Com quantos cacos se faz uma democracia?

Relato e analise por She Brandão

“E sonhos não envelhecem.

Em meio a tantos gases lacrimogênios ficam calmos, calmos…” (Lô Borges)

Um dia após o ato que aconteceu na Esplanada dos Ministérios, no dia 24 de Maio, recebi ligações de pessoas queridas, elas perguntaram se eu estava bem e se eu estava lá “naquela bagunça”. Um ato chamado como Ocupa Brasília, convocado pelas centrais sindicais e movimentos sociais, uma manifestação que juntou mais de 100 mil pessoas. Muito, mas ainda poucas para a imensidão do espaço arquitetônico da esplanada. Para as perguntas preocupadas com minha integridade respondi sim às duas. Junto com a preocupação com meu bem estar vieram as avaliações sobre o momento, qualificando-o como ‘vandalismo’, ‘barbárie’, ‘baderna’ e ‘anarquismo’. Para quem pensa assim, e talvez nem continue essa leitura, sugiro apenas que pesquise a origem de cada uma dessas palavras.

Uma das minhas passagens preferidas da Bíblia é Eclesiastes 3:

¹Tudo tem o seu tempo determinado, e há tempo para todo o propósito debaixo do céu. ²Há tempo de nascer, e tempo de morrer; tempo de plantar, e tempo de arrancar o que se plantou;

³Tempo de matar, e tempo de curar; tempo de derrubar, e tempo de edificar; […]

8Tempo de amar, e tempo de odiar; tempo de guerra, e tempo de paz.

        Particularmente penso que esse é um tempo de Guerra. Naquele dia na Esplanada, cada qual em seu tempo, compôs um ato que agregava uma diversidade de pensamentos. Havia gente pró Lula, volta Dilma, contra Temer, Diretas Já, contra corrupção, contra as reformas.. Algumas, como é meu caso, menos afeitas à partido, menos ainda ao PT. Gente que sabe que a roubalheira e os golpes não começaram agora, não começaram no governo petista, que ambos são frutos de um sistema há muito corrupto e corruptível. Mas estávamos juntas, uma esquerda heterogênea contra a maracutaia que nunca termina, contra a grande onda de retrocesso, os golpes aos direitos dos trabalhadores que desfilam nas reformas anunciadas. É bom sempre lembrar que todas essas reformas foram feitas com zero debate popular. Grandes empresas, como a Vale, são responsáveis por grandes desfalques na previdência pública, mas foram perdoadas. Onde governam os mais ricos, a conta é sempre para o mais pobre.         Na TV, vidraças quebradas e partes de Ministérios queimados. O que a maioria chama de atos de violência, barbárie ou baderna, é uma reação, de imediato, às atuais delações. Mas vem de antes, vem de saber que muito da luta por direitos há tempos é abafada e vendida em negócios escusos entre os grandes. A grande mídia, em especial a Globo, quando transmitiu o resultado do ato deixava passando na tela: “Vai ficar impune? Quem vai pagar?”. Entretanto, quando a mídia transmite as delações de Joesley, que mesmo desfalcado mais de 700 milhões do Estado não sofrerá pena alguma, a indignação tem uma outra forma, sem a tarja no rodapé da tela perguntando quem vai arcar. A indústria midiática no Brasil está na mão de algumas poucas famílias ricas, não muito diferentes das de Joesley, que também estão nesse jogo. Portanto, não podem provocar a comoção que provocam com as notícias dos atos colocariam a si mesmas em risco. Fazem parte da elite que está historicamente no poder e esteve, inclusive, durante o suposto governo popular. Tenho apreço algum às coisas que foram quebradas: “Mas She! É patrimônio público! Sai do seu dinheiro também!” Ótimo, então já podemos parar com a frase “Quem paga?”

        O que acontece nesse modelo de sociedade e de governo onde o lucro é o que importa, onde uma multinacional como a JBS, para além das propinas, promove a campanha eleitoral de quase 200 parlamentares? O voto foi nosso, mas quem colocou essa gente no poder? Sem a JBS e outras grandes patrocinadoras eleitorais, chegariam lá? Quando o que rege a nossa vida é o capital, precisamos compreender que essa gente só entende essa linguagem, só sente a gravidade quando o patrimônio é atingido, fora isso, não há diálogo e, quando há, é limitado. A maior prova de verdade que o patrimônio vale mais que a vida é, policial militar sacar arma de fogo e atirar contra manifestante – tanto os que quebravam vidraças quanto os que apenas passavam perto da açã0 – mesmo com toda mídia no local e testemunhas. Não, ele não é um policial mal treinado, um desvio, um equívoco, ela tá muito bem situado no modelo e valores éticos que temos construído enquanto sociedade. Infelizmente uma das vítima dos disparos segue em coma. Sempre bom lembrar que o comparativo entre vida e propriedade é bastante complexo já que, nessa organização de valores, algumas vidas valem mais que outras, mas isso é matéria para outro momento.

