A solidariedade de classe e as lições da Revolução Russa

Por Camila Marques

  • Introdução

A revolução Russa foi, inegavelmente, o maior evento histórico do século XX. Mesmo com o fim da União das Repúblicas Soviéticas Socialistas (URSS) a revolução ainda nos inspira em diversos aspectos, o principal deles é a concretude de um projeto socialista que se mostrou possível e viável, e deixou um legado em diversos aspectos sociais.

Nesse texto, ressaltamos a solidariedade de classe como um desses legados que toda a tradição de esquerda precisa recuperar. A ação de classe e os princípios que devem nortear nossa práxis enquanto sujeitos políticos que permanecemos na luta pela emancipação da humanidade.

A classe trabalhadora brasileira vive um dos seus piores momentos na nossa história recente. A lista dos ataques é longa e não seria possível elencar e aprofundar todos eles aqui, mas não erramos ao citar o projeto de lei da reforma da previdência, a emenda constitucional de congelamento de gastos públicos (já aprovada ano passado), sem dúvidas, a de maior impacto dentre todas elas, a reforma trabalhista e com ela o Projeto de Lei 4.302/1998 que regulamentou a terceirização irrestrita.

A reforma trabalhista intensifica a exploração do trabalho em diversos mecanismos com toques de crueldade. Para exemplificar, destacamos uma das 101 mudanças na legislação. A reforma possibilita que empregadores possam colocar mulheres grávidas para realizar atividades insalubres, o que demonstra a violência e a falta de limites do capital.

Mas, afinal o que todas as afirmações da dureza do contexto atual têm a ver com revolução Russa? Primeiro, apesar de serem problemas de natureza bem distinta os enfrentados pelos russos em 1917 e os brasileiros cem anos depois, há em comum o sentimento que todos esses ataques desperta: o de falta de saída, de impossibilidade de avanços.

Soviet Estonian artist Evald Okas (28 November 1915 – 30 April 2011)

Hiroshima, 1965. Do artista soviético Evald Okas (1915 – 2011)

Em um primeiro momento, a falta de perspectiva pode trazer imobilismo e apatia, mas posteriormente pode ser exatamente o elemento que fortaleça ações políticas anticapitalistas. Afinal, é justamente a impossibilidade do capital de se mostrar como saída que torna não somente possível, mas necessária uma revolução socialista.

Segundo é preciso afirmar que tais acontecimentos recentes têm ligação com a derrota da URSS, pois com o fim da experiência socialista o capital pôde avançar sobre as conquistas da classe trabalhadora. Esse elemento deve ser levado em consideração na avaliação do atual contexto histórico.

Ao tratar da derrota do projeto socialista na Rússia, José Paulo Netto apresenta as consequências mundiais desse fato e reafirma a piora nas condições de vida da classe trabalhadora em todo o planeta. Ele destaca o fato de que o estado de bem-estar social europeu não foi uma dádiva concedida pela burguesia em respeito aos costumes do continente, mas a aplicação da máxima “vão-se os anéis, ficam-se os dedos”, frente à ameaça da influência socialista.

Ao analisar a polarização entre URSS e Estados Unidos (EUA) fica claro o papel desempenhado pelo bloco socialista. Os EUA empreendiam o terror mundial com duas bombas atômicas no Japão já derrotado, dizimando populações inteiras somente para mostrar forças, também investiram nas mais violentas ditaduras militares da América Latina, enquanto que a URSS apoiava processos de libertação nacional nas colônias africanas, se colocava contrária ao embargo cubano.

 

Soviet Turkmen artist Izzat Klychev (October 10, 1923 - January 12, 2006). A new era (in April 1917). Oil. 1975

A nova era (em abril de 1917), 1975. Do artista Izzat Klychev (1923 – 2006).

Com isso, não se pretende com esse texto apontar saídas para um tempo histórico e realidade social tão diverso da Rússia de 1917 como forma de cópia a ser aplicada pelas nossas organizações. Mas, se pretende aproximar com os elementos de inspiração da revolução questões que nos parecem fundamentais para o nosso avanço na luta de classes, a iniciar pela solidariedade de classes.

  • Resistir é necessário: a construção de respostas coletivas e a solidariedade de classe

Antes de tratar da questão da solidariedade de classe propriamente dita, é preciso que se faça a ressalva de que apesar da sua extrema relevância, não é esse o único elemento subjetivo necessário ao contexto revolucionário. O papel das organizações políticas e as características dessas, sem dúvida, são de maior relevância.

