“Ei, burguês, a culpa é de vocês” – relato de uma experiência no Quarto Grande ato contra o corte do passe livre – SP

“Caminhando pela noite de nossa cidade
Acendendo a esperança e apagando a escuridão
Vamos, caminhando pelas ruas de nossa cidade
Viver derramando a juventude pelos corações
Tenha fé no nosso povo que ele resiste
Tenha fé no nosso povo que ele insiste
E acorda novo, forte, alegre, cheio de paixão
Vamos, caminhando de mãos dadas com a alma nova
Viver semeando a liberdade em cada coração
Tenha fé no nosso povo que ele acorda
Tenha fé em nosso povo que ele assusta
Caminhando e vivendo com a alma aberta
Aquecidos pelo sol que vem depois do temporal
Vamos, companheiros pelas ruas de nossa cidade
Cantar semeando um sonho que vai ser real
Caminhemos pela noite com a esperança
Caminhemos pela noite com a juventude” 

( “Credo” – Milton Nascimento e Fernando Brant)

 

 

Comecei a minha viagem à São Paulo na sexta (11/8), final da manhã. Seria uma viagem rápida, apenas um fim de semana. Nas correrias que uma viagem como essa implica, respirei aliviada quando cheguei na sala de embarque e tudo havia dado certo. Não durou muito tempo. Saída de Brasília, sexta-feira, cerca de uma hora da tarde. Enquanto eu procurava meu cartão de embarque, o comissário de bordo avisa que há passageiros prioritários, que devemos aguardar um pouco mais. Olho despreocupada para cima, interrompendo a busca do cartão. Estão ali, os passageiros prioritários: José Serra (mais vampiresco ainda pessoalmente); Eunício Oliveira (!!!!) e, logo atrás, Paulo Octavio (ele não tava preso?). Nossa, que mau agouro, penso eu, ainda um pouco lívida com as minhas companhias de voo. Rapidamente, telefono, converso com meus companheiros/as. O que fazer numa situação como essa? Posso torcer para o avião cair (e aí incluir a minha queda como sacrifício revolucionário)? Cuspir, jogar café frio (um compa sugeriu essa, disse que não seria crime)? Gravar um vídeo, criar um ambiente constrangedor?

Passei as 1h20 de voo pensando nessas opções e, fato, terminando por não fazer nada ao final. Uma hora e vinte de angústia, em que, sem dúvida, eu sofri mais do que eles – impávidos diante de suas funções, dos fins de mundo que criam. Senti falta da minha juventude, num impulso de achar que, sendo mais jovem, algo teria feito. Será? Não sei.

Mas eu dizia que chegava a São Paulo apenas para o fim de semana. Porém, logo antes de ir, soube que os/as estudantes secundaristas estavam organizando um ato contra a restrição do Passe livre estudantil, mais um ataque do atual prefeito de São Paulo, quiçá futuro presidente do Brasil, João Dória. Dória, como bom prefeito fundamentalista de mercado, propõe contínuas restrições a direitos já conquistados, com a velha e eficiente desculpa da crise. Como prefeito empresário/marketeiro que é, não chama corte de direitos de corte de direitos, mas de “novo modelo”: as já parcas 8 viagens às quais os/as estudantes tinham direito por 24h, conquistadas com muita luta, viraram 4 viagens em duas horas e mais 4 viagens em outras duas. O corte pode parecer suave, para quem não conhece a realidade de São Paulo (enorme!) ou para quem não acha que direitos são intocáveis e devem ser sempre ampliados, nunca reduzidos. Os/as estudantes sabem, muito bem, das duas coisas.

Pois bem, depois de me perder um pouco na cidade (eu disse que era enorme!), cheguei ao ato, que já se preparava para sair. As luzes da polícia que circundavam a manifestação deixavam impossível que não soubéssemos de longe aonde ela se concentrava. Logo encontrei o compa com quem havia combinado de estar no ato, que acabara de me dizer que uma tensão entre policiais e manifestantes talvez nos impedisse de caminhar. Dei uma olhada no grupo ali reunido: atrás, bandeiras e faixas de outros partidos e organizações – do MPL-SP inclusive – na frente, a(s) organização(ões) autônomas do estudantes se preparavam para sair.Aqui, preciso fazer um parênteses.

***

Lembro quando, há 12/13 anos, começávamos o que viria a ser o MPL-DF. Naquela época, eu e meus/as companheiros/as tínhamos, majoritariamente, menos de 20 anos. Nos esforçávamos para construir uma organização que tivesse mais a ver com o que acreditávamos, inspiradas/os por um montão de coisas, mas também tentando fazer um outro tanto de coisa diferente do que víamos nisso que chamamos política.Depois de um tempo, quando começamos a lidar com as instituições em suas diversas formas – polícia, governo, mídia, partidos, academia – as reações eram as mais diversas. Tinha quem ficasse desorientado com as nossas estratégias: lembro da polícia desbaratinada quando dizia que não tínhamos líderes, da mídia indignada porque recusávamos dar entrevistas e entregávamos cartas, do governo nos chamando de acéfalos e nos classificando de grupelhos. Tinha quem nos olhava com todas as certezas: e aqui me remeto à organizações e partidos já instituídos que, ou não nos deram bola, ou nos traçaram um futuro certo, de acordo com suas próprias experiências. Houve ainda quem de fato se surpreendia com o que via: ou dizia que não vingaríamos; ou tentava nos encaixar em categorias pré-definidas; ou fazia um esforço por descrever o que de novo tínhamos (conto nos dedos). Nesse último ponto, falo das abordagens acadêmicas, bom dizer, salvo raras exceções, boa parte tendo surgido após certa proeminência do Movimento Passe Livre.