        Não tem tarja de “Vai ficar impune?” no televisor quando a notícia é sobre massacre de índios, (quando há notícia), de assentados, de pessoas em situação de rua feridas quando o governo resolve demolir o prédio com elas dentro, remover (eliminar?) a cracolândia no centro de SP por interesse imobiliário no local. A revolta é branda, é seletiva. Só esse ano foram 5 chacinas contra comunidades camponesas que a mídia relata como disputa de terra sem muito alarde, sempre lembrando de criminalizar todas as ações do MST. Segundo o relatório da CPT (Comissão Pastoral da Terra), que há 32 anos documenta os conflitos e violências no campo, em 2016, 61 pessoas foram assassinadas no país em áreas rurais no contexto de disputa de terra pautada pelo agronegócio e grileiros, 11 a mais do que em 2015. Quanto a esse ano, ainda estamos no mês de maio e já quase chegamos ao número de 60 mortos nesta guerra neoliberal pela terra. Fato é que as mesmas empresas que se propõe a promover, à qualquer custo, governantes corruptos no poder, são as que mandam matar assentados e indígenas. O espetáculo estético criado no ato do dia 24 e veiculado, aumentado, hiperdimensionado e mal-usado pela mídia atinge em cheio os nossos corações e somos tomadas pela verdade da elite. Feia é a fumaça preta que sobe, é estilhaço de vidro. Quando foi que aprendemos a confiar tanto nos mais ricos?

        Mas She, uma violência não justifica outra, né?” Não mesmo. Primeiro porque não é possível produzir violência contrária de dimensão semelhante contra os grupos que promovem massacre e opressão sistêmica de grupos minoritários e subalternizados, uma vez que possuem o monopólio do poder, da mídia e da força bélica. É impossível. Segundo, que esse pensamento é da ordem da vingança e o que buscamos na luta não é vingança é reparação, o recuo de um modelo liberal e capitalista homicida.

        Ouso, numa pulsão psicanalítica, ler tanta lamúria contra as ações radicais de ontem como uma denúncia de como depositamos toda a nossa segurança nas instituições, investimos psiquicamente nelas, então, quando são atingidas de forma tão ‘violenta’, a confusão que fica, o vazio, nos obriga a olhar pra nós mesmas, para as nossas mazelas, para nossa fragilidade, para o modelo de sociedade adoecida que criamos. Temos aprendido a não olhar para os conflitos, a enxergá-los como um equívoco, como algo que não deveria estar alí, então, a explosão de forças violentas é também um sintoma de como temos tratado conflitos importantes de serem debatido. Há muitas possibilidades de olhar para esse quadro, mas não vou me estender nas possíveis leituras psicosociológicas.

        Acreditem, toda e qualquer insurreição do povo, mesmo que pacífica que questione a prática, sempre questionável, de um governo, vai ser etiquetada de vândala e violenta. Ano passado, também em Brasília, ocupamos o prédio do DFTrans revindicando os passes de estudantes que o governo cortou arbitrariamente. Foram 7 dias de ocupação, dormindo no prédio. O local estava capenga. Fizemos algumas pequenas melhorias, trocamos a torneira, arrumamos tomadas que davam curto, colocamos parafusos em mesas e cadeiras que pendiam. No dia da desocupação acompanhei a entrada do oficial de justiça que, junto com a gestora do local, fizeram a vistoria. Ela precisou reconhecer que houve melhorias no espaço. Saímos dali deixando o lugar melhor do que encontramos, mas as notícias veiculadas nos jornais, enquanto mostravam as paredes externas cheias de cartazes, diziam que nós tínhamos depredado o prédio. Parafraseando Eclesiastes 3: há tempo de restaurar e tempo de quebrar. Ambas são ações necessárias.

        Entretanto, o que o Estado espera de nós não é o pacifismo, mas a mansidão, subserviência, é não questionar o modelo, ou que, se fizermos, que encontremos um judas: que seja Dilma, que seja Aécio ou qualquer outro nome. Mas questionar o esquema, a estrutura, o funcionamento é grave… é muito grave. As últimas delações ajudam a ter um suave panorama da lama que é a relação Estado – Grandes Empresas.Se os grandes não temem a justiça (que parece não menos corrupta) que temam a fúria do povo, a barbárie, o vandalismo.

“E basta contar com passo

E basta contar consigo

Que a chama não tem pavio” (Lô Borges)

Esplanada dos Ministérios durante protesto contra  Temer e suas reformas (Marcelo Camargo/Agência Brasil)

*Essa é uma leitura da atual conjuntura de lutas em 2017 fruto de alguns diálogos com companheiras e companheiros do Movimento Passe Livre DF, portanto, escrito em boa medida, por muitos corações.

She Brandão é psicóloga e militante do Movimento Passe Livre do Distrito Federal

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