Esse é um texto que pretende tratar de uma questão basilar para que as organizações avancem que é o elemento da coletivização e que se expressa também nas ações de solidariedade de classe. Pois, para além de belas histórias, um dos necessários legados da revolução, é a construção atrás dos fatos históricos, para pensarmos nossa atuação política nos nossos dias.

2.1 Definições de solidariedade de classe

A nossa solidariedade, (solidariedade de classe) não é, por definição, a mesma solidariedade dos preceitos morais que utilizamos no nosso dia-a-dia. A solidariedade com a qual nos habituamos começa e, boa parte das vezes, termina no indivíduo. Trata-se de um compadecimento, está ligada quando muito ao conceito de empatia e a perspectiva de colocar-se no lugar do outro.

A solidariedade de classe por sua vez, é fruto de uma perspectiva política, é necessariamente coletiva, não é simplesmente por abstração se colocar no lugar do outro, mas se perceber no outro, ver como o que atinge companheiros, mesmo que em lugares distantes é um problema nosso, sendo assim, é, portanto, coletiva.

Diferentemente da solidariedade que vemos de forma esparsa, individualizada, a solidariedade de classe é um passo na ruptura da cápsula do indivíduo, constrói-se a partir de uma concretude e de uma resposta dada a ela. Ou qual é a melhor forma de se ver no outro do que encontrar-se com diferentes sujeitos para uma ação de enfrentamento em comum?

Esse é um elemento presente e de amadurecido das lutas, ou nos termos trazidos por Marx em um dos textos referência de teoria da revolução, “Mensagem do comitê central à liga dos comunistas” o proletariado em luta precisa “colher experiências” de luta na perspectiva revolucionária, e esses enfrentamentos preparam terreno das condições subjetivas da revolução.

É possível estabelecer ainda um comparativo no nosso conceito de solidariedade de classe, o da tradição marxista, com o de outro clássico da sociologia, Durkheim. Para Durkheim há dois tipos de solidariedade a mecânica típica das sociedades menos desenvolvidas na divisão do trabalho social e a orgânica, que caracteriza as sociedades capitalistas.

A ousadia desse trabalho é afirmar que a solidariedade de classe que se afirma como elemento necessário na luta contra o capital é um dos elementos do estado socialista em potência, ou seja, é uma das características da nova sociedade, dos elementos que Che Guevara apontava como sendo a construção do novo sujeito histórico e por isso, de crucial relevância que seja desenvolvido ainda que em germe sob o domínio do capital para que possa se intensificar à medida que rompemos com esse.

Soviet artist Konstantin Yuon (1875-1958). Moscow suburbs youth. 1926. Oil on canvas

Jovens do subúrbio de Moscou, 1926. Do artista soviético Konstantin Yuon (1875-1958)

 

  • Solidariedade de classe e o exemplo da Revolução Russa

Nas experiências da revolução russa há diferentes exemplos dessa preparação de luta que desenvolve e aprofunda mecanismos de solidariedade de classe. O próprio processo de revolução de 1905, uma luta derrotada, mas em muito presente na memória dos trabalhadores russos, possibilitou esse aprendizado como pode ser visto na criação dos sovietes, uma rica experiência de exercício de poder dos trabalhadores em concorrência com o poder do Estado.

Em 1917, mais de dez anos depois da derrota da primeira revolução russa, os sovietes que haviam sido extintos pela repressão czarista foram recriados pelos trabalhadores, sendo um elemento definidor para os rumos do processo revolucionário.

O próprio soviete já é um elemento fruto de um processo de reconhecimento da luta e de estabelecimento de solidariedade de classes, tendo em vista que o fator político que desembocou nas ações revolucionárias de 1905 foi a resposta além das próprias demandas de uma classe castigada com a guerra Russo-Japonesa, um ato solidário, aos trabalhadores assassinados pelas tropas do czar no episódio conhecido como “Domingo Sangrento”.

A vinculação de solidariedade à luta também retoma outro pilar da visão marxista, da luta, do confronto, que com a outra classe é sempre em perspectiva antagônica, inconciliável e que entre nós também se produz em conflitos, com diferenças e não escondendo nossas questões.

Ou seja, a solidariedade de classe, não surge naturalmente, não é um sentimento inato aos seres humanos ou aos trabalhadores, afinal o próprio conceito de classe não o é. Mas, é fruto de uma construção, ainda que muitas vezes venha a emergir de maneira espontânea.

Outro ponto que se destaca nessa perspectiva é que solidariedade de classe não é um elemento que nasce no mundo das ideias, mas nas ações concretas de classe. De forma mais precisa, a partir do enfrentamento, do sofrimento comum dos trabalhadores.  Nesse sentido, o episódio da greve das trabalhadoras no dia 8 de março marca bem esses aspectos.

