[Aulão/oficina] Como funciona o capitalismo?

Cartaz da oficina no IFSC, por Bira Bird

Sobre a atividade: O modelo inicial dessa dinâmica foi-me apresentado por uma colega pedagoga. A atividade muitas vezes é utilizada no curso Como funciona a sociedade[1], mas a apliquei em um contexto escolar, primeiro na universidade e depois em uma escola que foi ocupada durante a onda de ocupações contra as medidas austeras do governo Temer. Por esse motivo acrescentei a oficina uma primeira parte que tem a estrutura de uma aula regular. Para essa parte contei com o auxílio de uma colega historiadora. Entretanto, pode-se aplicar a oficina em contextos variados, em que os participantes não sejam necessariamente estudantes. A atividade é dividida em três partes – aula, dinâmica e debate – e tem o caráter de formação política.

Objetivo: Compreender como funciona o modo de produção capitalista a partir de uma abordagem histórica materialista dialética. O foco central será entender, de forma ilustrativa, o conceito de mais-valia. Ao final da atividade pretende-se que as/os participantes consigam elaborar uma reflexão em torno do caráter de exploração que ronda o trabalho.

Tempo de duração: de 2 a 4 horas (depende do número de participantes, do aprofundamento que se quer dar a primeira parte e do tanto que se deseja refinar os conceitos).

Materiais necessários: quadro e giz, papel para picar, sacos plásticos transparentes, fita adesiva. O papel pode ser folhas de jornal, revistas ou rascunho. O importante é que tenham mais ou menos o mesmo tamanho e que seja o suficiente para que cada participante tenha uma folha de papel.

Parte I – Aulão
Trata-se basicamente de uma aula expositiva. A profundidade que se dará a ela depende da familiaridade que a/o facilitador/a tem com o tema. Basicamente seu objetivo é dar historicidade ao capitalismo. Isso é, desnaturalizar sua existência revelando-o como resultado de um processo histórico particular. A ideia é que com a aula os participantes cheguem a conclusão de que o modo de produção capitalista, suas dinâmicas e instituições, não existe “desde sempre”. Alguns tópicos a serem abordados:

-A Revolução Industrial e as condições para a formação do capitalismo.
-Destruição de modos de vida anteriores na Europa.
-Colonialismo e a destruição de outros modos de vida fora da Europa.
-Resistências à implementação do capitalismo (ex: Ludistas).
-A disciplina fabril e o novo ritmo de trabalho. Aqui pode-se usar um objeto como exemplo, como uma cadeira. Um artesão, em sua oficina, participava e dominava todo o processo de produção de uma cadeira. Com a organização do trabalho na fábrica ele domina apenas uma parte do trabalho e perde a capacidade de se reconhecer no produto final. É possível introduzir aqui o conceito de alienação.
-O surgimento da burguesia (detentora dos meios de produção) e do proletariado (que não possui nada mais do que a sua própria força de trabalho).
-O nascimento das grandes cidades e dos problemas urbanos
-A geração de capital como necessidade primordial para que o capitalismo funcione. Qual é a origem do lucro?

Algumas leituras que podem ajudar nessa parte teórica:
O Capital, Livro I (especialmente os primeiros capítulos), Karl Marx.
– Para entender o Capital, David Harvey
Salário, Preço e Lucro, Karl Marx.
 Ciências sociais: saberes coloniais e eurocêntricos, Edgardo Lander
O que é alienação?, Wanderley Codo

Parte II – Dinâmica da fábrica de sapatos

Sugestão de como o quadro deve ficar ao final da parte I

Essa é a parte principal da atividade e pode ser aplicada sem a primeira parte. É importante que as facilitadoras encarem o papel que vão desempenhar de forma lúdica.

A facilitadora diz que vai abrir uma nova fábrica, irá produzir sapatos[2]. Se existir mais de uma facilitadora uma pode ser a dona[3] e a outra pode ser nomeada gerente da fábrica. O local da atividade será a nova fábrica e a dona irá oferecer emprego aos participantes. O primeiro passo deve ser negociar o salário diário. A dona pode citar um salário base para a categoria e oferecer uma quantia maior. O importante é que as/os participantes se sintam contemplados pelo valor. Para facilitar o processo recomenda-se um valor simples. Por exemplo, pode-se dizer que o salário base é de R$ 50,00 por dia e que a fábrica vai pagar R$ 100,00 por dia de trabalho.

Inicia-se o dia de trabalho: a gerente deve distribuir uma folha para cada funcionário. É a matéria prima. Os funcionários devem cortar o papel em vários quadradinhos. Cada quadrado produzido equivale a um par de sapato. Cronometra-se o expediente (2 a 4 minutos). Para fins lúdicos, nesse momento é importante que o gerente fiscalize o trabalho, cobrando disciplina e produtividade dos participantes (enquanto o dono descansa). Ao terminar o expediente o gerente deve recolher todos os pares de sapato em uma saquinho transparente e entregar para o dono. O dono deve elogiar a produtividade dos participantes, dando uma salva de palmas para o trabalho feito durante o dia.

