poder. Os juros altos fazem com que a especulação financeira se torne um negócio muito mais atrativo do que, por exemplo, o desenvolvimento da indústria.

Por outro lado, se o ódio de classe motivou o golpe, por que os pobres por quem o governo haveria trabalhado não se mobilizaram para defendê-lo? Eva nos afirma que faltou por parte do governo um esforço para “explicar o que estava sendo feito”. Nesse momento, ela nos cita uma pesquisa, na qual se conclui que 90% das pessoas atribuem o sucesso econômico à Deus, não ao governo ou a qualquer política pública. Essa falta de apoio popular estaria, assim relacionada ao abandono da formação política pelo PT. Nesse ponto, Eva  cita a reforma da mídia e, como uma coisa leva a outra, também menciona a reforma política, e ela nos leva a imaginar se alguma vez haverá novamente um cenário tão favorável para realizá-la quanto nos primeiros anos do governo Lula.

 

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O golpe, em todo seu percurso, foi acompanhado por um discurso machista, mobilizando argumentos que seriam impensáveis caso o presidente fosse homem. Não por acaso, uma das primeiras polêmicas do governo golpista foi a falta de mulheres no primeiro escalão. Neste contexto, não poderíamos deixar de abordar, ainda que de forma mais breve, a questão de gênero. Eva era conhecida como Dilma da Bahia por seu jeito “durão” durante o tempo que passou na Bahia com Jacques Wagner. Quando mencionamos sua fama, ela ri e menciona a citação do José Simão [2]. Fala das seguidoras de Simone de Beauvoir no Brasil, que defenderiam a questão de gênero como principal, sem considerar a questão de classe. Para ela, há lutas que não se pode fazer com as mulheres da elite. Neste momento lembramos da Kátia Abreu, que consideramos ser uma das alianças mais esdrúxulas de Dilma. Eva ri, e faz uma comparação entre a fidelidade da Kátia Abreu e da Marta Suplicy, ponderando sobre as trajetórias e contradições de cada uma.

Ela conta que não acredita que o machismo tenha sido elemento essencial do golpe, mas que não é de forma alguma algo ausente da vida das mulheres no poder. Entre anedotas e casos com figurões, como ministros e assessores, se nota e se confirma aquela velha necessidade de não abrir brechas para que os homens te desqualifiquem. As “pisadas no tomate” de um homem que ocupa um cargo alto — principalmente conversar com a presidente sem conhecimento real  da situação — diz ela, são mais que comuns, mas é nos detalhes que eles aproveitam para desqualificar as mulheres. Se mantém a necessidade do olhar alerta, do monitoramento e do alto padrão de exigência, o que afirma ser uma qualidade sua, e também de Dilma.

 

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Agora, com o golpe consolidado, quando assistimos diariamente nossa perda de direitos, e quando também o cenário da política nacional ganha ares ficcionais, nos perguntamos mais uma vez: para onde vamos? E talvez essa conversa tenha servido exatamente para aprofundarmos questões importantes, de forma franca e sincera, postas assim, em colisão. Questões por vezes geracionais, já que também nos reconhecemos como fruto de processos históricos, sem acreditar que isso é destino, mas sim enquanto uma contínua possibilidade de intervir na realidade pelos mais diferentes caminhos.

Questionamos esse projeto de governo implementado pelo PT nas últimas décadas, já que o vemos como resultado de um acúmulo de forças da classe trabalhadora ao redor de um partido de massas. Para nós, não se pode esquecer que essa força conquistada pelo partido foi justamente construída pela sua base e não pela sua direção. Essa mesma direção que, na última sexta-feira (20/01), aprovou o apoio do PT às candidaturas de Rodrigo Maia (DEM) para a Câmara e de Eunício Oliveira (PMDB) para o Senado. O golpe segue seu curso e parece que disso o PT não tira as devidas lições, talvez para nos lembrar enfaticamente que fomos nós as/os golpeadas/os. Que o poder, afinal, se exerce nas pontas: se é verdade que uma presidenta que caiu, o que está em jogo é um outro projeto baseado essencialmente em que o povo pague todas as contas, enquanto o capital fica com os lucros. Tudo isso baseado em um discurso tecnicista e subserviente, “não pense em crise, trabalhe”. Um discurso que reafirma: “medidas ruins, mas necessárias”.

Nesse sentido, Eva também problematiza e crê que a técnica é necessariamente política: afirma “o que se chama de ‘técnico’ é neutro, é para a elite. O que se chama de ‘político’ é ruim porque é para os pobres ”. Ou seja, num cenário de crise econômica, por exemplo, a decisão de quem onerar é uma decisão política que o governo justifica com dados. Mas ao mesmo tempo, não deixamos de lembrar como a matemática da governabilidade por vezes também foi utilizada, juntamente com os infinitos dados econômicos e números, para justificar uma série de decisões tomadas pelos governos do PT. Embora haja crítica na fala de Eva, há também continuidade nas ações dos governos Lula e Dilma e na postura adotada atualmente por Temer.

Por fim, a aposta de Eva para superar esse momento sinistro de nossa história gira ao redor de Lula enquanto promessa eleitoral para 2018. Segundo Eva, é em sua proteção e projeção que a militância do PT deve focar os esforços, além de pressionar por uma reforma política. Para nós, o rumo continua sendo o das ruas, de forma a brecar os avanços da direita em suas mais diversas formas. Para nós, o papel de movimentos sociais não deve ser o de proteger qualquer governo, mas o de enfrentar quem quer que esteja acima, de forma a garantir que nossos direitos se multipliquem e que organizações autônomas e diversas continuem produzindo rupturas na ordem vigente.  

[1] O termo diz respeito a uma prática política pragmática, que se afasta de noções ideológicas e morais

[2] Em sua coluna, Macaco Simão diz : Eva Chiavon, apelido Dilma da Bahia. Porque tem pavio curto! Junta com a outra de pavio curto! Explode o Planalto! Querem implicar a Dilma, mas agora são duas Dilmas. Dobramos a meta!

 

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Análise Política feita por mulheres de esquerda

3 thoughts on “Nas entranhas do golpe: relato da conversa com Eva Maria Cella | Brasília, 09 de Janeiro de 2016

  1. O incrível é que em um texto tão longo sobre a atuação de um partido que nasceu da defesa da ética na política não haja uma única referência, sequer indireta, à corrupção. Por que será?

    1. João, acho que o debate em torno da corrupção não era o foco da entrevista por um motivo muito simples: se você procurar por aí vai encontrar centenas de artigos que tratam desse tema. Somos um portal alternativo que busca, dentro do possível, abordar questões que ainda não foram tão bem exploradas.

  2. A questão da esquerda ou setores ditos de esquerda no poder dentro do sistema dominante versus a abdicação da luta pelas mudanças estruturais , tratada de modo muito interessante. E também por uma mulher. Ver http://jornalggn.com.br/noticia/a-eleicao-de-donald-trump-e-o-fim-do-neoliberalismo-progressista-por-nancy-fraser
    Como diz o Safatle; hora de parar. O que vai contra a lógica do governo, do “tem que dar uma resposta”.
    Exemplo da crise do sistema prisional. Tem que parar e fazer um debate pra valer, das causas da superlotação, da questão da política antidrogas, etc .etc.

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