No dia Internacional da Mulher, a contra gosto, inclusive da direção do Partido Bolchevique que considerava não haver preparo para o enfrentamento, as mulheres iniciaram um processo de greve que desencadeou a revolução de fevereiro de 1917 e a abdicação do czar do trono.

A manifestação do dia das mulheres foi seguida de atos mais massivos e de aumento das greves, mas não sem necessidade de confronto e construção da solidariedade ativa dos trabalhadores:

“Sem qualificação, com baixa remuneração, trabalhando de doze a treze horas por dias em condições de higiene precárias e insalubres, as mulheres exigiram solidariedade e ação por parte dos homens, especialmente daqueles que trabalhavam com engenharia qualificada e em fábricas metalúrgicas, que eram tidos como os politicamente mais conscientes e a força de trabalho socialmente mais poderosa da cidade. As mulheres jogaram paus, pedras e bolas de neve nas janelas das fábricas e forçavam sua entrada nos lugares de trabalho, pedindo pelo fim da guerra e pelo retorno de seus homens que estavam no front” (Trudell. Acesso em 27/10/2017).

Foram incontáveis momentos no processo revolucionário que essa capacidade de se ver no outro e se colocar em movimento conjunto foram vistas, inclusive com reconhecimento dos militares como membros das fileiras da classe trabalhadora que passam a se por em luta contra o governo provisório ao qual deveriam proteger. John Reed descreve um desses momentos:

Eram exatamente 5:17 da manhã quando Krilenko, cambaleando de fadiga, subiu à tribuna com um telegrama na mão. ‘Camaradas! Da Frente Norte. O 12º. Exército envia saudações ao Congresso dos Sovietes e anuncia a formação de um Comitê Revolucionário Militar que tomou o comando da Frente Norte!’. Pandemônios, homens a chorar, começaram a abraçar-se…

Nos termos de um dos líderes bolcheviques, dava para sentir a revolução no ar!

Collecting USSR matchbox labels. USSR matchbox labels dedicated to the International Women's day

Coleção de selos soviéticos dedicada ao dia internacional da mulher

  • Conclusão

O atual contexto nos coloca como desafio superar os ataques que estão diariamente entrando nos locais de trabalho, tendo clareza de que não estão acontecendo somente por vias políticas do governo federal, mas em todas as esferas, pois como afirma Gramsci, a hegemonia se inicia na fábrica, e é essa a origem do que está sendo sancionado e generalizado pelo Governo Federal.

São ataques contra a nossa classe de forma mais geral, com projetos de lei que pioram as condições de vida dos trabalhadores em conjunto. Algumas ações são contra setores da classe, contra categorias e movimentos sociais que são alvo de políticas persecutórias, assim como de perseguições individuais com a intensificação de represálias, prisões de militantes, adoecimento, etc.

Obviamente que estamos aqui denominando como ataques individuais as políticas promovidas contra a classe, mas que tem por foco o indivíduo, e que demonstram a intensificação das políticas contra os trabalhadores nos locais de trabalho.

O contexto atual também deve ser observado com a mesma lógica, com a derrota da URSS e com a ampla propagação e divulgação de fim da história, de impossibilidade de uma revolução socialista e da incapacidade da sustentação desta, o capitalismo avançou de forma despudorada sobre nossa classe e tem intensificado o ritmo de exploração.

Parafraseando Rosa Luxemburgo diz-se: caminharemos para a barbárie, enquanto nos mantivermos afastados da perspectiva socialista, o que coloca a construção de uma estratégia socialista como sendo a questão do dia, como o enigma da esfinge para o conjunto de trabalhadores brasileiros.

Um dos elementos de retomada da perspectiva socialista é a intensificação e construção da solidariedade de classe,  desenvolvê-la como elemento concreto, de práxis e de enfrentamento que realmente é, tendo como pano de fundo a compreensão de que a nossa solidariedade é um dos elementos de exercício de poder dos trabalhadores em construção já na velha que sociedade que precisamos destruir.

No mais, a melhor saudação que podemos fazer a nossa revolução russa é nos inspirarmos nela, nos seus avanços e nos balanços de seus equívocos e principalmente  recuperando como experiência da nossa classe para sair do julgo do capital. Viva a revolução russa!

***

Camila Marques é professora Instituto Federal de Goiás e militante da Intersindical- Instrumento de Organização e luta da classe trabalhadora.

