Currais que levam pessoas a lugar nenhum – Um relato sobre a posse de Jair Bolsonaro

Texto de Elisa Rosas | Fotografias de Raissa Menezes 

es·pla·na·da
(francês esplanade, do italiano spianata, lugar amplo e plano)
substantivo feminino
4. [Fortificação] Terreno plano, largo e descoberto, na frente de fortificações ou de um edifício.
“esplanada”, in Dicionário Priberam da Língua Portuguesa

No dia 1 de janeiro de 2019, resolvi que, já que estou em Brasília, iria observar a posse de Jair Bolsonaro. Muito questionada sobre o motivo de me sujeitar a isso, pensei na vontade de comparar com a primeira posse do Lula, em 2003, a qual eu também compareci. Vi algumas postagens com fotos comparando os dois eventos, em que se notava a gritante diferença na quantidade de pessoas que compareceram. Mas, para além da diferença numérica, o que mais me marcou foi a diferença no tratamento dado aos participantes, e em como as pessoas que estava lá aparentemente se sentiam.

Essas foram as únicas duas posses que participei. No entanto, percorro a Esplanada dos Ministérios em muitos protestos e atividades políticas desde criança (inclusive desde antes de nascer, na barriga da minha mãe nos atos pelo ‘Diretas já’). Entre as caminhadas que me recordo nesta parte da cidade, nos meus pouco mais de 30 anos, estão a Marcha dos 100 mil, em 1999, as marchas contra a PEC do fim do mundo, em 2016, manifestações do dia 8 de março, ato das mulheres contra o Cunha, em 2015, as manifestações contra o impeachment de Dilma Rousseff, diversas edições do Grito dos Excluídos nos 7 de setembro, mas também alguns desfiles militares neste mesmo dia que assisti quando criança, além de vários shows abertos e atrações que são organizadas por ali. A Marcha das Margaridas, a Marcha das Mulheres Negras, os diversos atos do Acampamento Terra Livre, as simbólicas manifestações de 2013 que culminaram no congresso ocupado foram algumas das eventos que não pude comparecer, mas que mesmo assim permeiam meu imaginário e o de tantos outros brasileiros e brasileiras pelas fotos, relatos e impressões de quem esteve lá.

Para quem não conhece Brasília, a Esplanada dos Ministérios é um espaço impossível de encher. A vez que este espaço me pareceu mais cheio foi na primeira posse de Lula, em 2003, que, assim como o país, estava inundado de esperança e de bandeiras vermelhas. Naquele primeiro de janeiro, há 16 anos, a esplanada também estava preenchida por caravanas do país inteiro, movimentos sociais, sindicatos, batuques, grupos de maracatu, a esquerda partidária, trabalhadores rurais, até artistas globais (me lembro muito bem da Leandra Leal sendo abordada várias vezes). Na época, eu ainda não militava e minha família (sempre de esquerda) era crítica ao PT. Era quase impossível, no entanto, não se deixar contagiar pelo clima de festa, de alegria, de conquista. Sentimento que aos poucos foi sendo corroído, em parte pela própria postura do PT de distanciamento da sua base ao longo dos anos.

Nas eleições de 2018, muito se falou sobre o papel do medo, do ódio e do ressentimento na onda bolsonarista. A política sempre se mostrando como um espaço dos sentimentos e das paixões. Em 2018, como tantas e tantos, fui pega de surpresa e demorei a entender como parte das pessoas ao meu redor aderiu de forma tão espontânea e acrítica a um projeto vazio e mentiroso. Na posse do Bolsonaro, na Esplanada dos Ministérios, rua onde sempre estive, finalmente consegui ter dimensão da importância desse rancor, além de ficar chocada com a maneira como seus apoiadores aceitam ser tratadas pelo seu próprio messias.

Para começar, o evento foi permeado por uma política de paranoia bélica, com a participação das forças armadas, snipers e de mísseis antiaéreos, como se houvesse uma ameaça de grande porte orquestrada contra o presidente eleito – alimentando as teorias no mínimo duvidosas sobre o papel da “esquerda” na facada que ele levou antes do primeiro turno. Correram algumas notícias sobre estranhas ameaças de atentado, orquestradas por grupos desconhecidos, e muito propícias para a criação das teorias da conspiração que estão em voga no nosso cenário político atual. A propaganda paranóica, no entanto, deu a entender de que haveria muito mais aparato militar ostensivo do que realmente havia. Mais do que uma demonstração de força militar, com tanques ou helicópteros visíveis, o que havia era muitas restrições e barreiras delimitando os espaços por onde era possível transitar. O espaço todo estava guardado por pequenos grupos das forças armadas e cavalaria, mas de forma bem menos ostensiva que nos protestos de maio de 2017, no qual Michel Temer convocou a Força Nacional para coibir os protestos contra seu governo.

