Marcha das mulheres nos EUA contra Trump: Quando o feminismo caminha, para onde vai?

Entranhas convida: Texto e fotos de  Lorena Mansilla

 

As ruas dos centros das cidades dos Estados Unidos foram tomadas pela Marcha das Mulheres (Women’s March). Milhões de pessoas se mobilizaram nesta manifestação histórica, na qual houve grande repúdio ao novo presidente dos Estados Unidos, Donald Trump. Nela, se pronunciaram a favor da continuidade dos direitos reprodutivos, pelo cuidado com o meio ambiente, contra o racismo, a misoginia e a homolesbotransfobia.

 

Mulheres de todas as idades, de todas as cores e de diferentes nacionalidades estavam presentes. São diversas, porque este país é assim. Mulheres muçulmanas, mulheres chicanas, mulheres brancas, mulheres indígenas, mulheres negras, mulheres latino-americanas. Lésbicas, mulherescis e trans. Muitas iam com suas amigas, outras com suas famílias. Meninas que foram pela primeira vez a uma manifestação e mulheres que saíram a décadas atrás para conquistar o o direito ao aborto. Todas estavam presentes e sabiam que estavam fazendo história no movimento feminista.

 

(Oakland, Califórnia)
 

O que se viu nas ruas era um pouco diferente do ato oficial, com sede em Washington. Enquanto no cenário do evento subiam artistas consagradas, senadoras, prefeitas e parlamentares do Partido Democrata e representantes de organizações não-governamentais, nas ruas se via raiva, cartazes que não tinham papas na língua, indignação e até, às vezes, demonstração de que a democracia não é somente votar em dois únicos partidos. É por isso que uma das palavras de ordem que predominava nas ruas era “Essa é a cara da democracia”.

 

Nos Estados Unidos, o feminismo branco e liberal é forte, e estes acontecimentos facilmente podem por cooptados. Por isso, é necessário que a população indignada estadounidense ouça, apoie e ponha em prática outros tipos de opiniões com uma perspectiva anticapitalista, antiheteropatriarcal e anticolonial. Angela Davis, professora e ex-Pantera Negra, é uma das vozes deste tipo de pensamento.

 

Felizmente, entre tantos discursos mornos do evento principal em Washington, Davis conseguiu discursar no palco, dizendo a milhões que: “Nos próximos meses e anos seremos chamadas para intensificar nossas demandas por justiça social, para que sejamos mais militantes em nossa defesa, da população vulnerável. Aqueles que ainda defendem a supremacia masculina, branca e heteropatriarcal: Tenham cuidado!” Também afirmou que devemos construir “um feminismo inclusivo e interseccional, que convida todxs a nos unirmos à resistência ao racismo, à islamofobia, e ao antisemitismo, à misoginia e à exploração capitalista”.

 

(Oakland, Califórnia)

 

A indignação e a fúria foram sentidas neste último sábado, 21 de janeiro, nas ruas. Foi demonstrada com cantos e cartazes que falavam da queda do patriarcado, do inverossímil que é ter Donald Trump como presidente, da defesa do meio ambiente e a favor da imigração. Mas pode-se observar que, no geral, não há uma crítica direta ao capitalismo em si. Pela história dos próprios Estados Unidos, com antecedentes de escravidão e migração, é levada mais em consideração a questão racial e, às vezes, fica de lado a crítica capitalista. Como em alguns lugares do mundo funciona ao contrário, onde enchem a boca falando dxs trabalhadorxs sem fazer uma interpretação de que a dominação e a exploração de outros povos, o racismo e o patriarcado, foram forças que funcionaram em uníssono para que nossas sociedades estejam como estão agora. Assim, é necessário no mundo inteiro que se realizem essas leituras para poder pensar em mudanças.

 

No entanto, ver que centenas de milhares cantavam palavras de ordem como “Contra o Trump”, “Contra a KKK”, “Contra o fascismo nos EUA”, “Os direitos das mulheres são direitos humanos”, “Meu corpo, minha escolha”, entre outros, foi um oásis no deserto. Também era enunciada a palavra: “organização”. E esse é o desafio da população descontente nos Estados Unidos. Depois desta marcha, as mobilizações do dia da posse do Trump e o futuro padecer que será este novo governo mais à direita, mais racista, com um presidente arrogante e misógino, como as pessoas vão se organizar? O Partido Democrata vai monopolizar toda a atenção como oposição ou vai aparecer uma maneira diferente de ver e exercer a política nos Estados Unidos?

 

(Oakland, Califórnia)
 

Lorena Mansilla é jornalista, comunicadora popular, ativista do feminismo e argentina. Atualmente reside nos Estados Unidos.
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Análise Política feita por mulheres de esquerda

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