Alcaçuz: a violência como espetáculo

Texto por Andressa Morais

Passados catorze dias do mês de janeiro do ano de 2017, numa tarde de sábado teve início dias de tensão e insegurança coletiva na cidade de Natal. Nas ruas, um inesperado barulho chamava a atenção num insistente e sonoro grito de sirenes que nos puxavam para o lado de fora de nossas casas em busca de saber o que se passava. Em frente de casa, na avenida Rota do Sol, em alta velocidade, viaturas policiais, ambulâncias e carros do ITEP[1] escoltados por motocicletas, circulavam em idas e voltas, numa urgência e rapidez. Despertando não somente atenção de diferentes olhares nas janelas do edifício de nossa moradia, mas de todos os edifícios da proximidade. Eram muitos as expectadoras e expectadores em suas janelas, assistindo ao festival de sirenes e de veículos da segurança pública estadual. Em período de veraneio e fluxo naturalmente intenso na avenida Rota do Sol, consequência de se tratar da principal via de acesso às praias do litoral Sul do RN, descobrimos que a mesma avenida também foi passagem de acesso e retorno do ceifeiro da morte.

Em disputa com as sirenes dos carros que circulavam na avenida de passagem da morte, nossos aparelhos de celular nos irritavam com sons e alertas para notícias fúnebres. Ao acessar meu aplicativo de WhatsApp, fui surpreendida com inúmeras mensagens sobre o ocorrido. Minuto a minuto era informada e atualizada sobre o sangrento conflito na Penitenciária Estadual de Alcaçuz. Porém, não eram apenas mensagens que eram compartilhadas, mas também imagens e vídeos de violência humana em sua forma mais crua e perversa, imagens que despertava sérias dúvidas sobre nossa condição de civilidade humana. Em uma primeira imagem, um homem com rosto encoberto por uma camisa branca, sem camisa e de short azul, segurava um facão. Próximo a ele, na areia, se podia ver três cabeças humanas decapitadas, soltas e cercadas ao fundo por um mar de homens vestidos de azul e branco contrastando. A mensagem era objetiva: presos acabam de deflagrar uma rebelião na Penitenciária Estadual de Alcaçuz.

Na era das novas tecnologias, a TV tornava-se a última a informar. Antes de se vincular pelos canais de TV aberta notícias a respeito da rebelião e conflito entre facções do crime organizado, moradoras e moradores de Natal já tomavam conhecimento do que ocorria pelas suas redes sociais. Parece que a “sociedade do espetáculo” encontrou sua forma imagética mais acabada nas mídias digitais. E a violência tornou-se uma imagem-mercadoria a ser consumida ainda “quente”.

Naturalmente, nas redes sociais não circulavam apenas imagens e notícias, mas também sentimentos e emoções diversas. Em mensagens trocadas, muitas pessoas externavam mal-estar e sentimentos de injustiça diante da violência. Outras apenas divertiam-se como se assistissem a cenas de esquartejamento exibidas pelo filme Sweeney Todd: o barbeiro demoníaco da rua Fleet. As mais exaltadas inflamavam discursos pró-morte dos presidiários, reclamavam que o conflito entre facções deveria ganhar os contornos de uma aposta e pediam que alcaçuz fosse ao “top trend” das mortes em presídios, com “potencial” para superar os cinquenta e seis mortos em Manaus[2], portanto, “deixem eles se matarem entre si”.

Além das imagens que circulavam diariamente nas redes sociais, a vida urbana diária de nossa cidade havia mudado. Rotinas foram desfeitas, percursos diários refeitos. Três dias de rebelião se passaram e a briga ganhou proporções externas ao presídio. Em Natal, tiveram início ataques e queimas de ônibus e carros oficiais. Algumas e alguns de nós tentavam manter suas rotinas, mas o assunto nas ruas era o mesmo e tanto quanto se falasse mais apareciam novas notícias vindas em tempo real através das redes sociais. Na ida ao médico, após esperar 40 minutos por um ônibus, no primeiro ônibus que aparece, o motorista para e nos avisa: “voltem para casa, eles nos mandaram parar de rodar senão vão tocar fogo na gente!”. Foram vinte e oito veículos incendiados, além dos ataques aos prédios públicos. Em consequência, o comércio da cidade começou a fechar suas portas, frotas de ônibus foram recolhidas e o espaço urbano da cidade foi se desertificando por alguns dias.

Gravura de Evandro Carlos Jardim

Sobre as vítimas mais diretas da violência no interior de presídio, a Pastoral Carcerária se destacava no acompanhamento e acolhimento aos familiares, montando grupos de apoio no ITEP. Engajada nas atividades da Pastoral Carcerária, presenciei um ambiente de angústia e ausência de explicações sobre a liberação dos corpos. Era o quarto dia de rebelião, estava na porta do ITEP e o cheiro da morte era forte, exalava no quarteirão interditado. Foi necessário ao governo estadual alugar um caminhão frigorífico para transportar os corpos, assim como solicitar apoio aos estados vizinhos no envio de médicos legistas para somar a equipe do Rio Grande Norte. Nessa semana, a equipe do instituto médico legal conheceu seu limite técnico e infraestrutural.

Não obstante, o compartilhamento das cenas de barbárie instalada em Alcaçuz não dava um minuto de trégua. Numa delas, as inscrições “PCC”, “Sindicato do RN”, “Al Qaeda da Paraíba”, “1533” (refere-se ao PCC), “1814” e (refere-se ao RN), escritas com sangue derramado. Em suma, o presídio se transformou em uma arena de guerra entre facções do Primeiro Comando da Capital (PCC) e do Sindicato do Crime do Rio Grande do Norte (SRN).

A miséria moral coletiva estava ali, em todas as horas disponíveis e não é mais desconhecida, mas, pelo contrário, ela tem sido fonte de prazer orgástico para pessoas que comemoravam a exposição pública do massacre. E o Estado? Bem, as notícias de que “está tudo sob controle” não duravam um dia e logo se sabia que o motim continuava. Não demorou em chegar áudios e notas das facções mandando a população ficar em casa, alertando sobre o que mais poderia acontecer; e denunciando políticos e agentes de segurança corruptos, cúmplices de uma das facções. Nesse cenário, não havia ausência, nem excesso de Estado, mas uma outra forma institucional de Estado: um Estado de suplício, no presídio e nas ruas

Andressa Morais é Antropóloga, Negra, Feminista, Nordestina comedora de camarão que voa como uma arribaçã.

[1] Instituto Técnico-Científico de Polícia do Rio Grande do Norte (Itep/RN)

[2] . Rebelião no Complexo Penitenciário Anísio Jobim (Compaj), deixou, pelo menos, 56 mortos em 2017. Ver matéria do El País.

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