Já se relatou como os jornalistas foram tratados, e com a população não foi muito diferente. Chegamos à esplanada pela Rodoviária do Plano Piloto, por ali havia o único telão do evento inteiro, que fica permanentemente em um edifício comercial, o Conic, uma tela bem grande, de led. De lá se transmitia a posse, mas ninguém assistia a transmissão, não tinha som, apenas imagem, e ainda era um pouco longe da esplanada. Chegamos já tendo ouvido no rádio e recebido por SMS, como grande parte da população brasiliense, que alguns itens não seriam permitidos no evento. Não consultei o site, mas fiquei sabendo que guarda-chuvas e carrinhos de bebês não poderiam entrar na esplanada. Antes da primeira barreira, havia um solitário carrinho do exército, tocando em volume relativamente baixo algumas repetidas músicas sertanejas, alternadas às mensagens de “Bem vindo à festa da democracia” e instruções do que não poderia ser utilizado e sobre a presença dos atiradores dispostos estrategicamente. Além disso, a cada tanto soava uma vinheta de uma empresa de segurança, que listava alguns de seus serviços.

Chegando à primeira linha de revista, no começo da tarde, víamos filas grandes divididas entre homens e mulheres, e um clima estranho, com pessoas correndo para entrar na frente das outras na fila, que andava relativamente rápido. Uma amiga me conta que presencia o seguinte diálogo sobre o caso João de Deus na fila masculina: “sabe porque elas começaram a denunciar? Porque tava acabando a grana que ele passava pra elas.” Logo aparece uma policial militar falando alto: “não pode mochila, não pode bolsa, não pode garrafa de água, não pode tupperware…” e a lista continuava. Levanto a pequena bolsa que carrego, ela sinaliza que não, e fala: “só pode carteira e olhe lá”. Solto a alça da bolsinha, que fica parecendo uma bolsa de mão, e passo pela revista sem problemas. Todos os homens e todas as mulheres são revistados, os homens de forma mais incisiva, de costas e mãos para cima, com o revistador apalpando-os desde o calcanhar até o peito. O mito que gostava de ser carregado por seus apoiadores agora trata todo e qualquer um como suspeito. Continuamos caminhando o longo percurso até a Praça dos Três Poderes, onde supostamente poderíamos ver o discurso no parlatório. Em certo momento, passamos por uma segunda barreira de contenção com pessoas segurando detectores de metais. Não há tanta gente, não há nenhum sentimento de alegria aparente, nenhuma palavra de ordem ou empolgação contagiava, não há batuque, cantoria, palavras de ordem, ninguém está sentado no gramadão da esplanada, há apenas uma marcha de pessoas com blusas amarelas da seleção ou blusas pretas estampadas com a cara branca de Bolsonaro. O silêncio é geral, há algumas blusas escritas: “o capitão chegou” ou armas estampadas ao lado do nome dele, um grupo de pessoas antiaborto com uma bandeira do Brasil com um bebê no meio, e algumas com a mensagem “Brasil acima de tudo, Deus acima de todos”. No caminho, poucos postos de “água potável”, no qual mais uma vez as filas são lugares de atrito, há alguns funcionários distribuindo copos descartáveis e torneiras em tanques para matar a sede em um típico dia abafado e quente de verão do centro-oeste.

Por fim nos aproximamos ao congresso, sempre caminhando pelo gramado, pois as pistas estão cercadas com grades e segurança feita pelo exército. Não cheguei a ver o novo presidente passando no rolls royce, mas fiquei sabendo da inusitada presença de seu filho Carlos no carro, com a desculpa de que estaria ali para garantir a segurança do pai. Um amigo fotógrafo me relata que o viu passando, e foi um dos poucos momentos com alguma comoção, com a entoação da palavra “mito”. Este mesmo amigo também me conta que sua passagem pela revista foi conflituosa, que os PMs que organizavam a barreira não tinham muito acordo sobre o que era permitido carregar ou não. Ele foi barrado três vezes, mas passou da quarta vez, quando já se havia desfeito da maioria das coisas que carregava. Quase barraram sua entrada com a câmera, alegando que a lente poderia ser utilizada para machucar alguém. Ouvi relatos também de pessoas que tiveram maçãs confiscadas na barreira. Aparentemente o novo presidente estava com medo de ser vaiado e receber uma chuva de garrafas de plástico vazias, maçãs e lentes de câmeras. Utilizando o discurso da segurança, Bolsonaro se blindou de qualquer possível oposição ou protesto por meio da intimidação de todos que estavam lá, certamente uma maioria de apoiadores. O mesmo amigo, fotógrafo independente, contou ter sido olhado e tratado por participantes com agressividade e desconfiança por carregar a câmera, que provavelmente o associaram a grandes meios de comunicação.

De minha parte, consegui caminhar até a barreira de grades antes do congresso, e passei um bom tempo esperando para poder me dirigir para a praça para ver o discurso, o que nunca aconteceu. Chegando à barreira antes do congresso, ouço reclamações coletivas já que ninguém conseguia passar.