No quadro negro as facilitadoras devem grudar dois saquinhos transparentes vazios. Com o fim do expediente ela deve agora pagar tudo que é necessário. Para facilitar vamos pagar tudo em pares de sapato, que equivalem a R$ 50,00. Anota-se em cima do primeiro saquinho a palavra “custos”. Ali a dona vai depositando alguns pares de sapato que correspondem a despesas diversas (aluguel, contas de água e luz, contador, etc). Acima do segundo saquinho anota-se a palavra “impostos”. Pode-se desenhar ali escolas, hospitais, e algo que represente o aparato burocrático do Estado. A dona deposita muitos pares de sapato e reclama da quantidade de impostos no Brasil. Por fim, a dona diz que finalmente vai pagar o salário dos colaboradores. Nesse momento o gerente devolve aos funcionários aquilo que equivale ao seu salário (se o salário é R$ 100,00, devolve-se dois pares de sapato). O que sobra, que será um saco bem cheio de pares de sapato, deve ser pendurado no quadro com a palavra “lucro”.

Explica-se que a diferença entre aquilo que os funcionários produziram no dia e aquilo que ficou com eles é o que chamamos de “mais-valia”. O lucro, que fica com o dono, por ser o dono da fábrica (dos meios de produção), é aquele tempo de trabalho que não será remunerado, que não será retornado aos trabalhadores da fábrica. A relação entre ele é o que foi pago é mais-valia.

Parte III – Debate

Abre-se o debate com os participantes. Sugiro algumas questões.

O que aconteceria:

  • Se alguém se dedicar mais ao trabalho, produzindo mais do que o outro?

Para fins lúdicos pode-se nomear como funcionário do mês o participante que mais produziu sapatos, gerando um debate sobre a disciplina no trabalho e as diversas formas de recompensar e punir os trabalhadores segundo a sua produtividade.

  • Se aumentasse o tempo da jornada e pagasse com os mesmos pares de sapato? (mais valia absoluta). E se repetirmos a experiência com tesouras ou máquinas de corte? Se eu organizar vocês para que produzam mais rápido? (mais valia relativa)

Para explicar adequadamente os conceitos de mais valia relativa e absoluta sugiro desenhar no quadro um gráfico pizza em formato de relógio, onde possa se visualizar o tempo de trabalho necessário para produzir os pares de sapatos usados para pagar o salário e o tempo excedente de trabalho que será apropriado para o dono. Quando se aumenta o ritmo de trabalho ou a produtividade (introduzindo as tesouras, por exemplo) produz-se mais valia relativa, quando se aumenta as horas de trabalho produz-se mais valia absoluta. Essa forma de explicação está bem ilustrada a partir do minuto 5 desse vídeo (em espanhol).

Mais valia absoluta e relativa
  • Se vocês fizessem uma greve?

Aqui vale falar sobre as lutas históricas pela redução da jornada de trabalho. Recomendo trabalhar com o vídeo Maio Nosso Maio e também a leitura dessa matéria sobre a luta pela jornada de 4 horas.

  • Se existisse lá fora um enorme grupo de pessoas desempregadas?

Pode-se trabalhar aqui o conceito de Exército Industrial de Reserva: o desemprego como mecanismo importante para manter os salários baixos.

  • Se os impostos diminuíssem?

O dinheiro que iria para pagar os impostos seria convertido em um aumento na remuneração dos trabalhadores ou migraria para o saquinho correspondente ao lucro do dono da fábrica? O empresariado brasileiro tem como uma das suas maiores pautas a diminuição dos impostos. De que impostos falam? O que isso significa para nós trabalhadores? Sobre isso ver reportagem sobre a questão tributária no Brasil.

  • E se um dos funcionários saísse pra montar seu próprio negócio? Uma fabriqueta de sapatos.

Uma fábrica menor ou artesanal de sapatos poderia concorrer em pé de igualdade com essa nossa fábrica? As funcionárias teriam capital para montar uma fábrica parecida? Seriam as suas dinâmicas de trabalho as mesmas do que a da nossa fábrica? Pode-se trabalhar aqui a ideia de empreendedorismo e de saída individual para o problema coletivo. Para um aprofundamento no tema ler a primeira parte do livro O Espírito dos Donos: empreendedorismo como projeto de adaptação da juventude.

  • E se vocês montassem uma cooperativa?

O que acontece quando cortamos a figura do patrão? Como funcionaria uma fábrica em que os donos são os próprios trabalhadores? Pode-se trabalhar aqui a ideia de autogestão dando o exemplo das fábricas recuperadas na Argentina, bem retratado no filme The Take/La Toma.

***

Para finalizar a atividade, seria interessante alguma mística que integrasse os participantes. Por hora não me ocorreu nada, mas convido as leitoras e leitores a deixarem suas sugestões nos comentários! Boa oficina!

[1] Recomendo demais esse pequeno curso de formação política que é oferecido com frequência em diversas cidades do Brasil.
[2]Pode-se trocar por outro produto que dialogue melhor com a realidade das/os participantes.

[3] No Brasil, entre os empregadores de empresas com mais de 5 funcionários 75% são homens, e quase 80% brancos. Essa informação também pode ser trabalhada aqui na incorporação do personagem do dono da fábrica. A facilitadora que irá jogar esse papel pode, por exemplo, colocar um bigode postiço para representar a maioria masculina no patronato.

 

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Camila B.

Camila B. é socióloga e professora, milita na esquerda autônoma de Florianópolis e sonha em ver marxistas e anarquistas andando de mãos dadas.

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