Falar das abordagens acadêmicas (poderia ser a de outras organizações/partidos) aqui me parece especialmente importantes, principalmente, por uma questão. Não dialogo aqui com quem escreveu dizendo que não vingaríamos, ou com quem achava que não tínhamos/temos o que contribuir, nos encaixando em conceitos já conhecidos. Mas penso que esse texto pode parecer um pouco com aqueles que fizeram um esforço importante de nos etnografar, de ver o que trazíamos de novidade: esses trabalhos que construíram e se dispuseram a nos ouvir, sem dúvida. Por outro lado, esses mesmos textos que, muitas vezes, não nos diziam propriamente coisas novas sobre o que vivíamos, mas nos ajudaram a elaborar o que tínhamos.

Explico, assim, a necessidade dos parênteses. Como aqueles textos, esse aqui talvez não seja propriamente para os/as secundaristas. Talvez ele não traga absolutamente de novo para eles/as, e as coisas que aqui chamo atenção lhes sejam apenas e simplesmente óbvias. Quem vai escrever as melhores reflexões sobre as questões que perturbam, incomodam, inquietam os/as estudantes, não tenho dúvida, serão eles/as mesmos/as. Esse texto, por sua vez, é apenas um relato de uma militante (semi) veterana, em outra cidade, que teve uma porção de cliques, insights, sobre o que viu àquela noite. Nesse sentido, esse texto é para você que, como eu, não é secundarista, embora os/as apoie, se encante com eles/as. Acho que ele vai ser mais útil para esse público do que pro dos/as próprios/as estudantes.

Essa opção (no meu caso, a única possível, já que o texto é fruto da experiência que tenho), traz alguns desafios. Vejo pelo menos dois: a de construir uma visão quase maternal, um encantamento abobado com o que esses e essas estudantes estão construindo; a de elaborar interpretações mais cheias de certeza, ainda que igualmente tutelares, de ver neles/as aquilo que já fomos. Quero, precisamos, resistir a esses dois caminhos.

***

Cheguei no ato curiosa para ver o que encontraria. A volta que dei foi pequena, tentando me localizar. Assim que cheguei ali, onde a frete da manifestação se encontrava, já estávamos prestes a sair. Sem grandes constrangimentos, um adolescente me perguntou: “moça, você quer dar uma ajuda e se juntar ao cordão?”. Eu não sabia o que era cordão. Mas disse sim, claro.Juntei os meus braços ao de outros que já estavam ali reunidos, fazendo uma linha de proteção para a faixa que dizia: “não ao corte do passe livre”. Não era exatamente uma linha, na verdade, mas um quadrado – entre nós do cordão e quem segurava a faixa havia um espaço vazio, que alguns/as estudantes ocupavam, puxando músicas, palavras de ordem, animando o ato. Aqueles/as que estavam próximos/as a mim estavam todo/as com rosto coberto, de forma que me adiantei para enrolar também meu cachecol em minha cara.

Demorei um pouco para entender a função do cordão, talvez porque aqui no DF não usamos essa estrutura, talvez porque seja uma novidade dos/as secundaristas, talvez ainda porque não havia tempo para entender: é difícil manter o cordão como ele deve ser, é cansativo. Não foram poucas as vezes em que um estudante, aparentemente responsável pelo nosso lado do cordão, vinha nos realinhar: “gente, vocês estão cobrindo a faixa, um passo mais adiante!”; “não pode deixar buraco!”, “ombro a ombro!”. Ouvíamos essas frases constantemente, eu mesma sem saber como resolver. O ritmo às vezes acertava, outras vezes se confundia.

Enquanto tentávamos a todo custo manter o cordão reto, me impressionava os gritos que ouvíamos na região que protegíamos: quem estava ali tinha um ânimo surreal, para ser sincera, equivalente ao restante do ato. Como daquela área, os gritos de guerra e palavras de ordem saíam de toda parte, com fôlego admirável, e particularmente animador para mim.

Uma ou outra vez, saí do cordão para dar uma volta no restante da manifestação. O que vi ali, em palavras breves? Uma maioria absoluta de estudantes negros e negras, muitas referências a questões de gênero, estampadas em gritos de guerra e em vestuário. Muitos Back Powers, muitas camisetas queer (“make american gay again”, dizia uma, que me arrancou risadas). Pós-modernos, dirão! Pra quem se arrisca (reduz) a essa interpretação, digo o que também vi: uma leitura acirrada de classe, contra a burguesia, contra a austeridade. Uma das faixas principais culpava a burguesia pelo corte do passe, os gritos chamavam o Doria de playboy, ameaçava-se tudo que era proprietário (e se você acha que jogar ovo no Dória é um erro, talvez esse texto não te faça o menor sentido).