Uma amiga comenta que parecia que as barreiras formavam currais que levavam as pessoas a lugar nenhum. Em um momento alguém puxa um grito coletivo dizendo “abre, abre”. Há um tipo de caminhão aberto do exército ao lado, com três militares. Um deles comunica, por um megafone, que não abrirão ali, ao que todos começam a vaiar, e então já não é possível ouvir o que mais ele fala. No burburinho, fala-se que é para tentar pelo outro lado, no canto direito da barreira, perto do Itamaraty. Nos deslocamos para lá, e chegando ao outro lado, também não foi possível passar. Já havia passado das 17hrs e ninguém sabe para onde ir para ver o discurso. Ali perto da barreira, ouvimos os 21 tiros de canhão e vimos passar a esquadrilha da fumaça, o que gerou alguma agitação. O único momento em que se ouviu um grito coletivo foi quando alguém puxou “minha bandeira não será vermelha” e alguns aderiram à palavra de ordem, que não chega a ser cantada por nem 1 minuto. Aos poucos, sem ter como passar, sem os prometidos telões, sem ninguém para dar informação, as pessoas começaram a ir embora, momento em que eu também saí. Os participantes não demonstravam grande alegria ou empolgação, se indignavam com a desorganização, mas também havia um clima amistoso entre os presentes e os policiais, muita pessoas os procuravam para tirar fotos. Vários deles passaram horas tirando fotos com as pessoas, e também filmavam o acontecimento. Nem eu nem ninguém que conheço presenciou uma situação na qual um participante foi atingido no rosto por gás pimenta, após se posicionar em local não permitido. Como se espera em um evento grande, houve uma diversidade de experiências. Ouço dois relatos interessantes: o primeiro, a mulher que revistou uma amiga perguntou se ela tava feliz. Ela responde que sim, ao que a policial falou que também estava trabalhando muito feliz. No segundo, um amigo que, ao tentar passar para a praça, vê homens ao seu lado hostilizando um dos poucos seguranças que indicava onde se podia ficar ou não. Ele ouve as palavras: “Ô paraíba, tá achando que é melhor que a gente? Até parece que não vamos passar por sua causa”. Quem chegou à Praça dos Três Poderes relatara que passou por mais duas barreiras e, mais tarde, ainda tiveram problemas para ir embora. Os últimos grupos que saíram tiveram a passagem bloqueada ao se dirigirem de volta para a rodoviária, ficando contidos entre as grades de proteção por mais de 40 minutos nos gramados da esplanada. A cada tanto recebiam agressivas instruções dos caminhões do exército, porém sem explicações claras do motivo para a espera. Contaram que, neste momento, parte dos poucos participantes que restavam demonstrou grande descontentamento, que houve vaias e xingamentos.

É difícil não comparar as duas posses, a de 2003 e a de 2019, de forma simplista. Na primeira tinha cores e todo tipo de gente, tinha alegria e música. Na deste ano havia restrições, paranoia e desinformação. Se é verdade que Lula e Bolsonaro não são o contrário um do outro, não representam extremos igualmente perigosos, nem são dois lados da mesma moeda, certamente os dois possuem uma projeção personalista. O culto a Bolsonaro, com as blusas pretas (que mais davam a impressão de um enterro de que uma festa, ou como diria o meme “esta festa virou um enterro”), a falta de organização da Polícia Militar, a falta de comunicação do exército com a população, que se limitava às fotos com eles, o tratamento de todos e qualquer um como suspeitos, são apenas mostras de como este governo irá tratar seus governados, tanto os não eleitores quanto seus apoiadores. Quem é oposição já pressente como será o tratamento, com a declaração de que ele quer “acabar com todos os ativismos”, ou como reiterou no discurso da posse, que o Brasil começou a se “libertar do socialismo”. Mas e os seus apoiadores?

A posse de Bolsonaro realmente foi o contrário da primeira, fazendo com que uma comparação das duas até pareça rasa. Mesmo reconhecendo o meu próprio olhar parcial, uma vez que comemorei a primeira e abomino a segunda, a diferença era tão gritante que não consigo atribuir sua percepção apenas ao meu posicionamento político. Se na posse de Lula havia um sentimento de conquista de um espaço físico por parte do povo, que ocupou a Esplanada, na de Bolsonaro houve uma sensação de confinamento, de preocupação, de controle, mas seus participantes pareciam não se incomodar com isso. O que esse tratamento desrespeitoso, desconfiado e paranoico do novo presidente em relação aos seus próprios seguidores significa? E a forma como eles respondem a isso, o que se pode interpretar daí? Como seus apoiadores, que saíram de suas casas ou cidades para participar do evento, devem ter se sentido? Por outro lado, o que esperavam ao ir à posse? Um público reativo, unido por uma negação do “vermelho”, grande parte vestida de preto, as posturas de cada um por si, os comportamentos desconfiados com a imprensa, mas também uns com os outros. Os “ressentidos” que o apoiam, que votaram pela destruição dos direitos de quem já está mais vulnerável, por que eles aceitam esse tratamento?

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