Grupo de mulheres contra Bolsonaro é uma novidade potente sobre a qual predomina o silêncio

Por Camila Maia

O grupo Mulheres Unidas contra Bolsonaro tem neste instante 3.885.360 membros. Deve chegar aos 4 milhões, sem contar os outros grupos que se multiplicaram enquanto este estava sendo hackeado pelos minions.

Ainda não vi nenhuma análise mais detalhada sobre esse grupo, provavelmente porque, como bem nota a maravilhosa Rosana Pinheiro-Machado, “os analistas” são quase todos homens e não estão no grupo – um dos únicos critérios que as organizadoras têm conseguido usar com efetividade para filtrar os participantes e evitar ataques é o de gênero, nenhum homem é aceito. Por exemplo, ainda não vi ninguém assinalar como um fato importante que o grupo foi criado por Ludimilla, uma mulher negra de Salvador, ou interpretar o que isso significa. Qual é a história da Bahia com o feminismo? Como se dá o bolsonarismo na região metropolitana de SSA? E por que ninguém se faz essa pergunta tão básica para entender como chegamos às manifestações de sábado? Hoje sugeri à querida Natália Cordeiro Guimarães, que organizou o ato de Recife, que escreva sobre ele. Minha impressão é que o nordeste está muito bem representado nessa movimentação e que sábado foi histórico para muito além do eixo Rio-SP. Mas aí vem uns pesquisadores fazer entrevista no ato de SP em pleno largo da batata e concluir: são todos paulistas! (jura?). E ainda sai na BBC.

Outra coisa importante que sim estão dizendo (ainda que nem todo mundo esteja pronto para ouvir) a Rosana e a Joanna Burigo é que “isto não é hashtag”- nem um grupo de Face. Ou seja, o movimento atravessa o mundo físico e o virtual, mas também, pela sua própria natureza, atravessa o privado e o público. O engraçado é que não é preciso enorme sofisticação teórica para perceber: basta uma olhada rápida nas mensagens do grupo.

Hoje vi dois relatos de mulheres que mudaram votos de eleitores do Bolsonaro – uma do companheiro, outra do pai. Essa última moça é uma mulher negra da região metropolitana de Recife. A postagem é uma foto dela com o pai sorridentes e uma legenda “um bolsominion a menos”, e tem mais de 70 mil curtidas no grupo.

Também hoje a mãe de uma menina de 11 anos relatou que foi verbal e fisicamente agredida por um eleitor de Bolsonaro e teve que fazer queixa na delegacia da mulher. Ela é negra, de Salvador e o agressor é seu irmão. Mais de 5 mil mulheres já comentaram a postagem em apoio a ela.

Uma outra moça de uma cidade de 70 mil habitantes do interior de São Paulo, faz uma postagem dizendo que o cara com quem estava saindo há 4 meses, eleitor de Bolsonaro, terminou com ela por causa das eleições. Que tudo caminhava bem até ela começar a se manifestar publicamente contra Bolsonaro, pelas redes sociais. Ela pergunta se isso aconteceu com mais alguém e o que pensam as mulheres no grupo. Enxurrada de respostas.

Esses foram exemplos coletados agora, posts das últimas horas. Ao partir de variáveis como ‘esquerda’ vs. ‘direita’, ‘militantes de partidos’ vs. ‘despolitizados’, ‘elite’ vs. ‘povo’, ‘antipetismo vs. petismo’, os analistas tradicionais de eleições não conseguem entender como o feminino atravessa essas distinções e as dilui, torna mais complexas ou reinventa. A política entre as mulheres tem um tom pessoal e íntimo; de desabafo, de apoio mútuo. Nas redes e fora delas.

O Bolsonaro para as mulheres não é, assim, só um candidato. É uma força concreta, que afeta as suas relações na sociedade, as suas relações pessoais e familiares, especialmente com os homens, sua liberdade e existência. Quando uma moça posta no grupo sobre os ataques virtuais ou físicos de eleitores do Bolsonaro, não se trata um “argumento contra o candidato”. Se trata de uma compreensão muito mais profunda, prática, do perigo que está diante de nós. É esse tom que permite que eleitoras do Boulos, Amoêdo, Marina e cabo Daciolo se entendam. Que mulheres do Sul, Nordeste, interior e grandes cidades se reconheçam.

A política entre mulheres é de fato uma outra política. E é uma honra ser mulher para ver e viver isso em primeira mão, dispensando a mediação dos intérpretes da realidade e seus equívocos.

 

*Esta postagem foi originalmente publicada no dia 1o de outubro, antes de saírem as últimas pesquisas do IBOPE e Datafolha. O preocupante resultado das pesquisas, que apontam para um crescimento do candidato, não altera em nada o argumento. O movimento seguirá existindo e se tornará uma necessidade cada vez maior para as mulheres à medida que cresça o bolsonarismo. Quando à possibilidade de que tenha um impacto nas eleições, isso dependerá de muitos fatores, entre outros, de que consiga furar o boicote da mídia e de que tenham fim outros boicotes, provenientes de homens das nossas próprias fileiras.

 

Camila Maia, 31, é ativista de direitos humanos e mora em São Paulo. É formada em Relações Internacionais pela UnB e mestre em gestão pública (FGV).

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