 

Soviet graphic artist Vladimir Bendinger 1924-2012

Gansos, 1970s. Litografia, do artista gráfico soviético Vladimir Bendinger (1924-2012)

 

  • Referências bibliográficas

DURKHEIM, Émile. A divisão do Trabalho Social. São Paulo: Martins Fontes, 2012.

Guevara, Ernesto Che.  O socialismo e o homem em Cuba. https://www.marxists.org/portugues/guevara/1965/03/homem_cuba.htm. Acesso em: 30/10/2017.

Luxemburgo, Rosa. Reforma ou revolução. Disponível em: https://www.marxists.org/portugues/luxemburgo/1900/ref_rev/index.htm. Acesso em: 30/10/2017.

Marx, Karl. Mensagem do comitê central à liga dos comunistas. Disponível em: https://www.marxists.org/portugues/marx/1850/03/mensagem-liga.htm. Acesso em 23/10/2017.

Neto, José Paulo. Disponível em https://www.youtube.com/watch?v=9DqmFN2wuOU . Acesso em 27/10/2017.

REED, John. Os dez dias que abalaram o mundo.  Porto Alegre: LPM, 2002.

Trudell, Megan. As mulheres de 1917. Disponível em: http://www.esquerda.net/artigo/mulheres-de-1917/49268. Acesso em 27/10/2017. Acesso em: 20/10/2017.

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One thought on “A solidariedade de classe e as lições da Revolução Russa

  1. Camila, que textão! Fiquei pensando um monte de coisas a partir da leitura, vou trazer elas para cá para a gente debater em público, hehe
    1 – Sobre as ideias de crise como expressão dos limites do capital:
    Tenho algum acordo com essa ideia, mas tenho profundo incômodo com uma leitura corrente dessa afirmação que é dizer que a revolução, inevitavelmente, virá. Como se em algum momento o colapso do capital fosse inevitável e o socialismo a única saída possível. Pode ser a saída que queremos mas, infelizmente, a saída da barbárie continua aí, a disposição e se reinventando. Eu acho que isso aí tem a ver com uma coisa inerente ao Marx que é o lance teleológico da história mesmo, uma visão absurdamente moderna de como os processos históricos acontecem. Obviamente, a crítica da teleologia é clichê e óbvia e a crítica da modernidade pode ser chamada pós-moderna, rs, mas podemos gerar outras conversas mais interessantes se tomamos outro caminho. Meu ponto é: Se o capital não vai cair de maduro, a crise nos abre possibilidades, mas não nos garante nada. Mais do que isso: a crise é um momento de disputa. Ela pode ou não virar para o nosso lado – como não deixar com que ela vire choque, arma deles? Como fazer com que a reacomodação do capital pós crise nos leve para tempos ainda mais sombrios? Por enquanto, no momento atual, eles tão sabendo usar isso melhor que nós.
    2 – Sobre a solidariedade de classe que emerge do sofrimento e o seu oposto, o cinismo da esquerda:
    Outra coisa que me preocupa nessas leituras pró-crise e que de alguma forma também se relaciona com como você trouxe a noção de solidariedade de classe… Eu tenho arrepio de quando a esquerda se vê desejando o pior para a vida das pessoas porque é daí que emergem as possibilidades revolucionárias. A gente vira cínico, sabe? As pessoas (e comunidades, não tô pensando numa perspectiva individual) não nos importam tanto quanto o NOSSO projeto político… se elas precisarem passar o pão que o diabo amassou para fazermos a revolução, bem, paciência. Sinceramente, eu acho que é nesse momento que equiparamos com eles, um ponto do germe do nosso autoritarismo. Não posso concordar com o cinismo.
    Por outro lado, a saída da esquerdona brasileira para essa questão tem sido projetos como o democrático popular: vários remendos, capitalismo humanitário e até uma argumento bem parecido com o meu para combater qualquer crítica que fizermos à insuficiência e perigos dos seus caminhos. Eu acho que deve ter alguma coisa além dessas duas possibilidades nesse debate, outros caminhos entre uma e outra – e aí eu penso na experiência zapatista, nos panteras negras, no processo do Curdistão.. talvez tenham coisas aí para nos inspirarmos .
    Junto com essa questão, eu quero dizer que acho lindão a sua ideia de solidariedade de classe, que você disse que é do Marx, mas que esse texto eu não conheço (me senti meio bocó, mas tudo bem, vamos lê-lo que ainda há tempo, heheh). Eu detesto a noção de empatia, justamente porque acho que a gente volta pro indivíduo e aí tamo aí, imitando o Estado na sua concepção de sujeito. Eu poderia viajar mais nessa questão, mas vou parar por aqui e deixar para outro comentário. Obrigada pelas inquietações <3

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