Entre gritos que me eram extremamente familiares (“Poder para o povo…”), outros cuja referência eu não tinha a menor ideia. Um monte de músicas ressignificadas misturadas a palavras que me fazem sentir em casa, percorrendo as ruas de uma cidade um tanto desconhecida, que se tornava ainda maior quando eram as fileiras do cordão que eu ocupava. Menções a Rafael Braga de tempos em tempos. Panfletos entregues nos ônibus, às vezes segurados diante de janelas fechadas, quando o ônibus tinha ar condicionado, e passageiros/as que os liam atentamente de dentro da redoma. Luzes vermelhas e tanta, tanta força, que me emocionavam. Alguns desentendimentos entre aquelas/es que estavam constantemente preocupadas/os com o andamento e coesão do ato (quem nunca?). Vez por outra, um ou outro aviso para nós que estávamos no cordão sobre o que estava por vir: preocupação com a repressão, possíveis mudanças de rota. Já ao final do ato, uma secundarista cita um poema catraqueiro, em cima de um banquinho, arrancando palmas e, no meu caso, quase lágrimas. Tudo estranhamente familiar, estranhamente desconhecido.

A manifestação já se acabava. Exausta, acho que menos pela idade (torço), mais pelo dia que tive. Estava, no entanto, com a alma lavada. Serra, Eunício Oliveira e Paulo Octávio haviam se desfigurado: havia um mundo ao qual eles não pertenciam, no qual eles não cabiam, não eram normais, para além daquela inatingibilidade do avião. Ufa.

***

Me é difícil – muito – não fazer uma narrativa apaixonada sobre aquela manifestação. De fato, a preocupação não é ser desapaixonada: a essas besteiras não me proponho. Mas é difícil, como eu já disse, não olhar para todos/as aqueles/as que fizeram aquela manifestação com um certo olhar antigo de uma geração que quase acha que já passou. Nesse sentido, tanto o encantamento como as respostas certeiras podem cair na mesma cilada.

Talvez um bom caminho para isso seja dizer o que me pareceu muito diferente das manifestações que, ao longo dessa quase década e meia, tenho participado/organizado. Entre as principais, e citarei apenas essa, a consistência do que ouvi: os questionamentos de raça e gênero, expressos nos gritos, nos corpos ali presentes. Mas, principalmente, para quem está acostumado a ouvir que isso aí é “estilo de vida”, o teor preciso de classe ali exposto a cada momento. Me parece que, ao menos naquele ato, os/as secundaristas realizaram o sonho do MPL: partir de uma pauta específica para uma crítica estrutural, coisa que nem sempre conseguimos fazer (aqui, peço que não ignorem duas coisas: a primeira é que essa é uma avaliação compartilhada, porém não unívoca no(s) movimento(s); a segunda é que estou mesclando nesse texto duas experiências, a minha no DF e a que vivi em SP).

Eu não sei como “interpretar” isso, ou mesmo se é o caso fazê-lo. Uma saída poderia ser dizer que o que esses/as (e, seguramente, muitos/as outros/as, para além do bandeirantismo de São Paulo) estão fazendo é uma evolução natural do que nós, enquanto MPL, criamos[1]. A outra possibilidade seria vê-los/as como o que há de mais inédito, incrível e inovador que já existiu. Vê-los/as com olhar encantado de quem acha que já fez esse mesmo passo, o de criar novas coisas; vê-los/as como quem enxerga, finalmente uma saída de emergência, em um momento desesperador.

Acho as duas leituras rasas e, acima de tudo, perigosas. As duas nos desresponsabilizam: seja por nos ver (para além do MPL, certa esquerda no geral) como detentoras de grande mérito no que tá nascendo por aí – e então é quase como se tivéssemos nosso dever cumprido; seja por nos ver nas rabeiras, como se agora tivéssemos que seguir esses que estão criando os amanheceres. Nem atrás nem na frente, esses/as secundaristas que estão aí construindo tudo isso são nossos/as companheiros/as. O que nós vamos fazer para nos reinventar, cada qual no seu campo, para resistir e fazer desse momento não um fim de mundo, mas um começo de outros?

[1] A exemplo do que, a meu ver, livros como o “Escola de Lutas” fizeram: uma grande explicação de tudo que foi vivido nas escolas a partir da ação de militantes que precederam às ocupações, ainda que com uma bela e valorável documentação e entrevistas.

The following two tabs change content below.

Leila Saraiva

Leila Saraiva é antropóloga, militante do Movimento Passe Livre-DF, alucinada por Belchior e acredita que a teoria de nada adianta se ela mesma não puder ser transformada em barricada.
Compartilhe!

One thought on ““Ei, burguês, a culpa é de vocês” – relato de uma experiência no Quarto Grande ato contra o corte do passe livre – SP

  1. Pois amiga, acho que estamos nesse momento conjunto aí de repensar tudo o que vivemos na última década. É doido como as coisas mudaram né? Achei curioso o fato do MPL estar ali atrás com “outras organizações”..

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *