Feminismo pacifista ou passivista?

Por Dilar Dirik*

Texto publicado originalmente em 7 de março de 2017 aqui.

Traduzido por Elisa Rosas, revisado por Cecilia Rosas.

Amanhã é o Dia Internacional da Mulher. Frente ao aumento do feminicídio, da violência sexual e da cultura do estupro, precisamos nos confrontar com a questão da autodefesa das mulheres.

Manifestação do #BlackLivesMatter
em 13 de fevereiro de 2017, em Nova York.
Crédito: Erik McGregor/PA Images

Quando algumas mulheres brancas comemoram a não-violência da marcha das mulheres contra o Trump e posam para fotografias com policiais, enquanto a violência policial mira especificamente pessoas negras, quando pessoas que socam nazistas são acusadas de não serem diferentes dos fascistas, quando feministas em relativa segurança acusam de militaristas as militantes do Oriente Médio que confrontam a escravidão sexual do ISIS, precisamos problematizar a noção liberal de não-violência, que ignora sistemas de poder e mecanismos de violência estrutural. Ao se apegar dogmaticamente a um pacifismo (ou passivis-mo?) ligado à classe e à raça, e demonizar a raiva e violência antissistema, as feministas se excluem de um debate muito necessário sobre formas alternativas de autodefesa, cujo objetivo e estética serve à política liberacionista. Em uma era global de feminicídio, violência sexual e cultura do estupro, quem pode se dar ao luxo de não pensar na autodefesa das mulheres?O feminismo cumpriu um papel importante nos movimentos antiguerra e conquistou vitórias políticas na construção da paz. A crítica feminista ao militarismo como instrumento patriarcal torna compreensível a recusa em considerar “empoderadora” a participação feminina em exércitos de Estados. Mas a rejeição geral das feministas liberais à violência das mulheres, independentemente do objetivo, deixa de distinguir qualitativamente entre o militarismo intervencionista, estatista, imperialista e colonialista, e autodefesa legítima e necessária.

Polícia atira com armas não letais
para dispersar os protestos do #BlackLivesMatter,
em 9 de julho de 2016, em Saint Paul.
Protesto contra o assassinato de Philando Castile pela polícia.
Crédito: Annabelle Marcovici/PA Images

O monopólio da violência como uma característica fundamental do Estado o protege das acusações de injustiça, enquanto criminaliza os instintos básicos do povo de autopreservação. Dependendo da política e da estratégia, os atores não-estatais são rotulados como “desordeiros”, no melhor dos casos, ou “terroristas” no pior. A tendência a utilizar exemplos como Mahatma Gandhi ou Martin Luther King como exemplo de resistência não-violenta frequentemente embaça os fatos históricos ao ponto de higienizar a os  elementos radicais e às vezes violentos de legítima resistência anticolonial, ou antirracista.

Simultaneamente, a associação tradicional da violência com a masculinidade e a exclusão sistemática das mulheres da política, da economia, da guerra e da paz reproduz o patriarcado por meio de uma divisão de papéis na esfera do poder. A crítica feminista à violência se baseia em um raciocínio bem intencionado de uma moralidade baseada em gênero, porém profundamente essencialista, que também retrata as mulheres como passivas, inerentemente apolíticas, e que necessitam de proteção. Esse reducionismo de gênero não entende que a inclinação à violência não é inerente ao gênero, mas determinada por sistemas interconectados de hierarquia e poder, como o que demonstra o caso de norte americanas brancas torturando homens iraquianos na prisão Abu Ghraib.

As mulheres curdas têm uma tradição da resistência, sua filosofia de autodefesa vai de exércitos e guerrilhas autônomas de mulheres ao desenvolvimento de cooperativas autogeridas de mulheres. Nos últimos anos, as vitórias das Unidades de Defesa das Mulheres (YPJ) em Rojava, norte da Síria e das Guerrilhas YJA-Star do Partido dos Trabalhadores do Curdistão (PKK) contra o ISIS foram inspiradoras. As mulheres curdas, junto às suas irmãs árabes e sírias cristãs, libertaram milhares de quilômetros do ISIS, criando cenas da beleza de mulheres libertando mulheres. Ao mesmo tempo, elas também estavam construindo as fundações de uma revolução das mulheres dentro da sociedade. No entanto, algumas feministas ocidentais questionaram sua legitimidade e desprezaram como militarismo ou cooptação por grupos políticos. A narrativa da mídia ocidental retratou essa luta de uma forma despolitizada, exótica, ou generalizando suposições sobre uma falta de inclinação natural das mulheres para a violência. Se a cobertura da mídia estava dominada por um olhar masculino, em parte foi pela recusa das feministas em se engajar neste tópico relevante. Não podemos deixar de pensar que um dos motivos para essa hostilidade, é o fato de que as mulheres militantes assumirem seus assuntos com suas próprias mãos prejudica a capacidade das feministas ocidentais de falar em nome das mulheres do Oriente Médio, projetadas como vítimas indefesas.

Crédito: YPJ Media Team

A luta das mulheres curdas desenvolveu uma filosofia de autodefesa centrada nas mulheres e está situada em uma análise intersecional do colonialismo, racismo, da noção de estado-nação, capitalismo, e patriarcado. A Teoria da Rosa é parte de um pensamento político do líder do PKK, Abdullah Öcalan, que defende assumidamente a liberação das mulheres. Ele sugere que para chegar a formas de autodefesa não estatais, não precisamos olhar para nada além da própria natureza. Cada organismo vivo, a rosa, a abelha, tem seus mecanismos de autodefesa para se proteger e expressar sua existência — espinhos, ferrões, dentes, presas, etc — não para dominar, explorar ou destruir desnecessariamente outras criaturas, mas para se preservar e satisfazer suas necessidades vitais. Entre os humanos, sistemas completos de exploração e dominação perpetuam a violência para além da sobrevivência física. Para deter esse abuso de poder, a autodefesa legítima precisa ser baseada em justiça social e éticas comunais, com respeito em particular pela autonomia das mulheres. Se abandonarmos as noções de darwinismo social de sobrevivência e competição, que sob a modernidade capitalista atingiram dimensões mortíferas, e nos focarmos na interação da vida nos sistemas ecológicos, podemos aprender com as formas de resistência da natureza e formular uma filosofia de autodefesa. Para lutar contra o sistema, a autodefesa precisa aderir à ação direta, à democracia participativa radical e à autogestão das estruturas sociais, políticas e econômicas.

Lado a lado com o Confederalismo Democrático, liderado pelo movimento de libertação curda, um sistema autônomo de Confederalismo Democrático das Mulheres construiu milhares de comunas, conselhos, cooperativas, academias e unidades de defesa no Curdistão e além. Por meio da criação de uma comuna autônoma de mulheres em uma vila rural, a identidade, a existência e vontade dos seus membros coloca em prática sua expressão e desafia a autoridade do Estado patriarcal e capitalista. Além disso, a autonomia econômica e a economia comunal baseada na solidariedade por meio do estabelecimento de cooperativas são cruciais para a autodefesa da sociedade, uma vez que garantem que se sustentem com o mutualismo e as responsabilidades compartilhadas, rejeitando a dependência do Estado e dos homens. O cuidado com a água, a terra, as florestas, a herança histórica e natural são partes vitais da autodefesa contra o estado-nação e a destruição do meio-ambiente com o objetivo de lucrar.

Defender-se também significa ser e conhecer a si mesmo. Isso implica superar a produção de conhecimento sexista e racista promovida pela modernidade capitalista, que exclui os oprimidos da história. A consciência política constitui uma luta contra a assimilação e alienação da natureza, e contra as políticas de Estado genocidas. A resposta ao modo positivista, masculino e colonial de escrever as ciências sociais e a história é, então, a criação de academias de mulheres de base que promovam epistemologias liberacionistas.

Uma luta sem ética não conseguirá proteger a sociedade. Aos olhos das combatentes curdas, o ISIS não será derrotado por armas, mas somente por uma revolução social. É por isso que as mulheres Yazidi, após viverem um genocídio traumático comandado pelo ISIS, formaram um conselho autônomo de mulheres pela primeira vez na história com o lema “A organização das mulheres Yazidi será a resposta para todos os massacres”, juntamente com as organizações militares de mulheres. Em Rojava, em conjunto com o YPJ, até as avós aprendem a usar a AK47, e revezam entre elas a responsabilidade de proteger suas comunidades dentro das Forças de Autodefesa (HPC), enquanto milhares de centros, cooperativas, comunas e academias de mulheres buscam desmantelar a dominação masculina. Contra a guerra do Estado turco hipermasculino, e através de sua mobilização autônoma, as mulheres curdas constituem um dos principais desafios ao governo de um homem só de Erdogan. Mulheres de diferentes comunidades se uniram a elas para construir alternativas à dominação masculina em todas as esferas da vida. Um conceito alternativo de autodefesa que não reproduz o militarismo estatal deve ser, claro, antinacionalista.

YJÊ é uma milícia composta somente por mulheres,
formada no Iraque em 2015 para proteger a comunidade Yazidi
no Iraque e no Curdistão Iraquiano.
Crédito: Wikicommons

Ao contrário da violência que busca subjugar o “outro”, a autodefesa compreende a completa dedicação e responsabilidade com a vida. Existir significa resistir. E para existir de forma significativa e livre, é preciso ser politicamente autônomo. Para expressar de forma franca, em um sistema internacional de violência sexual e racial, legitimado por estados-nações capitalistas, o grito por não-violência é um luxo de quem se encontra em uma posição privilegiada de relativa segurança, e acredita que nunca passará por uma situação em que a violência será necessária para sobreviver. Ainda que em teoria pareça sensato, o pacifismo não diz nada  para a realidade das massas de mulheres e, assim, assume um caráter bastante elitista de primeiro mundo.

Se nossa reivindicação por justiça social é genuína, em um sistema mundial de formas de violências cruzadas, precisamos revidar.

*Sobre a autora

Dilar Dirik é do norte do Curdistão (Turquia). É uma ativista do movimento de mulheres curdas e escreve sobre a luta curda para um público internacional. Atualmente faz doutorado em Sociologia na Universidade de Cambridge.

 

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